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Sexta-Feira 27.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

Depois da pandemia

O que pode mudar nas relações de amizade depois da pandemia com o ‘novo normal’

Postado em 11 de Novembro de 2020 - Theresa Hilcar

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Todos nós estamos ansiosos pelo fim da pandemia e pela vacina que irá nos imunizar. E não é apenas pela saúde, mas para poder retomar a vida exatamente do ponto em que ela parou. Infelizmente, creio que isso não será possível.

Acredito, inclusive, que não haverá volta ao normal, nem ao agora cultuado “novo normal”, a expressão da moda. 

Há alguns meses era inevitável - e extremamente comum - encontrar um amigo ou familiar e abraçar, beijar ou apertar as mãos. Hoje, uma cena dessas, ainda que seja vista em filmes na TV, nos causa certa estranheza. 

Sei que existem pessoas, especialmente no Brasil, que não se importam, e continuam se comportando da mesma maneira, como se desafiassem o vírus. 

No entanto - e por mais que existam os transgressores, por assim dizer -, as relações interpessoais mudaram. Tenho leve desconfiança de que as amizades não serão mais as mesmas depois que tudo passar. Estamos separados dos amigos há tempo demais e isso, de algum modo, isto afetou nossos vínculos. 

O ano está acabando e, praticamente, não vimos nossos amigos. Ficamos tão autocentrados na nossa sobrevivência que congelamos as amizades. Mudamos nosso eixo. É claro que usamos sim, e muito, todos os recursos tecnológicos que temos à disposição. Mas carinho, generosidade e cumplicidade, a meu ver, não são passados através de Whatsapp. É necessária a verdadeira presença.

Em 1999, quando o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, falecido em 2017, lançou o livro Modernidade Líquida, não se podia imaginar um vírus capaz de paralisar nações. Ainda assim, naquela época, ele já havia notado que o século XXI não seria mais como o século XX. 

Segundo o autor (cuja leitura recomendo), antes os valores se transformavam em ritmo lento e previsível. Tínhamos algumas certezas e a sensação de controle sobre o mundo – sobre a natureza, a tecnologia, a economia. 

Mas acontecimentos da segunda metade do século XX, como a instabilidade econômica mundial, o surgimento de novas tecnologias e a globalização criaram um mundo líquido, no qual as coisas são tão rápidas e efêmeras que não há tempo suficiente para que elas se solidifiquem.

Nessa passagem do mundo sólido para o líquido, Bauman chama a atenção para a liquefação das formas sociais, inclusive das amizades.

A pandemia do novo coronavírus provavelmente só intensificou e deve continuar intensificando esse processo de liquidez. E tudo que é líquido se esvai.

Devo confessar que o futuro das relações de amizade me preocupa. Amigos são irmãos que escolhemos ao longo da vida. E o paradoxo é que justamente quando mais precisamos deles não podemos alcançá-los. A bem da verdade, sinto que a distância exacerbada pela pandemia tenha nos deixado um pouco mais egoístas. 

Tudo isso sem falar na falta que faz um abraço. Aquilo que a ciência explica como “sistema de recompensa que ativa nossos circuitos responsáveis pelas emoções agradáveis que causam sensação de conforto”. 

Temo seriamente a perda deste hábito tão característico dos brasileiros de demonstrar afeto através do toque, do abraço, da alegria dos encontros. Temo que a distância tenha comprometido nossa capacidade de demonstrar carinho. Tomara eu esteja enganada.

Depois da saúde, dizia minha avó, são os amigos a coisa mais importante da vida. Por isso espero que eles não sejam contaminados pelo coronavírus nem pelo vírus da indiferença. Que assim seja!


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