Semana On

Domingo 29.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Especial

Lições sobre a fome

O Brasil, que se destacou internacionalmente pelo Fome Zero e é um dos maiores produtores de alimentos no mundo, volta a ser ameaçado pela fome

Postado em 19 de Outubro de 2020 - Felipe Souza (BBC News), RBA, Vanessa Nicolav (Brasil de Fato), Astrid Prange (DW) – Edição Semana On

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Dezenas de pessoas se aglomeram em uma fila que dobra o quarteirão no centro de São Paulo. Em meio à pandemia do novo coronavírus, o distanciamento social é desrespeitado e muitos não usam máscara.

São moradores de rua, entregadores e pessoas que trabalham na região que aguardam até por mais de uma hora pelo combustível que lhes garantirá energia para o resto do dia: um prato de comida.

A BBC News Brasil ouviu pessoas que recebem e distribuem essas doações para saber qual o impacto da pandemia do novo coronavírus no acesso da população mais pobre à comida na cidade mais rica do hemisfério sul.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 10 milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar grave.

A pesquisa, que se refere aos anos de 2017 e 2018, aponta ainda que o total de brasileiros que passam fome cresceu, segundo o órgão, em 3 milhões de pessoas em cinco anos.

'Não é só o pessoal de rua'

Todas as segundas, o padre José Mario Ribeiro sai da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, no Tatuapé, na Zona Leste da capital, ao lado de outros 12 voluntários, para entregar 1.400 marmitex na praça da Sé, no centro. Segundo ele, hoje o número de refeições é sete vezes maior que no início do ano.

Ele conta que percebeu não só um aumento no número de pessoas em busca das quentinhas, mas também a chegada de um público diferente.

"Não é mais só o pessoal de rua. A gente está percebendo que muitas pessoas passam para buscar por estarem desempregadas e estarem com fome. Ontem mesmo um senhor me disse que trabalhou o dia inteiro sem comer e que estava nos esperando para pegar uma marmita que seria a única refeição dele", disse o padre.

"Antes da pandemia, a gente doava cerca de 400 a 500 marmitas. Se a gente fizer 2 mil hoje, acaba tudo", afirmou.

Mas para essas entregas chegarem às mãos de quem passa fome, é necessária uma corrente. Ela vai desde as doações de alimentos, como arroz e feijão, até a produção numa cozinha industrial e o transporte — feito no caminhão de um feirante voluntário, que também doa frutas e legumes.

Para que ela cresça, o padre faz um apelo.

"A gente precisa muito de arroz, feijão e embalagens. Duas casas de carne fazem doações para a gente. Arroz e feijão a gente pede na paróquia. Quem puder ajudar, pode levar na paróquia ou ligar — (11) 2093-1920 — para fazer doações. Vale muito a pena ajudar e acho que na nossa sociedade recebemos mais do que doamos", disse.

A paróquia ainda entrega 300 refeições às quartas-feiras em outros três pontos da cidade.

Mais de 3 mil refeições por dia

A 300 metros da praça da Sé, onde o grupo liderado pelo padre José Mario faz doações às segundas, padres franciscanos e voluntários distribuem todos os dias na hora do almoço 1.200 refeições e outras 1.200 no jantar no largo São Francisco. Além de outras 300 marmitex no Glicério e 400 refeições no chamado Chá do Padre.

O frei João Paulo Gabriel, da Tenda Franciscana, disse que o início da pandemia, em março, marcou o começo de uma explosão de pessoas em busca de comida no centro de São Paulo.

"Quando decretaram a pandemia, as pessoas pararam de fazer doações na região e o povo que já conhecia o nosso serviço foi nos procurar na Rua Riachuelo, onde funciona o Chá do Padre. Mas a gente não estava preparado. Não tinha cozinha, voluntários, mas conseguimos a liberação para montar uma tenda a céu aberto", contou o frei.

