Semana On

Sexta-Feira 30.out.2020

Ano IX - Nº 416

Poder

Ignorância como ativo eleitoral

Na ânsia de criticar as medidas de combate à pandemia, bolsonaristas escancaram seu darwinismo social, o que deveria custar votos

Postado em 16 de Outubro de 2020 - Estadão (Editorial), Diego Garcia (Folha de SP), Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

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Não é somente a corrupção que degrada a política, como querem fazer crer os oportunistas que se travestiram de cruzados anticorrupção para alcançar o poder nas eleições passadas. A política também perde o sentido quando a ignorância é elevada à categoria de ativo eleitoral.

Tome-se como exemplo a declaração de Celso Russomanno, candidato à Prefeitura de São Paulo, segundo a qual “não temos uma quantidade imensa de moradores de rua com problema de covid” porque “talvez eles sejam mais resistentes que a gente porque convivem o tempo todo nas ruas, não têm como tomar banho todos os dias, et cetera e tal”.

Seria um erro tratar essa declaração grotesca como simples anedota de campanha eleitoral, como tantas que períodos estranhos como esse costumam produzir. É, ao contrário, fortemente simbólica do pesadelo que o País atravessa, entregue em parte a políticos que deliberadamente tratam os eleitores como néscios e, pasme o leitor, ainda ganham votos com isso.

Ao classificar os pobres como uma espécie diferente, “mais resistente que a gente” porque vive nas ruas e não toma banho, o candidato Celso Russomanno nada mais fez do que imitar seu padrinho, o presidente Jair Bolsonaro – que não faz muito tempo, também a propósito da pandemia, disse que “o brasileiro tem que ser estudado” porque “ele não pega nada: você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha, tá certo?, e não acontece nada com ele”.

Na ânsia de criticar as medidas de combate à pandemia, sobretudo o isolamento social, adotadas pelos governos estaduais e prefeituras, os bolsonaristas escancaram seu darwinismo social e fazem o elogio do obscurantismo, o que deveria escandalizar os cidadãos brasileiros e custar votos. Mas não é isso o que acontece: a popularidade de Bolsonaro vem subindo e o candidato Celso Russomanno está liderando as pesquisas.

Esse aparente sucesso da impostura como capital eleitoral pode sugerir que candidatos aumentarão suas chances de vitória se deliberadamente investirem em embustes grosseiros, impressão que tende a multiplicar as candidaturas sustentadas por discursos fraudulentos. Como resultado, a campanha eleitoral, que normalmente já é repleta de promessas grandiloquentes e distorções da realidade, corre o risco de ser conduzida para o terreno da farsa absoluta – em que opiniões absurdas como a do candidato Russomanno, chanceladas pelo presidente Bolsonaro, ganham mais valor que os argumentos embasados em fatos comprovados.

Isso nada tem a ver com política: é, ao contrário, sua completa negação, pois não é possível falar em política sem que haja uma realidade compartilhada por todos, a partir da qual se discutirão as soluções concretas para os problemas da comunidade.

Quando candidatos favoritos a cargos eletivos e líderes políticos da envergadura de um presidente da República se esforçam para conduzir o debate para o terreno da mais absoluta mistificação, negando a razão e a ciência como se estas fossem prejudiciais ao País, salga-se o terreno comum da política, enquanto germina o campo do charlatanismo autoritário.

Tudo isso no momento em que a pandemia já matou mais de 150 mil brasileiros. Ou seja, não é um capricho qualquer, tampouco um tema que possa ser tratado de forma leviana na campanha: é de vida ou morte que se trata. Se um postulante à prefeitura da maior cidade da América Latina, apoiado por ninguém menos que o presidente da República, “argumenta”, sem nenhuma base na realidade, que moradores de rua devem ser imunes à covid-19 porque não tomam banho e vivem aglomerados, é o caso de levantar as mãos aos céus e agradecer pelo fato de não ser ele o prefeito neste momento.

