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Quarta-Feira 25.nov.2020

Ano IX - Nº 420

Coluna

2020 - O ano em que trabalhamos em casa

‘Quase sete meses depois, continuo trabalhando em casa. E não canso de agradecer ao meu chefe e ao governador pela atitude responsável’

Postado em 21 de Outubro de 2020 - Theresa Hilcar

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No final da tarde de 12 de março, uma quinta-feira de tempo fresco, o chefe da comunicação do Estado de Mato Grosso do Sul entrou na sala da redação e, num tom firme, totalmente seguro, disse a mensagem que nos deixou atônitos: a Covid 19 está bem na nossa porta e temos que tomar providências.

Entre elas, manter em casa os jornalistas em idade de risco e com doenças crônicas. Perguntei-lhe, entre incrédula e temerosa: até quando? Alguns meses, respondeu. Com o coração disparado olhei perplexa em direção ao único colega que, junto comigo, iria trabalhar em casa. Não, isso não pode ser verdade, pensei. 

Até aquele momento, tudo que eu sabia sobre o vírus se resumia a notícias na imprensa. Um mês antes eu conversava sobre o assunto com o quiropata de origem asiática que sempre perguntava quando o vírus chegaria aqui. Eu dizia que ele não viria até nós, que ficasse tranquilo.

Por isso, ouvir as palavras do meu chefe foi como perder o chão. Meu mundo simplesmente despencou em poucos segundos. Despedi-me dos colegas torcendo para que aquilo fosse apenas um excesso de zelo, e que eu logo voltasse. Eu acreditava que rapidamente tudo se normalizaria.

Não foi bem assim. Quase sete meses depois, continuo trabalhando em casa. E não canso de agradecer ao meu chefe e ao governador pela atitude responsável que, com certeza, está salvando minha pele e a de todos os que se encontram na mesma situação de risco. Por esse privilégio, é claro, faço a parte que me cabe neste latifúndio caótico em que o País -se transformou. 

Só saio de casa se for estritamente necessário e uso máscara até para ir ao portão do meu prédio. Não canso de demonstrar minha indignação diante daqueles que negam a doença e desobedecem às recomendações. Percebo o desespero de nosso secretário de saúde do Estado e sua equipe - e me solidarizo com eles -, que durante as lives praticamente imploram que a população se cuide, respeite as regras do distanciamento social e use  máscara. Como profissionais da saúde que são, eles sabem dos perigos que rondam cidadãos e cidadãs sul-mato-grossenses.

Todo fim de semana tenho a tarefa de fazer a matéria do Boletim Covid 19 e, confesso, os registros sempre me assustam.   Mesmo com os números divulgados diariamente de forma séria e transparente, boa parte das pessoas parece não tomar conhecimento da situação. Ou prefere acreditar nos famigerados grupos de WhatsApp que só desinformam.

Nós, jornalistas, não inventamos os fatos. E contra eles não há argumento plausível. É uma questão de bom senso. Jornalistas, principalmente os mais jovens que podem sair às ruas, colher informações, entrevistar pessoas, divulgam os números reais. Estão na linha de frente para dar a informação correta. 

E foi pensando justamente nisso, na necessidade de proteger os profissionais de imprensa, que a Secretaria de Saúde do MS atendeu à solicitação do Sindicato dos Jornalistas e promoveu, logo nos primeiros meses da pandemia, a vacinação dos integrantes da categoria. Na capital e, mais recentemente, nos 53 municípios que compõem a base sindical, todos foram chamados ao teste. 

Não obstante os cuidados, o vírus conseguiu alcançar alguns jornalistas. Felizmente, a maioria apresentou sintomas leves. Um deles, com quem trabalho na mesma baia, teve de ser internado. Ele nos deu um baita susto, mas já está recuperado. Já deve estar editando as notícias e reportagens do Portal MS. 

Enquanto isso eu fico por aqui, tentando vencer o medo e a sensação de culpa que volta e meia acomete quem não está no front, mas fazendo o trabalho da melhor maneira possível. Tomara que venha logo uma vacina. E que eu possa voltar em breve, e com segurança, ao trabalho presencial e ao convívio dos meus bravos colegas.


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