Semana On

Sexta-Feira 27.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Especial

Mais obscurantismo

Boicote à vacina chinesa é o maior atentado de Bolsonaro contra a saúde pública

Postado em 26 de Outubro de 2020 - Victor Farias (O Globo), João Filho (The Intercept_Brasil), Josias de Souza (UOL), Painel (Folha de SP) – Edição Semana On

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Apesar de diversos estudos científicos realizados mundo afora (veja aqui, aqui, aqui e aqui) já terem concluído que antimaláricos como a cloroquina e hidroxicloroquina, o coquetel antiviral remdesivir, lopinavir e ritonavir, usados contra o HIV, e o interferon não terem efeito significativos contra a covid-19, o presidente Jair Bolsonaro insiste no discurso medieval da antivacina.

Na última segunda (26), afirmou que não entende a "pressa" no desenvolvimento da vacina contra o novo coronavírus. Citando a hidroxicloroquina, Bolsonaro também questionou apoiadores se não seria mais fácil e barato "investir na cura do que na vacina". “O que nós queremos é buscar a solução para o caso. Agora, pelo que tudo indica, a vacina que menos demorou até hoje foram quatro anos, eu não sei porque correr em cima dessa. Eu dou minha opinião pessoal: não é mais fácil e barato investir na cura do que na vacina? Ou jogar nas duas, mas também não esquecer da cura? Eu, por exemplo, sou uma testemunha [da cura]. Eu tomei a hidroxicloroquina, outros tomaram a ivermectina, outros tomaram annita e deu certo”, afirmou, no Palácio da Alvorada.

Bolsonaro afirmou que o governo não "quer atropelar" a discussão sobre a vacina e comprar uma substância sem "comprovação" científica. Ele disse que espera a publicação dos resultados dos imunizantes desenvolvidos contra a Covid-19 em uma revista científica, para tomar uma decisão, embora seu discurso tenha sido, até o momento, anticientífico.

Primeiro, o presidente da República disse que não obrigaria ninguém tomar vacina contra a covid-19, apesar de ter assinado um decreto que torna a vacinação compulsória. Ele pretendia antagonizar o governador João Doria, que afirmou que a vacina seria obrigatória em São Paulo. Depois, suspendeu o protocolo firmado entre seu ministro da Saúde e o Instituto Butantan para a compra de 46 milhões de doses da vacina criada pelos chineses. Passou então a fazer ataques contra a vacina sem base em nenhum dado científico, colocando uma nuvem de dúvidas sobre a população quanto a sua segurança. Na prática, Bolsonaro boicota a saúde da população com base em um preconceito estúpido contra os chineses.

Essa empreitada para boicotar a vacina talvez tenha sido o crime de responsabilidade mais evidente já cometido pelo presidente. Mais evidente e mais vil. Foi provavelmente o mais baixo degrau moral que um presidente já chegou. Estamos diante um atentado contra a saúde pública que, se confirmado, matará milhares de brasileiros.

A fama de genocida vai ganhando justificativas irrefutáveis. Essa é só mais uma ação de um presidente que enfrentou a pandemia se baseando unicamente em critérios ideológicos, rejeitando a ciência e, consequentemente, empurrando seu povo para a morte. O “efeito Bolsonaro” foi comprovado por uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ, que concluiu que, quanto mais bolsonarista uma cidade, maior o número de pessoas infectadas com a covid-19. Os pesquisadores afirmam que para cada 10 pontos percentuais a mais de votos para Bolsonaro, há um aumento de 12% no número de mortos pela doença. A politicagem barata de Bolsonaro, calcada nas paranoias anticiência da extrema direita, mata cidadãos brasileiros. Essa já não é mais uma questão de opinião. É um fato.

Esta talvez tenha sido a semana em que Bolsonaro contou mais mentiras — e olha que ele estabeleceu um padrão altíssimo no volume de mentiras durante o mandato. Primeiro, passou a questionar a falta de comprovação científica da vacina. Sim, o garoto-propaganda da cloroquina, cuja ineficácia para o tratamento contra a covid já foi fartamente comprovada, decidiu agora se fiar na ciência. Registre-se que os EUA chegaram a doar 2 milhões de doses de cloroquina para o Brasil e, logo em seguida, suspenderam seu uso para o tratamento da covid. A obsessão pelo remédio era tanto que um ex-assessor de Bolsonaro, Arthur Weintraub, sugeriu que os opositores da cloroquina deveriam ser julgados como os nazistas foram pelo Tribunal de Nuremberg.

