Semana On

Quinta-Feira 26.nov.2020

Ano IX - Nº 420

Coluna

O pavor que gera arte

O medo nos enxerta o encanto do proibido. O terror apresenta o proibido e dissimula o aviso. As pessoas ignoram o aviso e adentram o proibido. O cinema de terror agradece

Postado em 28 de Outubro de 2020 - Clayton Sales

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Na antiga Suméria, Pazuzu era demônio temido e invocado. O temor que causava vinha do poder em causar fome e seca. A criatura era tão poderosa que destruía outras entidades como ele. Por isso, pessoas penduravam amuletos com sua imagem no pescoço para fecharem o corpo contra outros invasores. Pazuzu tinha corpo de homem, cabeça de fera, asas de anjo, cauda de escorpião e pele escamosa. Foi uma estátua do demônio que o padre e arqueólogo Lankester Merrin encontrou durante uma escavação no Iraque. Bem longe dali, nos Estados Unidos, uma garota chamada Regan MacNeil padece de estranha doença. Seu corpo adolescente ganha chagas e coloração horrendas. Seu rosto apresenta feições cada vez mais retorcidas. Ela se estrebucha em convulsões alucinadas. Regan levita da cama sob a iluminação escassa do seu quarto. Depois que os médicos capitulam, o desespero leva a mãe a chamar o padre Damien Karras, também psiquiatra e que atravessa instabilidade na sua fé em Deus. Ao chegar à casa dos MacNeil, começa uma carnicenta batalha entre o clérigo e o ser que habita Regan. A peleja envolve assustadores fenômenos paranormais, blasfêmias, cusparadas caudalosas e falas com voz bizonha. Pazuzu estava em Regan, o que levou Damien a pedir ajuda ao experiente padre Merrin, que constata que sua descoberta no Oriente Médio pode ter libertado o demônio que vagou pelo planeta e se plantou na jovem. O percurso até o desfecho da trama, com o padre Damien concedendo-se a extrema-unção, tapeando o capeta fazendo-o entrar em seu corpo e se atirando pela janela, é um dos mais pavorosos que o cinema já construiu. Com impecável trabalho de figurino e maquiagem, atuações competentes, enquadramentos claustrofóbicos e habilidosa semeadura de sugestões subliminares na fotografia escura e sombria, "O Exorcista" (1973) de William Friedkin é um clássico do terror, baseado no romance de William Peter Blatty. Uma classe de terror que consegue capturar medos ancestrais conectados ao forte componente religioso que integra a educação ocidental. O inovador uso de efeitos especiais criou precedentes para gerações de realizadores encantados com o terror. Nada melhor que demônios para ampliar o potencial do gênero em causar impacto. 

Porém, a relação dos cineastas com o coisa-ruim nem sempre foi pautada pelo pavor. Um filme mudo de pouco mais de dois minutos narra a história de um espadachim que se encontra com o diabo disfarçado de morcego. Ele adquire várias formas, despertando o espanto do heróico protagonista. Em "La Manoir du Diable" (1896), o visionário diretor francês Georges Méliès utiliza seus conhecimentos em ilusionismo, pantomima e teatro para produzir uma encenação cujo objetivo inicial era causar riso. Como o roteiro da pequena obra tocava em elementos como demônios, bruxas, fantasmas, vampiros e aparições sobrenaturais, o resultado provocou mais sustos que gargalhadas. Esse é um dos motivos para que "La Manoir du Diable" seja considerado o primeiro filme de terror da história da sétima arte. Nos anos 1920, o expressionismo alemão refinou as técnicas da arte cinematográfica e suas características se encaixaram perfeitamente ao gênero. Histórias macabras puderam ser desenvolvidas com recursos mais sofisticados e o resultado foi o ganho de qualidade. Um exemplo é "Nosferatu" (1922) de F. W. Murnau. O longa-metragem representou significativo avanço para o cinema, em particular, para o terror, exercendo influência em produções posteriores do segmento. É a história do vampiro que se apaixona por uma bela moradora de uma cidade e que atormenta sua população em nome do amor sinistro. O cinema de terror, aos poucos, construía personalidade. 

Como em outras modalidades, o terror se alimentou - e ainda se alimenta - da literatura. Autores como Bram Stoker e seu inesquecível Drácula, Edgar Allan Poe com seu soturno Corvo, Mary Shelley e seu épico Frankenstein e H.P. Lovecraft com suas entidades cósmicas criaram obras seminais. Outros escritores modernos como Ann Rice forneceram inspiração abundante para roteiristas elaborarem suas tramas. Muitas delas dialogam com problemáticas da vida comum, como "Carrie, a Estranha" (1976) de Brian de Palma, primeira adaptação de um escritor de sucesso mundial especializado em livros de terror: Stephen King. A história utiliza a poderosa paranormalidade reprimida da protagonista para levantar a questão do bullying nas escolas, já que Carrie era alvo das chacotas agressivas dos colegas. Até que, no baile do colégio, uma brincadeira humilhante desperta seus dons destrutivos e as consequências são terríveis. Tanto a literatura quanto o cinema de terror são nichos de grande popularidade, formando uma relação profícua. Nas páginas e nas telas, o medo rende. 