O grupo distribuía cerca de 300 refeições por dia no local. Com a alta da procura e uma grande visibilidade depois da fila ser exibida em reportagens na TV, o grupo atraiu voluntários e doadores dispostos a ajudar na compra de alimentos.

Depois do início da pandemia, os voluntários perceberam a aproximação de pessoas com um perfil diferente.

"A gente tinha um público 100% de população de rua, mas ele foi mudando. Hoje há muitas pessoas que vivem em ocupações, gente que tem casa e não tem condição de comprar uma refeição. São pessoas que faziam bico e não tem mais, que não tem mais carteira assinada. Tem pessoas desesperadas imaginando como vão sobreviver quando terminar o auxílio emergencial", afirmou o Frei João.

Ele conta que hoje a fila diminuiu um pouco porque muitas pessoas voltaram a fazer doações na região por avaliarem que o risco de contaminação pelo novo coronavírus diminuiu. "Aumentaram as bocas de rango, como a gente diz, e descentralizou a distribuição", disse.

Porém, os franciscanos dizem que houve uma queda considerável no número de voluntários, pois a maior parte voltou a trabalhar, e faltam alimentos não perecíveis para montar cestas básicas.

Doações podem ser feitas no site www.doesefras.org.br ou diretamente no local onde funciona o Chá do Padre, na rua Riachuelo, 268.

O sustento da família

O grupo Mãos de Maria chegou no último dia 16, Dia Mundial da Alimentação, à marca de um milhão de refeições distribuídas na favela de Paraisópolis, a maior de São Paulo. O grupo começou a distribuir marmitas a partir do dia 23 de março, logo no início da pandemia.

A intenção, diz a fundadora do Mãos de Maria Brasil, Elizandra Cerqueira, era ajudar principalmente as pessoas que perderam o emprego na pandemia, principalmente as mulheres.

"Temos a missão de gerar renda na favela através da culinária e combater a violência contra a mulher. Nosso objetivo inicial seria produzir 2 mil marmitas por dia, mas a pandemia virou algo maior do que prevíamos e chegamos a entregar 10 mil marmitas por dia, numa mobilização com o G10 das favelas e empresas do setor privado", afirmou.

Desempregado há um ano, o porteiro Enéias de Camargo Nogueira, de 53 anos, é uma das pessoas que recebem diariamente as marmitas produzidas pelo Mãos de Maria.

"Já pego há três meses e é isso que me ajuda a me manter nesses tempos", afirmou.

Na mesma fila, Edmilson da Silva faz bicos em construção civil, mas também está desempregado. Ele pega três marmitas para dividir com a mãe, o pai e a irmã.

"Só o meu pai está trabalhando. E essa é uma grande ajuda, já que a gente está sem renda no momento", afirmou.

A fundadora do Mãos de Maria aponta que as refeições são essenciais para melhorar a imunidade da população.

"Quando a pessoa fica sem alimento, ela fica muito mais vulnerável a doenças e também ao vírus, com a imunidade baixa. Acolhemos nessa crise todos que passam fome", afirmou.

Ela afirmou que a partir desta sexta o mesmo trabalho também será feitos nos Estados do Pará, Pernambuco e no Distrito Federal.

Todos os dias, os chamados "presidentes de rua" retiram marmitas na cozinha central e levam para as famílias que acompanham. Cada um deles atende 50 residências.

O trabalho não impede a formação de filas na frente do local onde as marmitas são produzidas. Segundo Elizandra Cerqueira, as primeiras pessoas aparecem às 10h, mas as primeiras refeições são entregues apenas ao meio-dia.

"As pessoas entram em desespero por medo não conseguir comida. Mesmo a gente explicando, elas querem ficar ali e esperar mais de duas horas para garantir que vão ter o que comer", disse a fundadora do programa.

Quem quiser, pode fazer doações através do site do G10 das favelas.

Idosos recebem comida em casa

Mas nem todos têm condições de sair de casa para buscar comida. É o caso da Frida Braunstein Taranto, de 95 anos, uma das 700 pessoas atendidas diariamente pelo grupo beneficente israelita Ten Yad.

