Semana On

Quinta-Feira 29.out.2020

Ano IX - Nº 416

Coluna

Como não falar da dor, que não cabe mais em mim

Um poema de Regis Moreira para matar a desesperança

Postado em 23 de Setembro de 2020 - Regis Moreira

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Como não falar da dor, que não cabe mais em mim

A culpa do estupro é da mulher

A culpa da violência é da menina

A culpa das queimadas é do índio

A culpa da morte precoce é da travesti

A culpa da fobia é do gay

A culpa do comum é do comunismo

Da doença é do doente

Da pobreza é do pobre

Do racismo é do negro

Da situação de rua é da falta de interesse

A culpa

Da culpa da culpa da culpa da culpa da culpa da culpa...

É da CÚPULA

Da fogueira inquisidora sempre acesa

Do dedo sempre apontado

Da arma sempre mirada

A culpa da bala perdida é do corpo encontrado

Não deveria estar ali

Não podia estar ali

Não era pra ser ali

Não era pra existir

A ousadia do existir é a sua culpa

Do crime

Do fogo

Da cinza

Do corte

Da rua

Da fome

Da morte

Má sorte

O pássaro queimado

A onça

A cobra

O jacaré...

A alma esturricada

Do púlpito das Nações – Unidas?

Bocas em esgoto aberto

Proliferam ódios

O padre dos pobres - ameaçado

O direito – ameaçado

A democracia – ameaçada

Existir é privilégio

Comer é privilégio

RESPIRAR é privilégio

Desce sobre nós a lama de insanidades

Vai sujando nossas vidas

Invadindo nossos sonhos

Pondo em risco o agora

Extinguindo o amanhã

Não estou bem

Não estou são

Não estou nada bem

O pescoço treme

As mãos tremem

Os braços doem

A coluna dói

O sono não vem

Ou acordo aos sobressaltos

Estar bem no meio dos destroços

É negar a destruição

Pisei num galho em chamas

Queimei os meus pés

É Primavera

Entre os dentes

É primavera!

 

Régis Moreira

Jornalista e Docente da Universidade Estadual de Londrina - UEL


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