Semana On

Quarta-Feira 21.out.2020

Ano IX - Nº 415

Coluna

O minúsculo cresce

Idelber Avelar fala de Bolsonaro, Amazônia, ditadura e perdas

Postado em 23 de Setembro de 2020 - Idelber Avelar

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Há um pedido para que eu dê alguma opinião sobre o estouro da popularidade do minúsculo a 50%, uma paulada em nossas esperanças de derrotá-lo em 2022. Em vez de repetir coisas já ditas, fiz uma compilação dos meus escritos sobre o Brasil dos últimos cinco anos, que nos leva ao bolsonarismo, e vou deixá-la aqui pelo fim de semana.

Enquanto termino de revisar a versão copidescada do ELES EM NÓS, que sai pela Record no começo de 2021, vocês vão lendo aí com calma, se quiserem. Tem muita coisa. Seguem os links, por ordem cronológica inversa, voltando até 2015.

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“A rebelião do eles: léxico, morfologia e sintaxe do fascismo bolsonarista” é um texto de umas 35 páginas sobre a gênese e a constituição do bolsonarismo. Acho que dá algumas pistas sobre o que viria acontecer depois.

“Estranho nacionalismo” é um artigo que foi publicado na Veja e que trata do papel do nacionalismo no bolsonarismo.

“Pactos amnésicos no Brasil” explica um pouco do papel da desmemória na emergência do bolsonarismo: https://estadodaarte.estadao.com.br/pactos-amnesicos-no-br…/

A hipérbole do Brasil Grande” mapeia uma metáfora que atravessa o Brasil do século XX e da qual o bolsonarismo se apropria.

O oxímoro lulista e a implosão eleitoral da esquerda” analisa a vitória do bolsonarismo à luz do que veio antes. Está publicado na revista Insight Inteligência.

"Cristóvão Tezza, a polarização política e ‘A tirania do amor’” é um exemplo de como a literatura pode iluminar o processo político brasileiro dos últimos anos.

Morte e ressurreição das palavras” trabalha o uso bolsonarista da linguagem.

Na revista argentina Transas, está publicado “Ascensión y caída del lulismo” (que não saiu em português).

Energia limpa e limpeza étnica: As condições discursivas, jurídicas e políticas do ecocídio de Belo Monte” dá algumas pistas sobre um antecedente da política bolsonarista para a Amazônia.

Os levantes de Junho de 2013 e o esgotamento do pacto lulista: sobre antagonismo, contradição e oxímoro” saiu na revista carioca Lugar Comum e analisa o período 2012-16.

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É página pra caralho, leiam com calma e vão colocando aqui o que acham. Enquanto não chega o ELES EM NÓS, espero que esses textos ajudem a entender como se criou o buraco em que alguém tão desprezível como o minúsculo tem 50% de aprovação.

CENA PATÉTICA

Esta é uma das cenas mais patéticas de toda a história do governo Bolsonaro até agora. Paulo Guedes, o homem forte da economia, o dono da chave do cofre, é transformado em um poodlezinho tutelado por um militar e um deputado do Centrão.

Ele é fisicamente arrancado da entrevista. Ele próprio o reconhece, apontando o dedo para o militar e olhando para o público com a cara de “vejam, não posso falar”.

Inacreditável.

DITADURA

É impressionante revisitar as propagandas da ditadura militar sobre a Amazônia em revistas como Manchete e Realidade. Vindas do arquivo de Ricardo Cardim e publicadas na 451, aí vão sete imagens de como a ditadura concebeu a Amazônia: "vencer a selva", "derrotar o inferno verde", "vamos faturar", "encontrar a mina de ouro", "a Amazônia já era".

Aqui está a origem do discurso de Bolsonaro. Foi nesse discurso que ele nasceu. A genealogia é clara: Bolsonaro quer terminar o que a ditadura não conseguiu fazer.

PERIGO

As coisas estão ficando bastante feias nos Estados Unidos. Esta foi, até agora, a pior declaração de Trump no sentido de atiçar sua base para que recuse o resultado das eleições caso ele não vença.

Perguntado se ele se compromete com uma transferência pacífica de poder independente do resultado, ele responde: “bem, temos que ver o que vai acontecer. Você sabe que eu tenho reclamado muito fortemente das cédulas [ele se refere às cédulas enviadas pelo correio, uma tradição de muitas décadas]. As cédulas são um desastre. Acabe com as cédulas e você terá uma trans … bem, aí não haverá transferência, haverá continuação. As cédulas estão fora de controle”.

AS. CÉDULAS. ESTÃO. FORA. DE. CONTROLE.

Mais de 70% dos eleitores que votam pelo correio declaram votar em Joe Biden. E Trump sabe disso.

A esta altura do campeonato, são mínimas as esperanças de que haja uma transição pacífica de poder caso Trump perca as eleições. Parece exagerado o que digo, mas podemos estar presenciando o fim de um experimento democrático de mais de dois séculos.

DEIXOU-NOS O MESTRE MAIOR DO FUNK / SOUL.

Gerson King Combo (30.11.1943-22.09.2020), obrigado por todas as noites embaladas ao som de sua música maravilhosa. Valeu, mestre, requiescat in pace.

BOIADA

Este é o tipo de outdoor que você verá em viagens pelo Mato Grosso, exigindo que o estado deixe de fazer parte da Amazônia Legal. O conceito de Amazônia Legal foi estabelecido nos anos 1950 e engloba Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do estado do Maranhão. Ele é componente do arcabouço de proteção ambiental brasileiro, uma vez que na Amazônia Legal há exigências mais estritas para se desmatar, há requisitos de replantio, há uma porcentagem mais alta de território que deve ser preservada.

O agronegócio brasileiro poderia perfeitamente se manter dentro dos limites do vasto latifúndio que já conquistou, mas não larga mão da ideia de avançar floresta adentro, sem a menor consideração pelo futuro.

O governo Bolsonaro é aliado, instigador e cúmplice desse plano. O extremista Ricardo Salles se refere a este projeto como “passar a boiada”.


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