Diversas produções de terror pelo mundo buscam em lendas e mitos a base de suas narrativas. No Japão, o cinema recorre ao youkai, conjunto de criaturas sobrenaturais humanas ou monstruosas capazes de se transformar ou adquirir atributos fabulosos. Mesclado a elementos do teatro kabuki e sua maquiagem fortemente branca e frígida, o resultado é assustador, como atesta o filme "Ju-on" (2003) de Takashi Shimizu, baseado em uma crendice que afirma que quando alguém morre com ódio, uma maldição habita o corpo da pessoa falecida, assombrando qualquer um com quem entre em contato. O cinema italiano também criou seu subgênero do terror, com filmes carregados de corpos mutilados, assassinos em série perseguindo e matando mulheres, e violência exacerbada. Inspirado na cor amarelada das capas das revistas pulp publicadas no país, o terror giallo foi popular nos anos 1960 e 1970, influenciando correntes como o terror gore e o terror trash. Um exemplo marcante dessa forma de cinema é "Olhos Diabólicos" (1963) do pioneiro cineasta italiano Mario Bava, sobre uma jovem que investiga o assassinato da amiga e se envolve em uma trama mórbida. O cinema de terror se alastrava pelo planeta. 

E chegou ao Brasil, também nos anos 1960. O responsável por colocar o país no mapa do terror cinematográfico foi o cineasta José Mojica Marins. Ele escreveu, produziu, dirigiu e estrelou o clássico nacional "À Meia-Noite Levarei sua Alma" (1964), no qual aparece pela primeira vez seu famoso personagem Zé do Caixão, com suas unhas gigantescas e fala lentamente assombrada. Zé do Caixão é um coveiro que viola a namorada do melhor amigo para ela conceber o filho que sua esposa não pôde gerar. No entanto, a moça deseja se matar para voltar da morte e arrastar Zé do Caixão. Desde então, o terror brasileiro sobrevive sem grandes investimentos, o que não impediu, nos últimos anos, um impulso na safra de filmes nacionais do gênero. Um bom representante recente é "Quando eu era vivo" (2014) de Marco Dutra, sobre um homem que volta para a casa dos pais após perder o emprego e o casamento, mas se envolve com mistérios da família que o tornam obcecado entre a realidade e a fantasia. Em Campo Grande (MS), a produtora Astaroth vem se dedicando a elaborar obras no segmento, como "Domina Nocturna" (2019) de Larissa Anzoategui e roteiro de Ramiro Giroldo, longa-metragem que conta a história de Angelique, vagante por uma cidade morta quando é tomada por delírios. Nessas alucinações, ela conhece uma vampira que desconhece o amor, um ritual de adoradores do demônio, uma bruxa que busca a receita perfeita e uma paixão que sobrevive à morte. Na luta diuturna de seus realizadores, o Brasil apresenta seus expoentes do terror.

O medo é um estado mental que coloca quem o sente em alerta. Os perigos iminentes percebidos pelo ser humano podem ser reais ou imaginários. Sentir-se ameaçado é o cerne. O cinema de terror explora essas sensações com o poder que os recursos audiovisuais proporcionam. Essa riqueza de possibilidades levou à diversificação do gênero, sendo o terror psicológico uma das mais investidas. Nele, o que importa não é a materialização do pavor, mas suas insinuações e sugestões, como em "O Bebê de Rosemary" (1968) de Roman Polanski, no qual o horror é construído sobre as expressões da personagem principal, causando expectativas angustiantes. Outra forma é o pseudodocumentário, que transporta a plateia para um falso realismo, como em "A Bruxa de Blair" (1999) de Eduardo Sánchez e Daniel Myrick, sobre cineastas que desaparecem após uma expedição na floresta para filmar um documentário e apenas a câmera deles é encontrada. Outro aspecto interessante de algumas obras de terror é abdicar do costumeiro cenário noturno e ambientar suas tramas em paisagens claras. "Midsommar - O Mal Não Espera a Noite" (2019) de Ari Aster é um exemplo, com sua história sobre estranhos rituais que envolvem um casal em crise em suas férias de verão numa ensolarada colônia campestre. O terror ignora fronteiras quando a intenção é apavorar.

Por que o cinema de terror faz tanto sucesso? Um caminho para responder a essa inquietação é a mente. Ela é um imenso oceano de obscuridades. Faculdades como criatividade, imaginação e raciocínio, positivas e produtivas, escondem os porões da nossa cabeça. Neles, situam-se medos, fobias, pânicos e pavores. São essas instâncias que as produções de terror procuram atingir. Fenômenos sobrenaturais estão ligados à sensação de impotência diante do desconhecido. Monstros dão forma aos horrores que se abrigam no coração. Demônios evocam sentimentos que emanam de processos culturais e religiosos. A violência fornece insumos para um terror ao alcance dos atos meramente humanos. Mitologias são lagoas de ideias para fabricar ilusões malignas. Tudo isso aproxima o medo de sua inusitada parceira: a curiosidade. O homem teme o oculto, mas não resiste em conhecê-lo. Medo e curiosidade formam uma dialética. Sentimos medo, mas desejamos saber o que o causa. Ardemos em curiosidade, mas saná-la exige caminhar sob o medo. É nesse diálogo que reside o prestígio do cinema de terror. O medo nos enxerta o encanto do proibido. O terror apresenta o proibido e dissimula o aviso. As pessoas ignoram o aviso e adentram o proibido. O cinema de terror agradece.


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