Semana On

Quinta-Feira 28.jan.2021

Ano IX - Nº 427

Coluna

‘Ponto de Mutação’ na era do webinário

A dança que vitaliza o universo

Postado em 04 de Novembro de 2020 - Clayton Sales

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Seminários transmitidos a qualquer canto do planeta com acesso à internet. Debates nas telas digitais do Youtube. Reuniões carregadas de saberes possíveis graças a aplicativos de teleconferência por celulares. Eventos temáticos, de científicos a artísticos, estruturados para plateias em casa. Assembleias decisivas para um segmento realizadas por Zoom, Meet e Teams. Feiras de livros, festivais de cinema, competições musicais e espetáculos teatrais acessíveis por smartphone, tablet ou notebook. Os dias de pandemia catapultaram as aulas remotas, com suas compensações e anomalias. A contemporaneidade mergulhada na selva errática do ciberespaço transformou encontros concebidos sob o hábito e a beleza humana da presencialidade em lugares remotos e próximos. Se a geografia aponta distância, a virtualidade a reduz ao aconchego da sala ou a intimidade do quarto. Jamais o saber esteve tão ao alcance de parte da humanidade, óbvio, a que desfruta de condições para uma boa conectividade. 

Dessa forma, é possível imaginar um painel que agrupa uma cientista, um político e um poeta para discutir perspectivas sobre o planeta e o momento crucial em que o ser humano terá que repensar sua visão fragmentada do mundo e de si próprio. Provavelmente, seria amplamente anunciado nas redes sociais, haveria chamadas espalhadas em stories do Instagram e convites povoando grupos de WhatsApp. Durante o evento, atenções distribuídas em cada nó da rede mundial de dispositivos online, ramificando-se em incontroláveis segundos. Após o debate, a disponibilidade do material para as pessoas que não puderam assistir. A posteridade na nuvem.

Pois essa discussão aconteceu há décadas, quando a internet ainda era percebida como ficção científica para quem estava fora dos ambientes militares e acadêmicos, e a telefonia não passava de telefonia. O filme "Ponto de Mutação" (1990) é uma produção que habita as sombras porque parece concebida menos por anseios cinematográficos e mais por aspirações epistemológicas. O cinema como catalisador de reflexão. A história começa com Jack Edwards, candidato derrotado à presidência dos EUA, frustrado com o fracasso, telefonando para Thomas Harriman, poeta e dramaturgo solitário que mora em Paris, propondo um tempo na sua casa. Na França, os amigos resolvem dar um passeio até a ilha onde está a abadia medieval do Monte Saint-Michel. No lugar, eles conhecem Sonia Hoffman, física que vive em período sabático após se desencantar com o uso militar de sua descoberta científica para a fabricação de armas. Cada um com seus dramas. 

O casual encontro entre as mentes de Sonia, Jack e Thomas tem como locus inicial o compartimento onde fica a engrenagem de um grande relógio. A partir de um comentário sobre o tempo, Thomas pergunta a Sonia se ela concordava que o relógio foi a causa primordial da ruptura do homem com a natureza. Ela responde que o relógio foi além, ao ser adotado como o próprio modelo da natureza, não como um sistema vivo, mas uma maquinaria reduzida a seu mecanicismo. Então, essa visão definiu o padrão para explicar todos os fenômenos, inclusive as ideias políticas, o que foi questionado por Jack. Sonia recorre a René Descartes e a seu pensamento revolucionário, pois valorizou a racionalidade, mas reducionista para as teorias sistêmicas que almejam interpretações mais abrangentes. O pensamento cartesiano é o alvo da cientista reclusa. 

Daí por diante, vários assuntos entram em debate, confrontando a nova forma de pensar que Sonia propõe com a angústia sentimental de Thomas e o pragmatismo fragmentário de Jack. O longa-metragem tem a direção de Bernt Capra, baseado no livro "O Ponto de Mutação" (1982) do físico austríaco e irmão Fritjof Capra, que colaborou com o roteiro escrito por Floyd Byars. A obra propõe uma análise das crises econômicas, científicas e ambientais sob a perspectiva da Teoria Geral dos Sistemas. Desse modo, a experiência de transformar uma produção tão analítica e complexa em trabalho cinematográfico era desafiadora. Como desenvolver proposições teóricas em forma de cenas e interpretações? Carregar na ficção poderia ocultar os conceitos discutidos. Realizar um documentário ou uma conferência filmada poderia deixá-lo menos atraente. A saída encontrada foi aglutinação das duas ideias. 

