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Quinta-Feira 28.jan.2021

Ano IX - Nº 427

Poder

Justificativa de senador é tão surreal quanto o dinheiro em suas nádegas

Acordão passa sujeira a sujo no Senado

Postado em 23 de Outubro de 2020 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza - UOL

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"Em um ato impulsivo, acordado pela Polícia, de pijama, assustado com a presença de estranhos em meu quarto, tive a infelicidade de tomar a decisão mais irracional de toda a minha vida."

Foi assim que o senador Chico Rodrigues (DEM-RR), em seu pedido de afastamento do mandato, justificou ter escondido milhares de reais entre suas nádegas durante uma operação da Polícia Federal que investigava desvios de recursos que seriam usados no combate à covid-19.

E continuou, com cueca como sujeito oculto: "Os detalhes da apreensão, sabidos por todos, são fruto de uma reação impensada, de fato, mas, reação essa que jamais teve por objetivo ocultar produto de crime".

O mais incrível é que o senador tem razão. Realmente não faz sentido algum ele ter muquiado uma alcateia de lobos-guará. O problema é que, ao invés de assumir que não há desculpa e ficar em silêncio, ele quer justificar o injustificável com declarações que, por sua vez, não fazem sentido algum.

"Eu nunca tinha sido acordado pela polícia. Acordei em meio a pessoas estranhas em meu quarto", afirmou em um vídeo enviado a seus colegas. "Num ato de impulso protegi o dinheiro do pagamento das pessoas que trabalham comigo. Se levassem esse dinheiro, ninguém ia receber esta semana."

Não é que o senador subestima sua própria riqueza. Se pouco mais de R$ 30 mil lhe fossem subtraídos, sabe que poderia rapidamente repor. O senador subestima a inteligência alheia.

E convenhamos que se fossem bandidos que tivessem adentrado seu quarto, ele teria sido duplamente esculachado: por tentar esconder o dinheiro e por tratá-lo como idiotas que não perceberiam que o volume não era felicidade em vê-los.

Além disso, nessa história, o buraco é mais embaixo. Onde estava o dinheiro para que conseguisse colocar tão rapidamente na cueca? Ele dorme com uma pequena fortuna? Estava, em pilhas, na cômoda ao lado da cama? Não gostaria de imaginar o senador deitado em notas de real, numa triste releitura da icônica cena do filme Beleza Americana.

Enfim, Chico Rodrigues poderia ter optado por não dizer nada por enquanto. Escolheu o nonsense.

Diante disso, a Polícia Federal deveria oferecer imunidade em troca de respostas a essa situação que choca a lógica. O senador diz que seu ato foi irracional. Irracional é apostar no Corinthians como campeão brasileiro de 2020. Ou colocar açúcar ao invés de sal no churrasco de domingo. Ou por o dedo na tomada para ver se ela está funcionando. Ou acreditar que vacina não funciona. Não, o que ele fez vai além disso.

Muita gente faz coisas irracionais que também são moralmente questionáveis, mas que podemos identificar uma lógica (tosca) de autossobrevivência por trás. Alguns saem correndo diante de um incêndio e deixam os filhos à própria sorte. Outros escondem-se atrás dos cônjuges em um assalto à mão armada. Há aqueles que passam por cima e socam a cara do semelhante em nome de uma TV naquelas sádicas megaliquidações.

Mesmo o assessor petista flagrado com dólares na cueca no aeroporto de Congonhas, em 2005, tinha a justificativa de que estava tentando transportar grandes somas sem ser pego. Um ato idiota, mas ainda assim mais lógico do que acordar e enfiar grana entre as nádegas para evitar que funcionários ficassem sem salário.

Chico Rodrigues, que originalmente pediu 90 dias de licença, aumentou o prazo para 121 dias. Com isso, assume seu suplente, que não por acaso é o próprio filho, Pedro Rodrigues. Seus colegas torcem para que, até lá, a história esfrie, o Supremo Tribunal Federal desencane ou outro escândalo se sobreponha.

Espera-se que ele use o tempo para pensar em uma desculpa melhor, não sei quanto a vocês, mas eu estou curioso. E que, enquanto isso, o país deixe claro ao Senado que não aceitará um deixa-disso e quer uma explicação. Caso contrário, senadores vão pressupor da sociedade o que o senador pressupôs dos agentes ao achar que ninguém ia notar: que somos estúpidos.

‘Passando a sujo’

De tanto ser brasileiro contemporâneo, o cidadão nascido nesta terra de palmeiras vai adquirindo certa prática. A contragosto, adapta-se à lógica do lugar, pois há método na desfaçatez. O Brasil deixou de ser imprevisível. Tornou-se um país absurdamente previsível.

O Senado alcançou uma façanha: passou a sujo o escândalo da cueca endinheirada. Fez isso num instante em que há no ar uma fome de limpeza. Davi Alcolumbre, presidente da Casa, tricotou um acordão que acomodou a imundície em baixo do tapete —com o Supremo, com tudo.

Todos saíram ganhando, exceto a moralidade, que continua perdendo. Empurrado para uma licença de 121 dias, o dono da cueca trancou-se em seus rancores sem abrir mão das prerrogativas de parlamentar.

Assume a poltrona de senador o "cueca júnior". Filho e suplente do "cueca sênior", ele passará a desfrutar de todas as regalias que o déficit público pode pagar -de moradia a motorista, de médico a dentista.

A banda corporativa do Senado pode exercitar o seu espírito de corpo —ou de porco— sem precisar gravar as digitais no painel eletrônico.

O ministro Luís Roberto Barroso, que afastara a cueca do mandato por 90 dias, sentiu-se à vontade para dar meia-volta. Livrou-se de sofrer uma derrota no plenário do Senado. Armava-se ali uma emboscada contra a sanção cautelar.

O presidente do Conselho de Ética, Jayme Campos, pode colocar no freezer o pedido de cassação do mandato da cueca.

O DEM, partido coabitado por Chico Rodrigues, Davi Alcolumbre e Jayme Campos, continuará se fingindo de morto, como se nada tivesse sido descoberto pela polícia.

O maior inconveniente de toda essa movimentação é o convívio com políticos e autoridades que agem no pressuposto de que vivem num país de bobos. Essa gente parece decidida a acordar o asfalto.


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