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Sábado 23.jan.2021

Ano IX - Nº 427

Coluna

Deus e o diabo na lupa do cinema

É papel crucial de artes com potencial provocador usar sua riqueza e alcance para expor os meandros ardilosos do fanatismo

Postado em 30 de Setembro de 2020 - Clayton Sales

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Século 14, Idade Média. Tempo de leis severas escritas sob a égide do temor. De clérigos ditando as tábuas a serem seguidas por pessoas que desconheciam a razão e a ciência. Quem comungava dessas heresias corria o risco da assar na fogueira inquisitória determinada por homens autoinvestidos de mandato divino. Em um mosteiro no interior da Itália, uma série de misteriosas mortes assombrava os internos e a comunidade camponesa. Para quase todos, os macabros homicídios eram obras do capeta, que resolveu invadir o terreno sagrado. Porém, para o monge franciscano William de Baskerville, a autoria dos crimes tem outros motivos. Sua passagem pelo mosteiro para um conclave sobre doação de bens da igreja é redirecionada para as investigações sobre os assassinatos. Embora seja crente em Deus, o monge William e seu noviço Adso de Melk consideram mais sensato caminhar pela trilha do raciocínio e relações entre evidências para desvendar o caso. A averiguação parecia chegar perto da verdade factual, quando o poderoso representante da inquisição Bernardo Gui chega ao mosteiro e determina os culpados com base em seu dogmatismo, sem qualquer comprovação eficaz. Indignados diante da injustiça causada por essa poderosa autoridade religiosa, os camponeses conseguem salvar uma garota da fogueira e acabam emboscando Bernardo. E William e Adso descobrem o mistério. Os monges foram mortos pelo venerável Jorge de Burgos, que colocou veneno nas páginas de um livro de Aristóteles sobre o riso para atingir quem cometeu o pecado de lê-lo, já que, para ele, o riso prejudica a fé em Deus. Por meios racionais, foi revelado que o fanatismo motivou os assassinatos dentro do mosteiro. Eram tempos em que o fundamentalismo religioso determinava leis, conduzia julgamentos e executava sentenças. 

Baseado no romance de Umberto Eco, "O Nome da Rosa" (1986) tem a direção de Jean-Jacques Annaud e expõe com um bom roteiro e atuações magníficas de Sean Connery, Christian Slater, F. Murray Abraham e um elenco formidável, a capacidade do pensamento religioso radicalizado e elevado ao status de palavra final de corromper mentes. No contexto do filme, a Idade Média, eram os líderes da fé que mandavam ou, no mínimo, exerciam influência decisiva nas vidas das pessoas. A religião oficial era a lei e seus pretensos representantes, os juízes "de Deus". Por mais que esses dias estejam distantes no calendário da História, assistir ao filme leva à constatação de que o espectro do obscurantismo ainda paira no mundo. Mesmo após a separação Igreja-Estado, doutrina política assumida por várias democracias e repúblicas a partir do século 19, existem lugares em que premissas teológicas, geralmente da denominação cujos membros alcançam o poder, são a instância máxima na vida civil. Há locais em que a ideia de "heresia" é transplantada para outros credos e, com a não laicidade do Estado, torna-se o martelo do tribunal que manda executar sentenças. "O Nome da Rosa" trafega no delicado ponto em que a razão, simbolizada em William de Baskerville, pode ser perigosa em conjunturas marcadas pelo dogmatismo institucionalizado. Sob todas as pressões para validar a narrativa de que era o diabo o autor dos crimes e que a palavra de Bernardo apontando quem eram os possuídos era a prova cabal, o monge jamais cedeu e preferiu o caminho da dedução, associação de pistas e conclusões construídas à luz da mente lógica. William quase foi parar na fogueira por isso. O fanatismo, com doses de ressentimento, quase queimou nas labaredas da inquisição, um religioso que ousou pensar. 

Algo semelhante acontece em "O Diabo de Cada Dia" (2020), produção da Netflix dirigida por Antonio Campos, cujo roteiro é baseado no romance de Donald Ray Pollock. O fanatismo religioso levou o carismático pastor Roy Lafferty a assassinar a esposa Helen para testar o poder de Deus em ressuscitar os mortos. Claro, o corpo da mulher não despertou, mas a filha desse casamento também se tornou absolutamente bitolada em suas crenças, a ponto de entregar seu corpo adolescente aos encantos maquiavélicos do histriônico Reverendo Preston. Ela foi convencida que a pedofilia em curso era desígnio dos céus. Em "Anjos e Demônios" (2009) de Ron Howard, baseado no livro de Dan Brown, o camareiro do Papa é o responsável por contratar um assassino que mata três dos quatro postulantes ao posto máximo do catolicismo. O intuito é simular a volta dos Iluminati, supostamente dispostos a destruir o Vaticano usando a energia colossal produzida pela antimatéria. Tudo para mostrar ao mundo que a ciência estava destruindo a crença em Deus. No longa-metragem nacional "Divino Amor" (2019) de Gabriel Mascaro, o cenário é um Brasil futurista em que a religião é regra, determinando a vida da sociedade. Nesse contexto, Joana é uma escrivã de cartório que tenta colocar empecilhos nos pedidos de divórcio sob sua responsabilidade. Acreditando que Deus irá recompensá-la pelos seus esforços, ela ganha, na verdade, uma crise conjugal. O fanatismo oficializado nesse país distópico transformou uma mulher em escrava das suas convicções dogmáticas. 

O cinema também possui produções com tramas sobre homens-bomba que se explodem sob a convicção de que Alá irá lhes abençoar no paraíso após a morte e de seitas que cultuam o suicídio coletivo como forma de alcançar algum tipo de salvação na eternidade. A sétima arte encontra nas histórias sobre fundamentalismo religioso e radicalismo místico fontes inesgotáveis para boas produções. Ação, suspense e terror são gêneros em que essas produções normalmente se enquadram como forma de acentuar a mensagem de que a fé pode ser salutar e criadora de solidariedade, amor e temperança. Porém, quando exacerbada a ponto de se aproximar da psicopatia e incentivada por ambiciosos, charlatães e pervertidos disfarçados de líderes virtuosos tem força suficiente para semear atrocidades. É papel crucial de artes com potencial provocador usar sua riqueza e alcance para expor os meandros ardilosos do fanatismo. E jogar luzes sobre as sombrias e bem disfarçadas intenções de falsos profetas. Afinal, Deus e o diabo habitam a terra dos detalhes, que a lupa do cinema ajuda a ampliar. 


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