O filho caçula de Taranto morava com ela, mas foi vítima da covid-19 e morreu em julho, aos 29 anos. Viúva há 15 anos, ela vive sozinha e não sabe como seria caso tivesse de cozinhar.

"A comida que mandam é muito saborosa e saudável. Recebo em casa desde o começo da pandemia. Vem uma quantidade adequada para o almoço e um pote de sopa para o jantar, fora a sobremesa. Não tem como reclamar", afirmou.

Às sextas, conta Taranto, o Ten Yad entrega não só a refeição do dia, mas também a de sábado e domingo — dias em que não há distribuição — congeladas.

O rabino Berel Weitman, vice diretor-executivo da Ten Yad, disse que todos os dias dezenas de Kombis e carros de passeio fazem filas para pegar marmitas e entregá-las voluntariamente em todas as regiões da cidade.

"Nosso trabalho foi fundado em 1992 com um refeitório humilde, onde idosos e pessoas carentes almoçavam. Em 1994, passamos a levar a domicílio para pessoas acamadas e com dificuldades locomoção. Um trabalho que chamamos de "Meals on Wheels", ou Refeições Sobre Rodas", conta o rabino.

Em 2004, iniciou uma parceria com a prefeitura para atender idosos e pessoas com vulneráveis cadastradas no serviço social municipal. Desde o início da pandemia, o serviço foi adaptado e também passou a distribuir cestas básicas e kits de higiene pessoal.

Além do serviço, hoje já são distribuídas 100 refeições para os mais jovens no refeitório localizado no Bom Retiro. O grupo também administra as 1500 refeições oferecidas no Bom Prato do Glicério por R$ 1.

"Hoje estamos preocupados, com uma demanda crescente por comida. São mais e mais famílias pedindo, principalmente os idosos que não conseguem cozinhar. E precisamos de mais pessoas sagradas para nos ajudar", afirmou o rabino Berel Weitman.

Quem tiver interesse em fazer doações, pode entrar em contato com o grupo pelo site, fazer doações de alimentos, roupas para o bazar, se tornar sócio mensal ou até mesmo fazer doações pela nota fiscal paulista.

"Quero deixar uma frase da sabedoria judaica. A gente pensa que está ajudando um necessitado em situações como essa. Mas o necessitado faz muito mais pelo doador. Esse é um dos aprendizado que tivemos durante a pandemia e que não podemos perder: a solidariedade".

“Não tenho condições de comprar”

Alimentos básicos, como arroz, feijão e leite, mais caros e difíceis de serem adquiridos pela população de 17 capitais brasileiras. É o que mostra a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), realizada em setembro, e que leva em conta os preços dos alimentos necessários para uma pessoa se alimentar durante um mês.

No ano, o instituto só não apurou alta em Brasília. No acumulado em 12 meses, o aumento também é generalizado, de acordo com os dados divulgados na primeira semana de outubro. E bastante acima da inflação.

Nesse cenário, muitos brasileiros estão dependentes da ajuda de familiares ou de campanhas de solidariedade para se alimentar. Uma delas é a diarista Maria Aparecida da Silva Matas, moradora da Vila Anglo, Zona Sul de São Paulo (SP). Com a renda cortada pela metade devido a pandemia, hoje ela sobrevive a base do apoio de sua filha, que tem carteira registrada e recebe cesta básica mensalmente.

“Carne tá muito caro, café, açúcar, leite, arroz, tudo. Está muito difícil hoje em dia. Para comer, eu não vou negar, mas tenho dependido da minha filha vir em casa e trazer um pouco de arroz, alguma coisa. Porque eu mesma, para comprar, não tem condição não.”

Segundo a pesquisa, as maiores altas foram observadas em Florianópolis (9,8%), Salvador (9,7%) e Aracaju (7,13%). Na cidade de São Paulo, o aumento foi de 4,33%. As menores variações foram observadas em Campo Grande (1,72%), Natal (0,68%) e Brasília (0,56%). O tempo médio necessário para adquirir os produtos da cesta, em setembro, foi de 104 horas e 14 minutos, maior do que em agosto, quando ficou em 99 horas e 24 minutos.

