Semana On

Quinta-Feira 06.ago.2020

Ano IX - Nº 404

Entrevista

Cinema e diversidade em Campo Grande

Leandro Marques coordena a terceira edição itinerante do Festival Mix Brasil da Cultura da Diversidade, que acontece de 28 a 30 de novembro, no Museu da Imagem e do Som.

Postado em 28 de Novembro de 2014 - Guilherme Cavalcante

Leandro Marques coordena a terceira edição itinerante do Festival Mix Brasil da Cultura da Diversidade. Leandro Marques coordena a terceira edição itinerante do Festival Mix Brasil da Cultura da Diversidade. Foto: Erônemo Barros
Leandro Marques coordena a terceira edição itinerante do Festival Mix Brasil da Cultura da Diversidade. Leandro Marques coordena a terceira edição itinerante do Festival Mix Brasil da Cultura da Diversidade.

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A cena audiovisual brasileira experimenta, mesmo com seus percalços, um crescimento significativo na última década. Tanto com o aumento de financiamentos pelas leis de incentivo à cultura como pelas legislações que passaram a obrigar certa porcentagem de produtos nacionais nas TVs abertas e a cabo, é evidente o surgimento de produtos cada vez mais aprimorados e diversos. Mato Grosso do Sul, nos últimos anos, também experimenta esta fase, com o notável aumento de projetos locais. Na mão desta tendência, o Festival Mix Brasil é pioneiro em destacar os filmes (curta, médias e longas-metragens) de temática LGBT. Há alguns anos, conta inclusive com uma versão itinerante, que percorre algumas cidades brasileiras. Campo Grande está no circuito. Aqui, o festival é coordenado por Leandro Marques, formado em Rádio e TV e pós-graduado em Roteiro. Desde 2011, ele assina a produção com uma equipe enxuta, mas que tem dado conta de fazer do evento um sucesso. Em entrevista para a Semana ON, Leandro destaca as novidades da terceira edição do Festival Mix Brasil em Campo Grande, que acontece a partir de hoje no Museu da Imagem e do Som (MIS), e ainda dá algumas impressões sobre o mercado sul-mato-grossense do audiovisual. Confira.

 

Por Guilherme Cavalcante

Pela primeira vez não há um grande delay entre a versão nacional do festival, em São Paulo, e a itinerante de Mato Grosso do Sul. Como isso pode ser encarado como uma inovação?

Esta é a principal novidade. Este ano a gente acompanha a sequência do festival de São Paulo, que acabou dia 23. Apenas cinco dias depois tem início o nosso, com uma programação quente, com filmes novos e inéditos. É interessante porque diminui a espera pela exibição de vários filmes, principalmente os curtas-metragens, e promove uma divulgação maior deles, subvertendo o processo que antigamente era mais lento. Isso contribui muito para a cena audiovisual daqui, incentiva as produções. Só para fazer uma comparação, na primeira edição, em 2011, pouco se ouvia falar de produção local, as pessoas não estavam produzindo tanto. Naquela época a gente até fez um curta-metragem despretensiosamente, “Lados Dados” (direção de Breno Benetti), no qual trabalhei como ator. Era um filme simples, sem grandes ousadias técnicas, digamos assim, mas que surpreendentemente foi muito longe. Foi visto no Mix Brasil daqui, de São Paulo, foi convidado para o festival Inside Out, de Toronto, no Canadá e para o Outfest, de Los Angeles, nos Estados Unidos. E passou também no Canal Brasil. A gente não tinha a menor noção de que isso ia acontecer. Por outro lado, isso foi como uma alavanca para o pessoal que estava estagnado começarem a produzir.

Como ocorre esse processo de incentivo?

Hoje, três anos depois, nós constatamos uma cena mais forte. Quase todo mês tem o lançamento de um filme ou videoclipe, a gente fica sabendo muito mais fácil das produções, dos projetos. Tem amigo seu envolvido com alguma coisa. Sabendo que existem produções Brasil a fora e eventos para exibição deles, fortalece-se um mercado tanto para quem produz como para quem consome, e não necessariamente orbitando em torno da temática LGBT. O importante é fomentar o mercado audiovisual, proporcionar essas trocas de experiências. E a versão itinerante do Mix Brasil faz isso. É o festival de temática LGBT mais importante da América Latina e um dos mais importantes do mundo.