Mas pode vir a ser, segundo indicam as pesquisas de intenção de voto. E esse desfecho eleitoral, a julgar pelo que se viu até aqui, pode ajudar a aprofundar o empreendimento bolsonarista de aniquilação da inteligência e da capacidade de julgamento, sem as quais não se administra racionalmente um governo nem, muito menos, se constrói uma democracia saudável.

'Efeito Bolsonaro'

Estudo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) realizado em parceria com o IRD (Instituto Francês de Pesquisa e Desenvolvimento) identifica o que chama de “efeito Bolsonaro” na propagação da pandemia do coronavírus no Brasil.

O levantamento, que considerou uma série de dados de todos os municípios no país, cruzou as informações sobre a expansão da doença com o resultado na votação em primeiro turno nas eleições presidenciais nos 5.570 municípios. Conclusão: há uma correlação entre a preferência pelo presidente Jair Bolsonaro e a expansão da Covid-19.

Segundo a pesquisa, para cada 10 pontos percentuais a mais de votos para Bolsonaro há um acréscimo de 11% no número de casos e de 12% no número de mortos.

“O estudo mostrou que a Covid-19 causa mais estragos nos municípios mais favoráveis ao presidente Bolsonaro”, destaca o texto da pesquisa.

“Podemos pensar que o discurso ambíguo do presidente induz seus partidários a adotarem com mais frequência comportamentos de risco (menos respeito às instruções de confinamento e uso da máscara) e a sofrer as consequências.”

De acordo com os pesquisadores, esse foi o efeito que mais chamou a atenção, pois, em princípio, não haveria razão para explicar o motivo de cidades que votaram mais em Bolsonaro terem proporcionalmente mais mortes do que nos outros locais estudados.

“A argumentação que usamos no nosso artigo é que provavelmente trata-se de um efeito da própria postura do presidente, que minimizou o uso de máscara e a doença, chamando-a de gripezinha”, disse o professor João Luiz Maurity Sabóia, outro pesquisador envolvido no estudo.A influência de Bols onaro sobre o comportamento de seus eleitores, apurada neste estudo em particular, vai ao encontro do resultado obtido por outras instituições.

É o caso de um trabalho feito por pesquisadores da UFABC (Universidade Federal do ABC), da Fundação Getúlio Vargas e da USP (Universidade de São Paulo).

Esse estudo concluiu que em praticamente todas as ocasiões em que o presidente minimizou a pandemia, a taxa de isolamento social no Brasil diminuiu —e mais pessoas se contaminaram e morreram, proporcionalmente, nos municípios em que Bolsonaro obteve uma melhor votação na eleição de 2018.

Responsáveis pela tragédia serão punidos um dia?

No começo da pandemia, comparávamos seu horror a outras tragédias que aconteceram em solo brasileiro para tentar mostrar a dimensão da perda humana.

Ultrapassamos a marca dos 150 mil óbitos por covid (o equivalente a 753 acidentes com aviões da TAM, como aquele de julho de 2007, ou a 555 rompimentos de barragens da Vale, como aquela de Brumadinho, em janeiro de 2019), essas comparações perderam o sentido.

Até porque a escala passou a ser outra. Os mais de 150 mil equivalem a uma bomba ter sido jogada contra cidades do tamanho de Balneário Camboriú (SC), Sinop (MT), Porto Seguro (BA) ou Botucatu (SP) e dizimado todos os seus habitantes.

Quando políticos brasileiros, como o presidente da República, forem julgados criminalmente, no futuro, por terem aumentado a letalidade da doença quando poderiam tê-la reduzido, espero que também pese o processo de banalização da morte pelo qual estamos passando.

Sim, um dos legados de Jair Bolsonaro será um Brasil que se preocupa menos com a vida.

No momento em que a pandemia fez sua primeira vítima por aqui, no dia 17 de março, imaginava-se que se os óbitos ultrapassassem marcas como a de hoje, teríamos protestos contra um governo que, naquela época, já se notabilizava pelo negacionismo e a insensibilidade.

O tempo passou, taxas altas de mortes diárias se tornaram o novo normal e a convulsão não veio, apenas breves ensaios. E não é por que a pandemia impede aglomerações, pois convulsões não consultam taxa de infecção para acontecer.

