Semana On

Segunda-Feira 01.mar.2021

Ano IX - Nº 432

Coluna

Perto do Fogo

A necropolítica nos atravessa como um terrível vendaval

Postado em 30 de Setembro de 2020 - Ricardo Moebus

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Sim, os povos originários cultivam com todo apreço e respeito suas fogueiras.

Estão ali, perto do fogo, nesta arte de conviver com o fogo que aquece, alimenta e é alimentado; mantendo uma proximidade, convivência que possa aquecer sem queimar, manter aceso sem propagar.

Cuidar do fogo em cada maloca é uma arte contínua e milenar.

Também durante quase todos os seus rituais a fogueira é mantida acesa, chama alimentada como um altar ao deus fogo, que tudo transmuta, potência de restaurar à matéria sua condição original de luz.

Fogueira, portal por onde os corpos vegetais, lenha, que durante toda uma vida converteram luz do sol em matéria, agora podem fazer o caminho de volta, convertendo-se em luz e calor novamente.

Cada fogueira que atravessa as noites dos povos tradicionais é um pequeno sol anunciando e reafirmando o eterno trânsito da luz em matéria na alquimia vegetal e novamente da matéria à luz.

É claro que esse cuidado, esse cultivo, essa ritualística do fogo sagrado não tem absolutamente nada, nenhuma correlação com as declarações estapafúrdias e infundadas, eventualmente feitas até na ONU, por alguém que levianamente queira atribuir aos maiores defensores e protetores das florestas e outros biomas - os povos originários -, declarações de alguém que queira absurdamente atribuir justamente aos protetores e defensores, a causa dos focos de incêndios que terrivelmente ora consomem o Brasil, transformando em cinzas o Pantanal, o Parque Nacional, as Florestas que até então resistiram em nosso quintal, agora consumidas pela irresponsabilidade federal, pela necropolítica que nos atravessa como um terrível vendaval.


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