Além da mostra de curtas, há mais diferenciais?

Sim. Nossa programação vai trazer debates bem bacanas com os produtores daqui, dentre eles o Fabio Flecha, que assinou várias produções no estado. Tem a esposa dele, a Tânia Sozza, que é produtora executiva dele. Tem o Filipi Silveira, o Essi Rafael, a Camila Machado, que está produzindo bastantes videoclipes aqui. São pessoas que já estão na estrada, que já têm um trabalho consolidado e que podem inspirar muita gente a produzir. Cada um tem como dar uma contribuição sobre o “fazer cinema”, quais são as etapas e como eles fazem roteiros, etc. Vamos seguir um modelo de talk show, com perguntas da plateia, enfim, será um momento para conversas e possíveis descobertas.

Teremos também, no sábado, um debate com o tema “Diversidade Mídia, Cultura e Comportamento”, em parceria com o Conselho Regional de Psicologia de Mato Grosso do Sul e coordenado pela Cris Duarte, que vai discutir a relação entre a diversidade e a mídia, partindo do ponto de uma violência  cada vez mais visível. No domingo, o tema será “Diversidade, Direitos e Legislação” em parceira com o Conselho Estadual de Diversidade de MS e com a Comissão Estadual de Diversidade da OAB-MS, para falar dos aspectos legais e a falta deles na defesa da comunidade LGBT.

As pessoas não estão à mercê dos recursos, estão buscando fazer cinema do jeito que dá.

Qual a realidade da cena audiovisual em Mato Grosso do Sul? Quais são os desafios enfrentados nesse mercado?

Não posso falar com muita profundidade sobre os desafios financeiros, no campo dos financiamentos, mas o que se vê é uma cena em retomada. As pessoas não estão à mercê dos recursos, estão buscando fazer cinema do jeito que dá. A prática do cinema é muito satisfatória, essa rede de contatos que se cria para promover as realizações são muito boas, mas fazer isso remuneradamente, com recursos e investimentos para financiar seu projeto, isso faz uma diferença enorme. Porém, mesmo sendo notável que há mais produções, mas não podemos ignorar os colegas que protestam pelo direito de produzir dignamente, seja com verbas da cultura, seja com espaços para apresentações. Cinema para passar nossos filmes, por exemplo, não tem. É complicado conseguir uma sala nos cinemas dos shoppings, de forma que as exibições normalmente acontecem no MIS. Ser artista, ser diretor, produtor, ator, enfim, isso é profissão, mas esse profissional também tem que ter um reconhecimento para além do tapinha nas costas.

É preciso também independência financeira...

Sim, ele precisa de retorno financeiro para poder viver disso e fazer bem feito. Em Mato Grosso do Sul ainda estamos atrasados porque as pessoas tem um trabalho, de onde tiram sustento, e paralelamente são artistas. A ideia é que um dia nós tenhamos o privilégio de sermos profissionais e ter o reconhecimento financeiro também, conseguir efetivamente viver daquela atividade laboral. Quando isso acontecer, estaremos em um outro patamar. Por enquanto a gente vai fomentando. Força de vontade há muita.

Como surgiram as versões itinerantes do Festival Mix Brasil?

Em uma das edições nacionais do festival, havia alguns campo-grandenses participando. O núcleo duro do festival já estava pensando em novos locais para levar a itinerância. Como, na época, eu já estava um pouco envolvido com audiovisual em Campo Grande, fui convidado pelo João Federici, diretor cultural do projeto nacional, para uma conversa. Ele me perguntou o que eu fazia, quais as experiências que eu tinha. Na época, eu estava estudando e não tinha como me dedicar ao Mix Brasil Campo Grande, mas quando terminei aquela etapa, eu me disponibilizei para produzir a primeira versão, que aconteceu em 2011. Foi quando eu voltei de São Paulo para cá com o fim de tocar o projeto. Foi tudo muito bacana, muito legal. Conheci muita gente bacana e vi que era um projeto que teria continuidade.