“Não se justifica um bilionário aporte financeiro num medicamento que sequer ultrapassou sua fase de testagem”, afirmou Bolsonaro. Acontece que isso nunca foi um problema, já que ele destinou quase R$ 2 bilhões para a vacina de Oxford, que está no mesmo patamar de testagem da vacina criada pelos chineses e, pasmem, será fabricada com insumos farmacêuticos chineses. “Não acredito que vacina chinesa transmita segurança pela sua origem”, destilando mais uma vez seu preconceito contra os chineses. É com essa desconfiança, referenciada unicamente por mentiras espalhadas nas redes sociais, que o presidente trata o nosso principal parceiro comercial.

Essa volta à baila do preconceito contra os chineses coincide com a visita de um conselheiro de Donald Trump ao Brasil, cuja principal missão foi a de impulsionar uma campanha anti-China por aqui. Uma de suas ações foi tentar barrar a empresa chinesa Huawei do mercado de 5G por supostamente não oferecer garantias de segurança e privacidade. Portanto, os novos ataques contra a China matam dois coelhos com uma cajadada só: ataca Doria, considerado por ele seu principal rival na sucessão presidencial, e balança o rabinho para Trump — uma subserviência que é a marca da política internacional bolsonarista e que até agora não nos trouxe nada de positivo, muito pelo contrário.

Precisamos falar sobre a postura do presidente da Câmara Rodrigo Maia que, até aqui, vem normalizando o projeto bolsonarista de destruição do estado e da saúde dos brasileiros. Apesar de passar meses batendo boca com o presidente pela imprensa no auge das ameaças golpistas, o DEM, seu partido, seguiu passando pano para Bolsonaro. É o terceiro partido mais fiel ao bolsonarismo nas votações da Câmara, ficando atrás apenas de partidos de extrema direita como PSL e Patriota.

Além disso, Maia sentou sobre todos os vários pedidos de impeachment não por acreditar que não haveria votos suficientes para aprová-lo, mas, por não achar que o presidente tenha cometido crimes de responsabilidade, como disse no Roda Viva. A afirmação é uma afronta à nossa inteligência e à democracia. O que não falta para Bolsonaro são crimes de responsabilidade com provas irrefutáveis. Nem parece que estamos no país que outro dia derrubou uma presidenta por pedaladas fiscais com o apoio de Maia e seu partido.

A postura conciliatória de Maia não tem nada de republicana. Bolsonaro passou atacando instituições e impôs uma agenda genocida ao país com a chegada da pandemia. As declarações do presidente da Câmara o tornam um garantidor do bolsonarismo e ajudam a normalizá-lo. O país viveu quase dois anos assistindo às maiores barbaridades antidemocráticas da história do Planalto enquanto o chefe da Câmara tratava de colocar panos quentes. Essa postura conciliatória seria louvável se não estivéssemos lidando com um presidente com uma postura facínora, disposto a empurrar milhares de brasileiros para a cova — uma tragédia que terá as digitais do presidente da Câmara. O bolsonarismo virou o novo normal com a contribuição generosa de Maia.

A cobertura da grande imprensa tem sido cada vez mais lamentável. Depois de exaltar nas manchetes a conversão de Bolsonaro à moderação — algo que nunca aconteceu de fato —, agora trata a discussão em torno da vacina como uma disputa política normal entre dois rivais políticos. A obsessão pelo “doisladismo” que assola o jornalismo pode nos levar aos lugares mais obscuros.

Vimos por todo canto do noticiário manchetes destacando a “disputa” e a “guerra” entre os políticos em torno da vacina. “Como disputa entre Bolsonaro e Doria pode atrasar vacina”, “Em guerra da vacina, Bolsonaro ataca Doria“, “Como disputa entre Bolsonaro e Doria pode atrasar imunização dos brasileiros“. Lendo essas manchetes, fica a sensação que temos dois adversários políticos brigando por seus próprios interesses quando, obviamente, não é esse o ponto central. Trata-se de uma questão de saúde pública, em que o presidente renega a ciência e coloca a população em risco. Esse é o fato grave a ser destacado. Doria, claro, faz seu marketing em cima da coisa, mas, de fato, está cumprindo o que lhe cabe como governador para trazer a vacina.