No auge da infecção, tivemos um naco da sociedade que pouco se importou se uma montanha de brasileiros vivia ou morria, contanto que não fosse ele. E era tapado ou egoísta o bastante para não acreditar que podia vir a ser ele. Não que estivesse desconectado da realidade, mas achava que realidade é coisa de comunista.

Outro grupo, diante do aumento paulatino de vítimas da tragédia, acabou por tentar normalizá-la. Não por ser insensível, longe disso, mas foi a maneira que encontrou para enfrentar o medo da morte sem surtar diariamente.

E houve aquele que foi escolhido pela sociedade para ir ao sacrifício, entregando comida, transportando pessoas, recolhendo o lixo, lavando cuecas e varrendo a casa de terceiros. Nele, também estavam os empreendedores populares, que aceitaram o risco de morrer diante do risco ainda maior da falência sob um governo que ignorou o quanto pode o pequeno e o microempresário na pandemia. Esse naco soube dos riscos que corria, mas ia fazer o quê?

Enquanto isso, Bolsonaro executava uma campanha sistemática de desinformação sobre a covid-19 que pavimentou sua necropolítica.

Ele mentiu ao dizer que quarentenas não funcionaram para retardar a propagação do vírus; ao afirmar que o isolamento social não teve impacto positivo; ao chamar a pandemia de "gripezinha" e "resfriadinho"; ao defender que a hidroxicloroquina deve ser usada no tratamento da doença mesmo com provas de que ela não funciona (Donald Trump, que a defendia tanto, ao ficar doente, não a usou...); ao cravar que a crise econômica causada pelo vírus mata tanto quanto ele próprio; ao dizer que o Supremo Tribunal Federal afirmou que são prefeitos e governadores os únicos responsáveis pela política contra a covid quando a corte não disse isso.

Seu mau exemplo não ficou apenas em declarações bizarras e orientações fajutas. O presidente causou danos à saúde pública através de suas ações. Como as aglomerações que promovia em dias de manifestações a favor de autogolpe militar e do fechamento do Congresso Nacional e do STF.

Inspirados nele, muitos brasileiros relativizaram a importância de se cuidar e, ao fazer isso, passaram adiante o vírus a quem não tinha nada a ver com a história. Resultado: mais mortes.

O problema é que uma possível punição a ele e a outros tantos políticos em nível estadual e municipal que não cuidaram da população como deveriam dificilmente ocorrerá agora. No que pese as necessárias investigações e punições a governos que desviaram recursos públicos da saúde em plena pandemia, a questão é mais embaixo.

Por exemplo, aliados e vassalos no Congresso Nacional, na Procuradoria-Geral da República e no Supremo Tribunal Federal encaram todos os crimes do presidente como mera questão de "opinião" ou decisão de "gestão". Montesquieu dá um duplo twist carpado no túmulo.

Punições também dependem de sua popularidade. Bolsonaro devia agradecer ao Congresso Nacional por ter evitado que pagasse uma merreca como auxílio emergencial, como pretendia originalmente sua equipe econômica. Ele, que ganhou popularidade por conta dos bilhões injetados na economia, sabe que ao grosso da população não compartilha o mesmo desprezo pela vida que ele. Mas é pragmática. E, por isso, luta por um programa de renda mínima para chamar de seu.

O contexto para a responsabilização é difícil. A morte em massa não mexe conosco em 2020 como acontecia antes. A morte do indivíduo ainda dói - e muito. Mas a morte coletiva virou rotina e se esvaziou. Não que milhões de pessoas não tenham medo de morrer ou de perder uma pessoa querida por causa da doença. Mas centenas de brasileiros ainda perdem a vida todos os dias por um motivo estúpido e, em grande parte, evitável se tivéssemos governo.

"Brasil acima de tudo, Deus acima de todos"? Não. Como o presidente tanto repetiu ao longo dos últimos meses, o verdadeiro lema de sua gestão é "A gente lamenta a morte, mas é o destino de todo mundo". Se não formos capazes de enfrentar isso, que as próximas gerações sejam melhores do que nós.


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