Semana On

Sexta-Feira 30.out.2020

Ano IX - Nº 416

Poder

Caso de Chico Rodrigues entrará para os anais do Senado

Bolsonaro acumula um amigo que suja dinheiro entre as nádegas, dois filhos suspeitos de peculato, dois líderes investigados por corrupção ativa, um ministro condenado por improbidade, dois ministros sub judice, e uma explicação pendente sobre o dinheiro que pingou na conta da primeira-dama

Postado em 16 de Outubro de 2020 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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Tal como a família Bolsonaro, Chico Rodrigues (DEM-RR), vice-líder do governo no Senado Federal, parece que gosta de usar dinheiro vivo.

Gosta tanto que a Polícia Federal afirma ter encontrado um punhado dele entre suas nádegas, no último dia 14, durante busca e apreensão em sua casa em Boa Vista como parte de uma operação contra o desvio de recursos públicos da Saúde.

Agora, a PF quer saber se valores que seriam usados para evitar que pessoas morressem na pandemia estavam escondidos nas nádegas de um dos representantes de Bolsonaro na câmara alta do Congresso Nacional.

De acordo com os agentes, cerca de R$ 30 mil foram encontrados na residência de Rodrigues e, uma parte disso, no próprio senador. A PF não informou sobre a lavagem do dinheiro.

A operação Desvid-19 foi tocada pela PF e pela Controladoria Geral da União, com mandados expedidos pelo ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal. A informação foi originalmente publicada pela revista Crusoé.

Há tantas ironias entuchadas nessa história que ela entrará, certamente, para os anais do Senado.

Primeiro, em discurso no dia 7 de outubro, o presidente afirmou: "Eu acabei com a Lava Jato. Por que não tem mais corrupção no governo". No dia 14, voltou a tocar no assunto, dizendo que se alguém andar fora da linha levará "uma voadora no pescoço". A operação desta quarta mostrou que o problema está mais embaixo.

Segundo, na já icônica reunião ministerial de 22 de abril, o presidente reclamou dos adversários políticos, afirmando que "o que os caras querem é a nossa hemorroida". O guru da família Bolsonaro, Olavo de Carvalho, cita sistematicamente o ânus em suas intervenções. O final do intestino grosso também foi usado em repetidas interpelações do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos). Analistas que apontavam para a fixação anal na cúpula do poder e chegaram a ser atacados por bolsonaristas devem se sentir vingados.

Terceiro, Bolsonaro foi criticado por lançar a nota de R$ 200. Na época, uma das possibilidades levantadas é que isso favoreceria transporte de dinheiro ilegal, inclusive na cueca. Ninguém sabe o que a PF encontrou no senador, mas um lobo-guará ocupa o mesmo espaço de duas garoupas, quatro onças-pintadas ou dez micos-leões dourados sendo, portanto, uma mão na roda.

"É quase uma união estável, hein Chico?"

Sem contar que, em um vídeo que circula nas redes sociais, Bolsonaro brincou com a longa convivência com Chico Rodrigues, na Câmara dos Deputados, chamando o período de "quase uma união estável". Nas imagens, o senador comenta que ele "está retomando a moralidade".

No dia 31 de março de 2016, o então deputado Bolsonaro criticou governos com aliados flagrados com dinheiro na cueca. "Quero dizer ao líder do PT, que há pouco passou por esta tribuna, que presidencialismo de coalizão não é vale-tudo, não! Não é jogar ministério para cima e enfiar dinheiro na cueca de assessor parlamentar, não!". Ele se referia ao caso de um assessor do partido flagrado, em julho de 2005, com dólares nas roupas íntimas em um aeroporto.

Agora, um dos líderes de seu governo e pessoa com quem teve "quase uma união estável" também foi flagrado com dinheiro enfiado na cueca.

Ironicamente, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) chamou José Guimarães (PT-CE), que era chefe do tal assessor, de "deputado do cuecão" mais de uma vez - o que dá pistas ao apelido que dará ao aliado Chico Rodrigues, caso seja coerente.

"Tenho um passado limpo", afirmou o senador em nota. Ele disse que confia na Justiça e que irá provar que não tem envolvimento com qualquer ato ilícito.

A quarta começou com o debate sobre milhares de presos sem julgamento e sobre as decisões do Supremo Tribunal Federal sobre o caso André do Rap. Terminou com a hashtag #PropinaNaBunda nos trending topics do Twitter. Mais um dia normal no Brasil.

E por falar em gostar de dinheiro vivo, ainda tem o Ministério Público de olho nas rachadinhas de outro senador, Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), e de seu ex-assessor Fabrício Queiroz.

Descrição da PF deixa senador da cueca pelado

Para evitar a "humilhação pública", o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, mandou a Polícia Federal guardar no cofre o vídeo que expõe a batida policial realizada sob a cueca do senador Chico Rodrigues. A exibição tornou-se desnecessária. A simples reprodução do relato da PF deixou o investigado pelado, expondo ao país o nu que ninguém pediu, que ninguém queria ver, que já não espanta ninguém.

Barroso reproduziu nacos da descrição da PF no despacho em que submete ao Senado sua decisão de afastar Chico Rodrigues do exercício do seu mandato por 90 dias. Foram extraídos do interior da cueca do senador R$ 33,150 mil. "Próximo às suas nádegas", havia R$ 15 mil. Na parte "frontal", R$ 17,9 mil. Numa derradeira incursão, foram encontrados mais R$ 250.

Antes da fase proctológica, a PF apreendera num cofre localizado no armário do quarto do senador R$ 10 mil e US$ 6 mil. Súbito, o investigado pediu para ir ao banheiro. Ao segui-lo, o delegado Wedson Cajé, que comandava a ação, "percebeu que havia um grande volume, em formato retangular, na parte traseira" do short de pijama azul que o senador vestia.