O emprenho por tratar tudo com isenção e equilíbrio, mesmo que isso afete a precisão da informação, transformou um assunto da maior gravidade em uma mera disputa de cabo de guerra. É claro que existe um embate político por trás, como há em tudo, mas ele é irrelevante quando temos um presidente da República fazendo o diabo para sabotar uma vacina por motivos puramente ideológicos. Esse doisladismo atende aos interesses de Bolsonaro. Tudo o que ele quer é transformar a questão em uma “guerra”, uma “disputa” política. Esse tipo de cobertura tira o foco do caráter genocida do boicote do presidente à vacina.

A boa notícia é que a Anvisa liberou a importação da matéria-prima utilizada na fabricação da vacina chinesa no Brasil, mesmo depois das declarações de Bolsonaro. Dois dias antes, ele afirmou que o presidente da Agência não teria pressa em liberar a vacina. Vamos ver até onde vai o plano do presidente em boicotar a saúde do povo. A ideologia bolsonarista é uma máquina de fabricar cadáveres.

Piada de Bolsonaro sobre vacina destoa de campanha de vacinação do governo

Jair Bolsonaro e o Ministério da Saúde frequentaram as redes sociais no final de semana em posições antagônicas. A pasta supostamente comandada pelo general Eduardo Pazuello fez campanha pela atualização da caderneta de vacinação de crianças e adolescentes menores de 15 anos. O presidente, autoconvertido em garoto-propaganda da liberdade de infectar —fez piada.

Termina nesta sexta-feira (30) a campanha iniciada em 5 de outubro para alertar os pais sobre a necessidade de vacinar seus filhos contra a poliomielite e outras doenças. "Você sabia que o Brasil tem o maior programa de vacinação do mundo?", pergunta um garoto no vídeo postado pelo ministério. "São vacinas que nos protegem e nos fazem crescer fortes e saudáveis", declara uma menina.

"Vacina obrigatória só aqui no Faísca", gracejou Bolsonaro na legenda que postou ao lado de uma foto em que faz sinal de positivo na companhia do cachorro da primeira-dama Michelle. O presidente contradiz a si mesmo, pois sancionou em fevereiro uma lei que prevê a "vacinação compulsória" para o "enfrentamento de emergência de saúde pública de importância internacional".

Embora o alvo de Bolsonaro seja a vacina contra o coronavírus, ainda em fase de teste, ele não fez distinção no Twitter. Quem lê o presidente fica com receio de que sua pregação prejudique o esforço da Saúde, que trata as vacinas não como uma obrigação, mas como um direito dos brasileiros.

"Muitas doenças deixaram de ser um problema de saúde pública no Brasil e no mundo graças à vacinação massiva da população", escreve o Ministério da Saúde na página do Movimento Vacina Brasil, disponível no seu site. "Atualmente, o Programa Nacional de Imunizações oferece 18 vacinas para a vacinação de crianças e adolescentes, que protegem de doenças, como sarampo, febre amarela, rubéola, caxumba, hepatites A e B, entre outras."

Na semana passada, o ministro Pazuello foi desautorizado por Bolsonaro após anunciar que o governo compraria 46 milhões de doses da CoronaVac, a vacina contra Covid-19 que está sendo testada no Brasil pelo Instituto Butantan. "Não vamos comprar", desmentiu o presidente, referindo-se ao imunizante como "vacina chinesa do João Doria".

Judicialização

No ápice da guerra que opõe Bolsonaro e Doria, o governador de São Paulo encontrou-se em Brasília, com o presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux. Lero vai, lero vem, a conversa evoluiu para um tema incontornável: a vacina. Fux atalhou a prosa. Disse que preferia não conversar sobre o tema. Sabe que terá que se manifestar sobre a encrenca como magistrado, num julgamento submetido ao plenário da Suprema Corte.

Dia seguinte, Bolsonaro disse na sua transmissão semanal pelas redes sociais: "Duvido que a Justiça vá obrigar alguém a tomar a vacina". Além da obrigatoriedade, prevista em diferentes leis, inclusive numa que Bolsonaro sancionou em fevereiro, está em questão a inclusão da vacina chinesa a ser fabricada pelo Butantan no programa nacional de vacinação do Ministério da Saúde.