Para Patrícia Costa, uma das economistas responsáveis pelo levantamento, a alta dos preços, principalmente arroz e carne, se explica pelo aumento das exportações nos últimos meses. Com o dólar em alta, os produtores preferem vender para fora, do que manter os produtos no país.

“A tabela de exportação vai mostrando o seguinte, em abril a gente exportou 79 mil toneladas e em 212 mil toneladas. Você aumenta muito o volume exportado e diminuiu a oferta. Vivemos um dilema, porque todos os alimentos básicos estão indo para fora, de forma que quem tá pagando mais são as famílias de baixa renda” afirma.

Outro motivo associado a alta dos preços é o desmonte de órgãos públicos como a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que tem por função armazenar alimentos para impedir uma crise de segurança alimentar no país.

“A Conab trabalha com estoque regulares, que nada mais é que o governo tem um montante de arroz, no poder dele. No momento em que o preço aumenta muito, ele joga arroz no mercado, de forma que o preço diminua. E no momento em que o preço cai muito, ele compra para que o produtor não deixe de vender. Isso é uma política básica agrícola, feita pela Conab, que vem se desmantelando ao longo do tempo”, explica a especialista.

Durante o governo Bolsonaro, somente no último ano, foram fechadas 27 unidades armazenadoras. “Eu acho que você tem explicitamente uma política que valoriza o agronegócio e a exportação, em detrimento do consumo interno” pontua Costa.

Salário-mínimo e desemprego

Com base na cesta mais cara, que, em setembro, foi a de Florianópolis (R$ 582,40), a pesquisa também aponta que o trabalhador comprometeu, em setembro, na média, 51,2% do salário mínimo líquido para comprar os alimentos básicos para uma pessoa adulta. Em agosto, o percentual foi de 48,8%.

Porém, com o desemprego em alta, para muitos, o acesso à alimentação só tem sido possível por meio campanhas de distribuição de cestas básicas. Munique Katlin é uma delas. Mãe de duas filhas e desempregada, ela tem buscado apoio em um centro de assistência social localizado na Zona Sul de São Paulo.

“Isso aqui ajudou pra caramba. Com o vem na cesta, a gente economiza, com arroz, feijão, e pode comprar, as vezes, uma mistura. É isso que tá me ajudando, porque a situação está difícil, estou desempregada por causa da pandemia”, conta.

Atualmente o desemprego no Brasil atinge 14 milhões de pessoas, de acordo com o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O que representa quase 14% da população brasileira.

Com base no valor da cesta básica da capital paulista, a pesquisa do Dieese estimou que o salário-mínimo necessário para o sustento de uma família de quatro pessoas (dois adultos e duas crianças) deveria ser a R$ 4.892,75, o que corresponde a quatro vezes o mínimo vigente de R$ 1.045.

“Você reduzir o auxílio emergencial e você não ter nenhuma política de valorização do salário mínimo, coloca uma questão. Porque a retomada poderia acontecer pelo aumento do consumo, pessoas com mais renda, comprariam mais e aí você entraria num ciclo virtuoso semelhante ao que a gente já viveu. Isso poderia ajudar o Brasil a sair mais rápido dessa situação” conclui a economista.

Agricultura familiar

O Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) destaca que o cenário de fome, o aumento do desemprego e a carestia dos alimentos fazem parte da política econômica adotada por Bolsonaro. O governo vetou praticamente toda a Lei Assis Carvalho, com origem no Projeto de Lei 735, o PL da Agricultura Familiar, que garantiam socorro emergencial à agricultura camponesa que produz mais de 70% dos alimentos.

Dados do Censo Agrícola de 2017 indicam que a agricultura familiar responde por 87% da produção de mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz e 21% do trigo. E tem presença na produção de carne, leite e derivados.

