Semana On

Quinta-Feira 26.nov.2020

Ano IX - Nº 420

Coluna

O cinema que voa fora da asa

Como ensinou Manoel de Barros, ‘poesia é voar fora da asa’. Para o cinema de poesia, voar é planar fora da regra

Postado em 21 de Outubro de 2020 - Clayton Sales

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Altiva como imperatriz, a lesma rasteja na pedra chapiscada. No seu caminho, que percorre vagarosamente, surge uma criatura exótica: o relógio. Daqueles antigos, com aparência de um pretérito longínquo. A destemida lesma avança sobre a coisa e invade o pálido mostrador protegido por vidro puído. Ela domina o corpo estranho com golpe preciso de lerdeza sábia. Pouco importava se as três e meia dos ponteiros dourados tentavam impor autoridade de tempo. O relógio estava na rocha dura, sobre quem o tempo não tem poder. Naquela paisagem do Pantanal, a tirania do aparelho era derrotada pelo deboche da lesma, tripudiando do objeto com suas antenas eretas. Em terreiro de lesma, relógio canta miúdo. Ao fundo da cena, apenas a melodia vibrante de pássaros cantarolando e ventos chamando galhos para a dança. Poesia pura. Poesia visual construída com a gramática da natureza, emoldurada pelo enquadramento centralizado para abraçar a pedra que testemunhou o molusco nativo mostrar ao forasteiro cheio de engrenagens quem é cacique daquelas terras. As esquetes imagéticas produzidas por Joel Pizzini para o curta-metragem "Caramujo-Flor" (1988) são potencializadas pelo pseudo-silêncio do ambiente pantaneiro. Há poucos vocábulos pronunciados em meio ao declamar das aves e o cantar dos riachos. O que existe de palavra é vocalizado em forma de Manoel de Barros por gargantas famosas e bocas anônimas. O poeta inspirou tanto o cineasta que o resultado ultrapassou a linearidade. "Caramujo-Flor" é poesia no conteúdo e na forma. 

Curiosamente, o cinema de poesia, às vezes, encontra no lacônico sua alforria para o experimento. Como a narrativa habitual do cinema é construída sobre diálogos inseridos em quadros descritos no roteiro, o efeito desse processo é a caminhada racional sobre a pista que a história do filme pavimenta. No cinema de poesia, acessos a regiões mentais obscurecidas são destrancados. A economia ou ausência verbal cede terreno para edificações pouco ou não-narrativas em que a sequência lógica de ações é menos importante que o espocar de ogivas audiovisuais disparando signos e fazendo o espectador colher significados mais complexos. Um exemplo é "Um Cão Andaluz" (1929) de Luis Buñuel, inspirado em fantasias elaboradas pela inconsciência. O curta-metragem joga com os contrastes expressionistas e obliquidades da câmera para despertar reações surpreendentes. A cena da jovem que entra na sala e avista uma borboleta na parede, fita-a com crescente fixação conforme a lente fecha na figura medonha de uma caveira no corpo do inseto até o close up arrebatador, atesta o quanto o olhar humano eclode de mundos interiores desconhecidos. Poesia penetrante gestada com luz e sombra, extravasando a surrealidade como condição perceptiva inevitável. 

Cinema de poesia foi uma ideia explorada por Pier Paolo Pasolini para classificar a forma como ele pensava sua própria arte. Adepto de narrativas trágicas, sua escolhas escapavam do comum na construção de histórias. Ele envolvia as tramas de seus filmes em camadas de intensidade sensorial obtidas graças a sua habilidosa ousadia em testar ângulos e detalhes capazes de inserir paradoxos em cenas triviais. Em "O Evangelho Segundo São Mateus" (1964), Pasolini ressignifica Jesus Cristo, vestindo-o com o manto de um homem forjado na dureza de seu tempo, despindo-o de sua temperança de pastor sereno. Embora exista linearidade, já que é uma narrativa bíblica, o diretor italiano a assedia constantemente com digressões poéticas concentradas nos enérgicos pronunciamentos do seu Cristo indignado, no chamado à teatralidade do elenco, tornando-o bardo de versículos, e usando a câmera como maquinista de emoções. A injeção de um belo e sombrio blues de Blind Willie Johnson aprofunda a humanidade do Jesus pasoliniano, identificado com a fração necessitada de seu povo, sem o distanciamento místico da santidade. Poesia sorrateira que se infiltra no sagrado e o transforma em manifesto.   

