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Sábado 16.jan.2021

Ano IX - Nº 426

Coluna

Quando professor é protagonista e educar é o roteiro

A educação salva vidas. Professores e professoras são investidos desse poder e com ele assumem enorme responsabilidade. Portanto, seu trabalho merece toda visibilidade que o cinema é capaz de proporcionar

Postado em 14 de Outubro de 2020 - Clayton Sales

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Na sua juventude, Kimani Ng'ang'a Maruge lutava contra a colonização britânica no Quênia. Como resultado de suas batalhas políticas em tempos hostis, ele foi preso, torturado e viu a família ser assassinada na sua frente. Era a Revolta dos Mau Mau, ocorrida nos anos 1950 e 1960. Décadas depois, em 2003, com sua pátria independente, Maruge tinha 84 anos de idade quando ouviu uma rádio divulgar o comunicado sobre um programa governamental chamado Educação para Todos. Analfabeto, o ancião vislumbrou a chance de conquistar o que lhe foi privado no passado. Sua obstinação em se matricular na escola primária encontrou todo tipo de resistência, de insinuações maldosas a ameaças violentas. Porém, Maruge insistiu e conseguiu entrar no colégio, aprendendo a ler e escrever junto com crianças que poderiam ser seus bisnetos. Sua jornada rendeu vários reconhecimentos, como o convite da ONU para discursar sobre o poder da educação e a inscrição no "Guiness Book" como o homem mais velho a cursar o ensino primário. Maruge faleceu em 2009, mas sua caminhada extraordinária está eternizada no filme "O Aluno - Uma Lição de Vida" (2010) de Justin Chadwick. É a saga de um ser humano em busca do que julgava mais valioso nos seus últimos anos. A educação desconhece limites etários.

No entanto, Maruge jamais conseguiria realizar seu sonho sozinho. Em sua trajetória espinhosa, o velho homem contou com a sensibilidade e a coragem de alguém que acreditou na potência transformadora da educação: a professora Jane Obinchu. Ela enfrentou pressões do marido, do supervisor educacional do distrito onde se localizava o colégio, dos colegas de trabalho, da mídia local que a ridicularizava, de pais das crianças que não admitiam um idoso estudando com seus filhos e de uma parcela intolerante da comunidade. Apenas porque Jane adotou o espírito do que Paulo Freire denominou de educação inclusiva. Ela ensinou a Maruge o encanto das letras desenhadas no caderno, o desbravar da escrita e a luminosidade da leitura. A professora Jane incentivou o idoso a conviver com as diferenças, a prosseguir nos estudos e o valor da educação pública e democrática. Além disso, a mestra estimulou o velho estudante a compartilhar suas longas vivências com meninos e meninas, contribuindo para o importante aprendizado sobre liberdade e que é preciso lutar por ela. Quando Jane foi demitida, os ensinamentos que a docente transmitiu, com a ajuda do aluno Maruge e o legado de sua existência, ganharam ressonância entre a garotada, que exigiu a volta da docente. O resultado foi a readmissão da professora e a carinhosa recepção em sua volta ao colégio. O afeto dos estudantes é a recompensa mais sublime para o educador. 

Há uma diversidade de obras cinematográficas sobre o trabalhos de profissionais de ensino e a importância da educação. Geralmente, o que atrai os realizadores são histórias reais ou ficcionais sobre professores capazes de causar mudanças significativas e benéficas nas vidas de seus estudantes. É o caso do clássico "Ao mestre, com carinho" (1967) de James Clavell, sobre um engenheiro desempregado que consegue trabalho numa escola de bairro violento. Com disciplina e liberdade nas medidas certas, o professor aprimora o caráter de seus alunos mais problemáticos. Na mesma linha, o longa-metragem "Escritores da Liberdade" (2007) de Richard LaGravanese é baseado na história real de Erin Gruwell, professora que assumiu uma turma de estudantes desmotivados e os incentivou a escreverem suas aflições em diários, partindo do exemplo de "O Diário de Anne Frank". A metodologia ajudou os alunos a abrirem seus olhos para o quanto o preconceito é nocivo e o quanto a liberdade nasce do conhecimento. O papel transformador que o educador exerce sobre realidades adversas é evidente também no drama "Preciosa" (2009) de Lee Daniels, cuja trama gira em torno da adolescente negra e obesa Clareece Jones, que engravidou duas vezes graças aos estupros constantes do pai e que sofria maus tratos da mãe. Ela encontra na professora Rain o ensinamento para superar suas intempéries e acreditar em si. Professores são capazes de reverter as situações mais ásperas e convertê-las em sabedoria.  

Outro aspecto sobre o trabalho dos educadores frequentemente abordado pelo cinema e televisão é seu potencial de desafiar visões engessadas do ensino. Um dos exemplos mais magníficos é "Sociedade dos Poetas Mortos" (1989) de Peter Weir, que conta a história de John Keating, professor de inglês que passa a lecionar para em uma escola tradicional, revoluciona a classe com seus métodos pouco ortodoxos, resultando em benefícios intelectuais e afetivos para seus alunos. Outra obra nesse sentido é "O Sorriso de Mona Lisa" (2003) de Mike Newell, que acompanha a professora Katherine Watson, recém-chegada a um colégio de meninas abastadas para ministrar História da Arte nos anos 1950. A docente questiona o objetivo da escola, de formar mulheres para serem boas esposas, e ensina que esse não é o único papel que cabe ao sexo feminino, mesmo enfrentando a contrariedade da direção. Já a série espanhola "Merlí" (2015-2018) gira em torno de Merlí Bergeron, excêntrico professor de Filosofia que, em suas inusitadas e participativas aulas, utiliza o saber de figuras como Platão, Aristóteles, Marx e Judith Butler para atiçar a mente em formação de seus alunos e transformá-los em seres humanos melhores. Muitas vezes, é preciso abalar alicerces para edificar lições que valerão para a vida. 

A educação é um processo contínuo e dinâmico, complexo e vibrante, profundo e exigente. Por isso, é um manancial tão abundante para realizadores das artes audiovisuais. Nas situações envolvendo ensino e contextos pedagógicos, as histórias reais ou ficcionais estão à espera de uma câmera e um roteiro para ganharem as telas. De longas-metragens a pequenas produções, os filmes sobre o inestimável ato de educar e seus resultados sobre quem recebe conhecimentos são obras que revigoram nossas energias, reativam nossos afetos e alimentam a motivação em seguir ensinando, enfrentando novos e antigos desafios. O curta-metragem sul-mato-grossense "Cartilha da Vida" (2018) de Filipi Silveira resume com delicadeza e simplicidade o significado da educação em uma breve narrativa de redenção, memória e perspectiva de futuro. A educação é um poder que salva vidas. Professores e professoras são investidos desse poder e com ele assumem enorme responsabilidade. Portanto, seu trabalho merece toda visibilidade que o cinema é capaz de proporcionar.


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