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Quarta-Feira 25.nov.2020

Ano IX - Nº 420

Poder

Fim do auxílio emergencial deve deixar 38 milhões de brasileiros desamparados, diz FGV

Mais da metade são trabalhadores informais, enquanto 74% deles têm renda até R$ 1.254

Postado em 09 de Outubro de 2020 - Luisa Fragão (Fórum), Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

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Estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) estima que o fim das parcelas do auxílio emergencial em dezembro deve deixar 38 milhões de brasileiros sem assistência. O número corresponde às pessoas que recebem o auxílio, mas não são cadastradas no Bolsa Família.

Os 38 milhões representam 61% da parcela da população que recebeu o auxílio emergencial. De acordo com o estudo, mais da metade são trabalhadores informais (64%), enquanto 74% deles têm renda até R$ 1.254 e são em sua maioria pessoas de baixa escolaridade, com no máximo o ensino fundamental (55%).

A pesquisa da FGV foi feita a partir dos dados do mês de agosto da Pnad Covid-19, pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) criada para medir os efeitos da pandemia sobre o mercado de trabalho e a saúde dos brasileiros. As informações são de reportagem da Folha de S.Paulo.

Os resultados da pesquisa reforçam a necessidade de ampliar programas de assistência social quando o auxílio emergencial acabar. O governo Bolsonaro, no entanto, ainda não estabeleceu de que forma deve aplicar o Renda Brasil, ou Renda Cidadã, programa de transferência de renda defendido pelo centrão como forma de substituir o Bolsa Família.

O ex-capitão, no entanto, chegou a se reunir com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, para debater sobre o futuro do Renda Cidadã em meio à troca de farpas públicas entre o parlamentar e o ministro da Economia, Paulo Guedes. A pauta da conversa consistiu basicamente na forma de financiamento do programa.

Enquanto pobres penam na fila, candidatos ricos recebem auxílio

Mais de 500 candidatos nas eleições municipais têm patrimônio de mais de R$ 1 milhão e ainda assim receberam auxílio emergencial ou Bolsa Família neste ano. Reportagem de Vinicius Konchinski, Guilherme Botacini e Beatriz Montesanti, do UOL, cruzou dados informados pelos próprios candidatos com as folhas de pagamento dos benefícios entre maio e junho.

Sim, enquanto muitos que precisam do dinheiro ganharam um "não do governo e ainda aguardam seu pedido ser reconsiderado, há candidatos com patrimônio que receberam o benefício meses atrás.

Provavelmente, há aqueles que entraram de gaiato por sacanagem de alguém que fez o cadastro à sua revelia, como já vimos acontecer. E também há os que podem ter caído em algum golpe. Mas há aquele naco patrimonialista que não distingue o que é público do que é privado. E por acreditar ser especial, não se vê como cidadão, mas como sócio de um grande empreendimento extrativista chamado Brasil.

Como esse empreendimento costuma privatizar os lucros para meia dúzia e socializar os prejuízos para a massa, no momento em que ele distribuiu algo para o coletivo, parte dos sócios não aceitou ficar de fora. Recorreram à famosa Lei de Gerson.

Os mais jovens talvez não conheçam a expressão, mas ela veio de uma propaganda de cigarros, de 1976, na qual o jogador de futebol Gerson pergunta: "gosta de levar vantagem em tudo, certo?" Acabou sendo usada para se referir a quem, sempre que pode, tenta tirar uma casquinha sem se importar com as consequências éticas e morais de seu ato.

Já é difícil construir uma República em que parte dos cidadãos trabalha com o "cada um por si e Deus por todos" - seja porque se sente dona da coisa toda, seja porque vive num país que sistematicamente lhe dá as costas.

Imagina, então, o tamanho do desafio quando estamos falando de pessoas que concorrem às Prefeituras e Câmaras Municipais e, portanto, teriam a obrigação de zelar pelo bem comum e pelas contas públicas. Isso faz lembrar o bordão do deputado Justo Veríssimo, personagem do saudoso Chico Anysio: "quero que pobre se exploda".

Porque na prática, é isso o que acontece. Enquanto uma parcela da população com patrimônio acessou recursos destinados à sobrevivência de trabalhadores informais pobres durante a quarentena, a imprensa registrou a história de tantas e tantas pessoas que efetivamente precisavam dos recursos, mas tiveram seus pedidos negados pelo sistema do governo Bolsonaro.

Originalmente, a equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, queria pagar um auxílio emergencial de R$ 200. Foi o Congresso Nacional que pressionou para que o valor aumentasse - depois, o presidente tentou colher os louros sozinho, mas isso já faz parte dos Contos da Reeleição. Desde então, mais de 65 milhões receberam as parcelas. Se a imensa maioria desse total realmente precisava da grana, alguns mais abonados foram malandros e, acreditando que nunca seriam pegos, entraram com o pedido.

Com muito trabalho de educação para a cidadania, concomitante a mudanças estruturais a fim de garantir que a coletividade pense no interesse coletivo e não apenas no seu próprio umbigo, ainda assim levará um rosário de gerações até que comportamentos como esse tornem-se peça de museu. Pois na visão de parte da sociedade, o discurso do bem comum é uma peça fofa de marketing que se dobra às necessidades individuais. Ou, no limite, é coisa de otário mesmo.

Por isso, não basta educação para cidadania. Seria necessário punição de caráter econômico a quem, comprovadamente, se beneficiou do auxílio sem estar apto a recebe-lo.

E uma punição política, que teria que ser dada pelas urnas.

A situação também é responsabilidade de um governo que foi incapaz de entregar um sistema que cruzasse dados e evitasse fraudes. Entende-se o prazo curto para colocar o processo em marcha, mas os insistentes casos bizarros, que continuam meses depois do início do pagamento, mostram que também faltou planejamento.

O que não é surpresa em uma administração no qual, no topo da cadeia de comando, há alguém que nega a gravidade da pandemia e diz que quem ficou em casa é covarde.


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