Um festival de cinema LGBT - no caso, o maior da América Latina - promove muitas reflexões sobre o tema. Mas a temática fica em segundo lugar diante da paixão pelo cinema em si.

Que estrutura o produtor local tem que garantir para que a edição aconteça?

Em Mato Grosso do Sul, o festival tem acontecido basicamente por meio de apoios culturais. Futuramente, nós pretendemos correr atrás de editais, de ter algum financiamento institucional para que ele aconteça, mas na atualidade só contamos com esses apoios. A maioria dos patrocínios são apoios culturais, que oferecem serviços e ajudam a custear a produção. Realmente, não dá pra ficar rico fazendo festival dessa maneira, depois da terceira edição aprendi isso. Mas o fato é que depois de três edições, as coisas ficam mais fáceis, as pessoas viram que o festival é sério, que há credibilidade. Eu já não mais encontro portas fechadas. Tanto é que na primeira edição começamos a produção com três meses de antecedência. Neste, começamos o processo com 45 dias de antecedência. Não precisamos mais fazer aquele trabalho de sensibilização, o produto já é conhecido e tem credibilidade. As portas permaneceram abertas.

A temática LGBT é um diferencial?

Certamente, mas pessoalmente está em segundo plano. Não que não tenha importância, pelo contrário, um festival de cinema LGBT - no caso, o maior da América Latina - promove muitas reflexões no público. Mas posso dizer que temática fica em segundo lugar diante da minha paixão pelo cinema em si. Os benefícios, no entanto, são gerais, tanto para a produção cinematográfica como para o mercado LGBT em si. Veja que não existe muita concorrência quando se aborda a temática LGBT. Usando o exemplo do curta do qual participei em 2011, se fosse uma história de personagens heterossexuais, certamente não haveria a mesma amplitude. O alcance seria outro, menor. Existe esse segmentação, é fato. Hoje nós vemos que o cinema nacional saiu da mesmice e já contempla diversos públicos diferenciados. Há uma década, filme nacional era filme nacional. Hoje tem o drama nacional, a comédia nacional, ação nacional, enfim. Esse passo foi importante para o nosso mercado. E com a segmentação, se elimina muita concorrência, ao mesmo tempo em que se promove a visibilidade dele. No caso do LGBT, isso é mais notável ainda. Um dos filmes que vamos exibir, “Hoje eu quero voltar sozinho”, foi o indicado do Brasil para concorrer na categoria de Melhor filme estrangeiro do Oscar.

Tatuagem e Praia do Futuro também foram filmes LGBT marcantes de 2014...

Sim, e isso reflete na produção, emprega gente, divulga a temática. Possivelmente, o cinema promove um alcance maior que os debates que acontecem, porque ali é um debate por meio do entretenimento, com demanda, digamos assim. É importante promovermos o cinema porque ele também faz com que o espectador tenha contato com aquela realidade muitas vezes desconhecida, “no armário”.

O que mudou da produção da primeira edição até agora?

Francamente? Eu me sinto muito menos ansioso para esta terceira edição, encaro com mais serenidade. Isso acontece porque ao longo das edições há um aprendizado, a gente sabe o que dá e o que não dá certo e sabe como evitar as coisas. Esta terceira edição está mais madura, mais profissional, e mais engajada com essa filosofia de fomentar e motivar a produção cinematográfica. Essa tranquilidade é resultado de um trabalho que tem sido bem feito, o que me dá inclusive disposição a peregrinar mais por outros festivais, saber o que está sendo feito por aí e como isso pode ajudar e amadurecer a produção do estado.

Serviço

Festival Mix Brasil da Cultura da Diversidade – itinerância Campo Grande.

Dias 28, 29 e 30 de novembro de 2014, a partir das 19h30 (sexta), 18h (sábado) e 17h (domingo), no Museu da Imagem e do Som (MIS) - Av. Fernando Correa da Costa, 559 – 3º andar. Entrada franca (limite de 75 assentos nas sessões).


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