Para o MPA, o governo federal é responsável pela fome no país. “Com o veto de Jair Bolsonaro à Lei Assis Carvalho e o péssimo Plano Safra lançado em junho deste ano, fica evidente a sua falta de compromisso com o povo, com a agricultura familiar e camponesa. Assim, nesta Jornada de Luta, necessitamos demonstrar para sociedade que a saída para crise da fome passa pela Agroecologia e pelo apoio e incentivo a agricultura camponesa e familiar”, diz trecho de uma nota emitida pela entidade.

Lições sobre a fome

Quando o Programa Alimentar Mundial da ONU foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz na semana passada, muita gente comemorou. Nós, pensamos no Brasil. Um Brasil que, junto com outros 12 países, foi premiado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e a Agricultura (FAO) em dezembro de 2014 pelo seu êxito do combate à fome. Num Brasil que conseguiu sair do vergonhoso Mapa da Fome da ONU.

Pensamos em José Francisco Graziano da Silva, ex-ministro de desenvolvimento social e combate à fome. Graziano ficou mundialmente conhecido pelo programa Fome Zero e, em consequência disso, foi nomeado diretor executivo da FAO em 2011 e reeleito para o cargo em junho de 2015.

Pensamos também no médico Josué de Castro. Em 1946, ele publicou o livro Geografia da fome, que mostrou as razões da fome epidêmica naquela época em Recife.

Mas justamente num momento de crise econômica e no meio de uma pandemia, esse Brasil se despediu do combate global à fome. É difícil acreditar que o país, um dos maiores produtores de alimentos no mundo, seja agora um dos menores doadores na luta contra a fome.

Conforme mostra o ranking das contribuições ao WFP, a maior agência humanitária do mundo, as doações do Brasil entre 2016 e 2020 somam apenas 18,94 milhões de dólares. Com isso, o Brasil ocupa somente o 44º lugar entre os 134 países do rankingPior: ele fica atrás de países pobres, como Burundi (19 milhões de dólares), Moçambique (40 milhões), Bangladesh (57 milhões) Colômbia (60 milhões) e Malawi (116 milhões).

Viver no Brasil é se deparar com as implicações gigantes e o sofrimento causados pela fome. “Numa visita a um hospital de Recife em 1992, aprendi que, naquele tempo, 15% das crianças que nasciam em hospitais públicos tinham peso abaixo do normal. Aprendi também que, por causa da fome epidêmica, tinha surgido uma ‘geração de nanicos’ em várias regiões do Nordeste”, diz Astrid Prange de Oliveira, jornalista da Deutsche Welle, agência de notícias alemã.

Mas foi no Brasil também que ela aprendeu que o combate à fome não é somente uma questão de dinheiro, mas sim de vontade política. “Nos tempos de Josué de Castro, as populações periféricas de Recife, por exemplo, usavam 70% de sua renda para alimentação. Por causa dos programas de transferência de renda e de cisternas no sertão, a situação foi aliviada”, lembra.

Justamente um dos estados mais pobres do Brasil, o Ceará conseguiu reduzir a mortalidade infantil em mais de 30% nos anos 90. O segredo desse sucesso foi a transformação de mais de 4 mil mulheres do interior em agentes de saúde.

Essas mulheres visitaram, de bicicleta ou a pé, todas as grávidas e mães nas suas regiões e as ensinaram os primeiros cuidados com higiene e alimentação. Incentivaram-nas a amamentar e vacinar as suas crianças. Com isso, a subnutrição e a mortalidade infantil caíram. O programa, chamado "Viva Criança", foi premiado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O ex-arcebispo emérito de Recife e Olinda Dom Hélder Câmara (1909-1999) considerou a fome uma "ofensa a Deus". "Quando dou comida aos pobres chamam-me de santo. Quando pergunto por que eles são pobres chamam-me de comunista" é uma de suas frases mais famosas. Eu me pergunto então: por que continuamos ofendendo Deus? 


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