A trama insere pequenas histórias pessoais dos protagonistas e um caminho narrativo cuja função foi aguçar as mentes de Sonia, Jack e Thomas. Sonia recebe a filha que está de férias, mas ela se queixa do distanciamento da mãe. Jack está aflito à caça de um discurso que convença seus eleitores na próxima disputa. Thomas amarga a solidão da carreira literária paralisada. Essas pequenas jornadas se abraçam em momentos precisos nas conversas sobre conexões entre as pessoas e suas relações com o mundo. Para isso, as interpretações seguras e envolventes de Liv Üllman, Sam Waterston e John Heard foram fundamentais. Envolvimento com seus personagens e com as ideias vocalizadas por eles. Tática eficaz para temas áridos. 

Os espaços também foram elaborados de acordo com cada ponto. Para a questão do tempo, a casa das máquinas do relógio. Para as questões ambientais, incluindo a destruição da Amazônia, o parapeito com vista a uma paisagem arenosa. Para a questão do poder e patriarcado, a câmara de tortura do mosteiro. Para a questão das partículas subatômicas e a luz, as altas edificações da catedral com saída para um cenário aberto e o clima claro. Para a questão da física quântica e da vida como probabilidades de conexões, a sala onde está um cravo, tocado por Thomas. Para a teoria dos sistemas, as areais da praia interagindo com a lenta subida da maré, Jack exaltando as virtudes de Thomas Jefferson e Thomas recitando "Enigmas" de Pablo Neruda sobre o saber da natureza ainda longe de ser desvelado pelo homem. Construção cinematográfica simples e funcional para encerrar o filme com a constatação de que ainda somos "peixe encerrado no vento". 

Embora acompanhe a caminhada intelectual de três personagens simbolizando áreas diferentes, a ciência, a política e a arte, "Ponto de Mutação" tem em Sonia Hoffman seu núcleo. Ela é a ignição dos debates, o delicado e caudaloso lança-chamas do pensamento holístico que acopla esses universos a outros recantos isolados pelo sistema educativo hegemônico. Sonia aparenta ser a personificação fílmica do próprio Fritjof Capra, não apenas pela coincidência proposital de serem físicos, mas porque é pela boca da cientista que as teorias do livro são expostas. Sam e Thomas funcionam como agentes provocadores que fincam interrogações nas teses proferidas por Sonia. Ela as responde não com a arrogância da certeza absoluta, mas com a consciência de um processo em construção e deixa muitas janelas argumentativas destrancadas. No seu teor, o filme é uma obra aberta, que joga novas cartas na mesa do conhecimento. 

Reside na capacidade de construir representações um dos poderes do cinema. "Ponto de Mutação" prova que a sétima arte pode ser receptiva com roteiros dialogais e permutas intelectuais. Praticamente todo o longa-metragem é um bate-papo sofisticado, cheio de hipóteses, alegorias e dissonâncias. É um encontro entre a objetividade da política com a sensibilidade da arte ciceroneado pela profundidade da ciência. Ação e espírito permeados pela reflexão. A encruzilhada fatídica em que a humanidade terá de decidir entre manter o modo pulverizado de perceber sua existência e a coragem de mergulhar na complexidade, suas conexões prováveis, navegar nas incertezas e assumi-las como parte da vida, parece se aproximar. Tema excelente para webinário, assim como foi revelador quando o livro de Fritjof Capra chegou ao público. E o cinema o transformou em película para ser assistida com os sentidos em atividade. Principalmente sob a tríade pensar-sentir-agir. Não exatamente nessa ordem, mas como na dança de Shiva, lembrada no filme. A dança que vitaliza o universo. Afinal, o ponto de mutação se aproxima.


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