Luiz Fux previu o óbvio: "Podem escrever, haverá uma judicialização" da encrenca da vacinação. As ações já começaram a chegar ao tribunal. O ministro definiu a entrada da Suprema Corte na contenda como "necessária" e "importante." Não é difícil antever o que está por vir. Se não desistir do papel de garoto-propaganda da liberdade de infectar, Bolsonaro será derrotado no plenário do Supremo. Se tivesse juízo, o presidente retiraria a raiva do pudim e se reposicionaria em cena. Mas juízo é matéria-prima que não orna com a antecipação da pauta de 2022.

O mais curioso é que a guerra da vacina é tão irracional quanto inútil. Se todas as vacinas que estão sendo testadas se revelarem eficazes, ainda assim a procura será maior do que a oferta. A realidade vai impor a vacinação. Empresas convidarão seus funcionários a se vacinarem. Escolas condicionarão as matrículas à vacina. Países exigirão o comprovante de vacina dos viajantes. Um presidente que dizia em março que era preciso enfrentar o vírus "como homem, não como moleque" deveria considerar a hipótese de substituir a molecagem pelo interesse público.

Resultados nefastos

Como consequência da irresponsabilidade do Planalto, a população brasileira está menos propensa a receber uma vacina contra o coronavírus que tenha como origem a China, ou seja fruto de uma parceria com laboratórios do país asiático, ou a Rússia.

A rejeição a um tipo de imunização produzida na China aumenta ainda mais, quando se tratam de brasileiros que aprovam a gestão do presidente.

As conclusões estão presentes em estudo feito pelo Centro de Pesquisa em Comunicação Política e Saúde Pública, da Unb (Universidade de Brasília). Foram entrevistados 2.771 pessoas no estudo.

Também participaram do estudo acadêmicos da Universidade Federal de Goiás, da Universidade Federal do Paraná e da canadense Western University.

De uma maneira geral, os brasileiros se mostram favoráveis a receber uma vacina contra a Covid-19. O estudo mostra que 78,1% do total de entrevistados se mostraram favoráveis a receberem algum tipo de imunização - quando não se detalha de qual país será originária a vacina.

"Embora não conste no questionário apresentado uma pergunta específica sobre a motivação, é bem razoável supor que os brasileiros consideram que uma ponta para retomar uma vida normal passa pela vacina", afirma Wladimir Gramacho, coordenador do estudo.

"Quando ligamos a vacina a um país, por outro lado, acende uma preocupação nos brasileiros. Particularmente em relação à China, por causa da polarização política atual, do fato de que o vírus veio daquele país", completa.

O estudo mostra que a intenção em tomar uma vacina contra a Covid-19 se reduz em 16,4% quando se trata de uma vacina que tenha sido desenvolvida na China. ​

Dentre as pessoas que consideram o governo Bolsonaro bom ou ótimo, 52,2% afirmaram que há pouca ou nenhuma chance de tomara uma vacina chinesa.

Apenas 26,6% dos apoiadores do presidente afirmaram que há muita chance de se vacinarem se a substância for produzida na China.

Embora não com os mesmos níveis de rejeição, os brasileiros também mostraram contrários a serem imunizados com uma vacina produzida na Rússia. A intenção de se vacinarem se reduz em 14,1% quando os entrevistados são questionados sobre a possibilidade de tomarem uma imunização proveniente daquele país.

Em relação aos que aprovam a gestão do presidente Bolsonaro, 36% afirma que há pouca ou nenhuma chance de se vacinarem com uma vacina russa. Os resultados mostram que 29,3% dos entrevistados afirmam que há muita chance de se vacinarem com uma vacina russa.

"Trata-se de uma opinião muito parecida com a do presidente", afirma o coordenador do estudo.

Gramacho explica que a explicação pode estar ligada ao fenômeno dos "atalhos cognitivos". Quando as pessoas se encontram diante de uma situação complexa - como a pandemia do novo coronavírus - em que não há tempo ou meios para obter uma informação de qualidade, como compreender estudos científicos, há uma tendência há seguir visões de formadores de opinião ou pessoas influentes.

"Por outro lado, o estudo mostra que não faz muita diferença de onde vem a vacina para aqueles que reprovam o governo Bolsonaro. Só diminui um pouco a intenção de se vacinar", explica.

Dentre os que consideram o governo ruim ou péssimo, 18% afirmam que há pouca ou nenhuma chance de se vacinarem com a vacina chinesa. O índice fica muito parecido quando questionados a respeito de vacinas russas (19,2%), americanas (15,9%) ou da vacina da universidade de Oxford (16,3%).


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