Semana On

Quarta-Feira 25.nov.2020

Ano IX - Nº 420

Saúde

Um presidente contra a Saúde

O que Bolsonaro deseja – e assim faz valer – é uma pasta incondicionalmente subserviente a suas idiossincrasias políticas e ideológicas

Postado em 23 de Outubro de 2020 - Estadão (Editorial), Bela Megale (O Globo), Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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Em plena pandemia, o presidente Jair Bolsonaro demitiu dois ministros da Saúde porque eles insistiram em seguir os protocolos profissionais. Os médicos Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich recusaram-se a indicar um medicamento contra as evidências científicas e, por isso, tiveram de deixar a pasta. O presidente Bolsonaro queria um ministro da Saúde obediente às suas ordens, mesmo que elas afrontassem a ciência e a medicina. Foi assim que se chegou ao nome de Eduardo Pazuello para o Ministério da Saúde. Tão logo assumiu a pasta, o general de brigada ampliou, em estrita obediência ao arbítrio do chefe, o uso de cloroquina em pacientes com covid-19.

Na quarta-feira (21), o presidente Bolsonaro reiterou que, durante seu mandato, não quer o Ministério da Saúde atuando pela saúde pública. O que ele deseja – e assim faz valer – é uma pasta incondicionalmente subserviente a suas idiossincrasias políticas e ideológicas.

Na terça-feira (20), em reunião virtual com os 27 governadores, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, anunciou a assinatura de um protocolo de intenções para adquirir 46 milhões de doses da vacina Coronavac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. Era uma decisão estritamente técnica, em benefício da população. No momento, a Coronavac é a vacina em estágio de testes mais avançado, tendo mostrado, até agora, os melhores índices de segurança. Com um investimento estimado em R$ 1,9 bilhão, a compra até o fim do ano permitiria iniciar a vacinação já em janeiro de 2021.

Na ocasião, Eduardo Pazuello fez questão de esclarecer eventual dúvida ou desconfiança sobre a origem da vacina. Segundo o ministro da Saúde, a “vacina do Butantan será a vacina brasileira”, lembrando que o imunizante, tendo sido desenvolvido na China, será produzido integralmente no Instituto Butantan, em São Paulo.

O anúncio do protocolo para a compra dos 46 milhões de doses era uma excelente notícia para a população. O governo federal, por meio do Ministério da Saúde, dava sua contribuição para pôr fim à pandemia do novo coronavírus. A boa notícia, no entanto, durou pouco. Ontem, o presidente Bolsonaro fez questão de deixar claro que seu governo não trabalha com parâmetros técnicos e que a saúde da população não é prioridade.

Em resposta ao comentário de um jovem numa rede social – “Presidente, a China é uma ditadura, não compre essa vacina, por favor” –, Jair Bolsonaro respondeu que a vacina “não será comprada”. Em outro comentário, o presidente da República voltou a negar publicamente a informação dada pelo ministro da Saúde. Diante do pedido de uma internauta para que Eduardo Pazuello fosse exonerado urgentemente do Ministério da Saúde, porque ele estaria atuando como cabo eleitoral de João Doria, governador de São Paulo, Jair Bolsonaro disse: “Não compraremos a vacina da China”.

Assim, Eduardo Pazuello tornou-se, num período de seis meses, o terceiro ministro da Saúde a ser desmentido publicamente pelo presidente Bolsonaro, simplesmente por agir de forma coerente com o interesse público e as evidências médicas. Por respeito ao seu nome e, muito especialmente, por zelo com a saúde da população, era o caso de o general de brigada pedir as contas, assim como fizeram Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich.

No entanto, não foi o que se viu até aqui. Logo após os dois comentários do presidente Bolsonaro, o secretário executivo do Ministério da Saúde, Élcio Franco, disse que “houve interpretação equivocada da fala do ministro da Saúde” sobre a compra de doses da Coronavac e que a pasta não firmou “qualquer compromisso com o governo do Estado de São Paulo ou com o seu governador no sentido de aquisições de vacinas contra a covid”.

Mas o presidente Bolsonaro voltou a desmentir o Ministério da Saúde, dizendo que mandou “cancelar” o protocolo de intenções assinado na terça-feira. “Presidente sou eu”, disse, como se a loucura de impedir o trabalho do Ministério da Saúde pudesse ter alguma similaridade com o exercício da autoridade. É a ignorância que se faz arbítrio.

Humilhação

No auge de sua irritação, Bolsonaro determinou uma condição básica para manter o ministro da Saúde no cargo: ele teria que se retratar publicamente.

Poucas horas depois, uma coletiva de imprensa foi dada pelo secretário-executivo da pasta, Elcio Franco, voltando atrás no anúncio feito no dia anterior sobre o plano de compra de 46 milhões de doses da vacina que tem o governador paulista – principal inimigo de Bolsonaro – como seu maior entusiasta.

Pazuello teve que pagar mais um pedágio de desculpas e gravou um vídeo com o presidente para resumir a confusão: “um manda e o outro obedece. Mas a gente tem carinho, dá pra desenrolar”. O presidente, que passou a quarta-feira sendo acalmado pelos bombeiros da Esplanada, amenizou: “Falaram até que a gente estava brigado. No meio militar, é comum acontecer isso aqui, não teve problema nenhum”.

A ideia da gravação partiu do próprio Bolsonaro, segundo um auxiliar do presidente.

Pasta da Saúde agora é comandada pelas cinzas

Pazuello foi transformado num personagem único. É a primeira vez na história que o Ministério da Saúde é comandado por uma porção de cinzas. Ao humilhar Pazuello em público, anulando providências que havia autorizado previamente, Bolsonaro calcinou, carbonizou, transformou o general em cinzas. Mas os dois —o presidente e a porção de cinzas— decidiram se comportar como se nada tivesse acontecido.

A desavença terminou numa pizza verde-oliva, exibida em transmissão nas redes sociais. Na véspera, Bolsonaro já tinha declarado: "Eu sou militar, o Pazuello também, e nós sabemos que quando um chefe decide, o subordinado cumpre." O general ecoou o capitão em poucas e elucidativas palavras: "É simples assim, um manda e outro obedece. A gente tem carinho, dá para desenrolar."

Confirma-se na prática o que a aparência já havia deixado claro: Sob Pazuello, o Ministério da Saúde virou uma trincheira militar. E se tornou irrelevante na formulação de políticas para a administração da maior crise sanitária da história. Num momento em que Pazuello tentava adquirir alguma relevância, equipando o ministério para oferecer à sociedade a maior quantidade de vacinas possível, Bolsonaro levou seu auxiliar ao forno, retirando da cesta do ministério uma vacina que pode fazer falta.

Bolsonaro insinua que Pazuello se precipitou ao assinar o protocolo de compra de 46 milhões de doses da vacina CoronaVac, a ser produzida pelo Butantan. Isso é lorota. A mesma disciplina que leva o general a conviver com a humilhação, fez com que ele comunicasse previamente ao chefe cada movimento que executou na reunião em que tratou de vacinas com 24 governadores. Bolsonaro deu meia-volta por avaliar que João Doria cavalgava politicamente o acordo com a Saúde.

O presidente sempre se jactou de ter nomeado ministros técnicos. Se o Ministério da Saúde não fosse um quartel chefiado pelas cinzas, o ministro diria ao chefe que conspirar contra o programa nacional de vacinação não é a melhor maneira de responder a um rival político.


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