Poema em estado puro na perspectiva cinematográfica é "Sonhos" (1990), que conta oito histórias diferentes, temperadas com realismo mágico e conectadas pelos estados poéticos que formam o idioma dos sonhos. Uma delas é "Corvos", sobre um estudante de artes que aprecia obras de Vincent Van Gogh em um museu e acaba abduzido pelo seu dinâmico universo caótico, percorrendo pinturas do mestre até chegar ao "Campo de Trigos com Corvos", obra em que o pintor holandês especula sobre seus últimos dias de vida. A poesia impregnada na maneira como trabalha a linguagem audiovisual sempre marcou a filmografia de Akira Kurosawa, valendo-se das fascinantes características da cultura japonesa, sem abandonar pautas realísticas, como o episódio "O Demônio que Chora" do mesmo filme. Nele, as alegorias frutificam a leitura ambiental pós-apocalíptica de um mundo devastado pela hecatombe nuclear. A poesia de Kurosawa é irradiada do cerne de sua ancestralidade. 

A poesia é uma expressão de apetite voraz, inclusive por ela mesma. Frequentemente, se autocanibaliza e regurgita a beleza de escritos sobre a criação poética. Fernando Pessoa, Federico García Lorca, Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade são alguns dos luminares que dedicaram estrofes ao ofício que os consagrou. O cinema de poesia trilha essa clareira metalinguística com admirável amplitude, como em "Imagem e Palavra" (2018), onde Jean-Luc Godard monta um mosaico de registros audiovisuais procedentes de reportagens, vídeos caseiros e fragmentos de filmes para refletir sobre a sétima arte e questões globais, sob a perspectiva da conformação arquitetada pelo tempo e espaço, e como a resultante desse processo é apreendida pelo público. Não é uma colagem de retalhos aleatórios e sim uma composição quase onírica que desperta os sentidos para como o cinema estrutura a percepção das pessoas. É como um poema épico da modernidade, proferido em desmedida alucinada e questionadora das noções temporais que movimentam o ser humano e a fuselagem que controla e que o controla. Poesia caleidoscópica para lançar claridade na penumbra. 

Mesmo produções de pautadas pelo factual, com função de registro, podem ser desenvolvidas com olhar de poeta. Em "O Sal da Terra" (2014), a trajetória biográfica ganha a cinematografia característica do diretor Wim Wenders. O toque de realismo fantástico emerge naturalmente graças à destreza do cineasta alemão em garimpá-lo como apanhador de diamantes que sacode a peneira seguidas vezes após mergulhos na lagoa que os esconde. Como o trabalho do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, tema do longa-metragem, é marcado pela singular maneira de aplicar nova dimensão comunicativa por meio de contrastes em preto-e-branco nas imagens que captura, coube a Wim Wenders extrair essa valiosa gema da sua fonte, lapidá-la e aplicar-lhe brilho. O resultado é um documentário simultaneamente informativo, sua tarefa no plano racional, e poético, atribuição despertada tanto pelo estilo de Sebastião Salgado quanto pela personalidade cinematográfica de Wim Wenders, que arrasta coração e mente para uma espécie de cosmologia fotográfica. Poesia que forra a jornada de uma carreira e de uma vida. 

Poesia é arte provavelmente nascida da oralidade e crescida na escrita. Foi educada na métrica e amadurecida na licença. Poetas escrevem poesias e são escritos por elas. Poesia brada, canta, declama, repulsa e aproxima, vira canção. Poesia permite que se cante junto, até que se cante diferente. Na confusão das palavras, encontra-se o útero fecundo do qual sairá o poema. Cinema de poesia pode ser, em termos "mcluhanianos", um meio frio, de teor que não se responde, portanto, que precisa abrir frestas para o espectador evoluir à condição de participante. Como em "Argento" (2014), curta-metragem sul-mato-grossense de Mariana Sena, no qual uma fotógrafa é transportada a uma espécie de transe nas lacunas de sua arte e desperta delírios repletos de possibilidades semânticas. Cabe a quem assiste aglutinar seu subjetivo a esse estimulante retrato em branco-e-preto não verbalizado. Afinal, como ensinou Manoel de Barros, "poesia é voar fora da asa". Para o cinema de poesia, voar é planar fora da regra. 


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