Pergunta daqui, nega dali, o investigador decidiu realizar uma visita à região das ancas. Bingo! O volume retangular era feito de maços de notas de R$ 50. Na sala de estar, perguntou-se ao senador se havia outras surpresas escondidas na cueca. Indagou-se uma, duas, três vezes. Irritado, Chico Rodrigues "enfiou a mão em sua cueca, e sacou outros maços de dinheiro". Embora a cifra fosse maior, o volume era menor, pois as notas eram de R$ 200.

A certa altura, informou a PF, o senador baixou parcialmente o short do pijama, expondo partes íntimas de sua figura. Barroso avaliou que "o registro exibe demasiadamente a intimidade do investigado." Apura-se o desvio de verbas federais destinadas a combater a pandemia em Roraima. A pilhagem foi estimada em R$ 20 milhões.

Confirmada a culpa, escreveu Barroso, "estará justificada a punição" do senador. É "desnecessária a humilhação pública." O ministro tem razão. Até porque o investigado não seria o único humilhado. A política brasileira vive há tempos a mais despida das épocas. O excesso de obscenidade humilha também a plateia.

Bolsonaro deveria gravar na testa: "Nada a ver!"

Na sua transmissão semanal ao vivo pelas redes sociais, Jair Bolsonaro tratou na base do "não tem nada a ver" o senador Chico Rodrigues, com quem mantém uma amizade de mais de 20 anos —quase uma "união estável", segundo sua própria definição.

A investigação que levou a Polícia Federal à casa do senador que escondia R$ 33 mil na cueca envolve o desvio de R$ 20 milhões em verbas da Saúde destinadas a combater a pandemia em Roraima. Coisa obtida por meio de emendas parlamentares e liberada graças ao prestígio do senador no Planalto. Mas Bolsonaro não tem nada a ver com isso...

O senador exibe outras encrencas no prontuário. Deputado federal, confessou o desvio de verbas de combustível. Governador de Roraima, teve o mandato cassado. É réu em ação penal sobre apropriação de verbas obtidas por meio de emendas ao Orçamento da União. Conhecendo-o, Bolsonaro achou que seria uma boa ideia nomeá-lo vice-líder do governo. Mas o senador não tem nada a ver com o governo...

Chico Rodrigues presta favores à família Bolsonaro. Seria o relator no Senado da frustrada indicação de Eduardo Bolsonaro para o posto de embaixador em Washington. Empregou em seu gabinete um sobrinho do presidente, Leo Índio, muito próximo de Carlos Bolsonaro. Mas vincular o senador aos Bolsonaro é algo que não tem nada a ver.

O presidente poderia mandar gravar na sua testa a expressão "nada a ver". Isso o eximiria de dar explicações. E pouparia o país do seu ar de aborrecido. Se o Planalto não teve nada a ver com nada durante um ano e nove meses por que teria agora?

Dinheiro na cueca aproxima governo do passado

O Brasil assiste a um espetáculo que poderia se chamar "Mais do Mesmo." Aos pouquinhos, a era Bolsonaro vai ficando muito parecida com tudo o que o atual presidente prometia combater.

Antes do escândalo do mensalão, o então chefe da Casa Civil petista José Dirceu dizia: "Esse governo não rouba e não deixa roubar. Roubava-se e permitia-se o roubo", como se verificou.

Depois da descoberta do petrolão, Dilma e Lula se diziam orgulhosos por ter fortalecido a Polícia Federal e nomeando pessoas independentes para o cargo de procurador-geral da República.

Lula chegou a dizer: "Não existe nesse país "viva alma mais honesta do que eu." Deu em cadeia e impeachment5.

Ao declarar, na semana passada, que acabou com a Lava Jato porque não há corrupção no seu governo, Jair Bolsonaro tornou-se um prisioneiro do seu próprio cinismo.

Inaugurou um vale-tudo retórico que lhe permite dizer que o senador Chico Rodrigues, pilhado com dinheiro na cueca, seu amigo e, agora, vice-líder afastado no Senado, não tem nada a ver com o governo.

O cinismo libera o presidente para afirmar também que a operação conduzida pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União para investigar o amigo com quem disse ter quase uma "união estável" é "fator de orgulho".

Deixando-se de lado os desvios comprovados ou sob investigação —um balaio que inclui, além do amigo que suja dinheiro entre as nádegas, dois filhos suspeitos de peculato, dois líderes investigados por corrupção ativa, um ministro condenado por improbidade, dois ministros sub judice, e uma explicação pendente sobre o dinheiro que pingou na conta da primeira-dama...— tirando tudo isso, o que sobra são as reformas que o presidente disse que faria: política, tributária, do Estado e dos costumes.

Depois da mexida na Previdência, imaginou-se que as outras reformas deslanchariam. Deu-se o oposto. Na política, Bolsonaro reforma a imagem que vendeu de si mesmo, rendendo-se ao toma-lá-dá-cá.

Em discurso feito na tribuna da Câmara no dia 31 de março de 2016, o então deputado Bolsonaro provocou o líder petista José Guimarães, que teve um assessor preso com dólares na cueca.

"Quero dizer ao líder do PT [...] que coalizão não é vale-tudo! Não é jogar ministério para cima e enfiar dinheiro na cueca de assessor parlamentar."

O cuequeiro agora não era assessor, mas vice-líder do governo. O mesmo centrão que assaltou sob o petismo planta bananeira em cofres bilionários da Esplanada e já pressiona Bolsonaro por um ministério. Mas Bolsonaro diz ter orgulho de si mesmo.


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