Semana On

Domingo 25.out.2020

Ano IX - Nº 416

Legislativo

Há 27 anos, lei da ALEMS sensibiliza para doação de órgãos

Saiba como ser um doador de órgãos

Postado em 22 de Setembro de 2020 - Redação Semana On

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Imagine o Morenão, estádio de futebol que fica em Campo Grande, lotado de torcedores - cerca de 44 mil pessoas. Mesmo com essa capacidade, o local não seria suficiente para abrigar o número de brasileiros que estão na fila de espera por um transplante de órgão no país.

A corretora de imóveis Jane Leandro Delgado Veríssimo é uma das 46.906 pessoas nessa lista formada de torcedores pela vida. Moradora da capital sul-mato-grossense, ela aguarda há pouco mais de um ano um transplante de coração.

Desde 2013, ela é paciente da equipe de cardiopatia da Santa Casa de Campo Grande, mas foi em 2018 que seu estado de saúde se agravou. Até mesmo fazer uma simples caminhada tornou-se difícil devido à grave insuficiência cardíaca que possui.

Um implante de marcapasso permitiu uma melhora na qualidade de vida de Jane, porém o aparelho não é suficiente.

“Eu achei que tudo se resolveria com o implante, mas não foi assim. Quando soube da notícia que precisava de transplante, fiquei chocada. Não imaginava nunca ter que fazer uma cirurgia desse porte, muito menos receber um órgão de alguém”, relata.

Junto à surpresa da notícia, veio também a preocupação que aflige muitos daqueles que aguardam por um transplante - a taxa de recusa pela doação de órgãos, que  ainda é alta. 

“Ficar na fila dependendo de uma doação é preocupante, porque vários outros colegas não resistiram à espera. Às vezes, as pessoas que poderiam ser doadoras de órgãos não doam, porque não se informaram a respeito, não comunicaram à família. É importante as pessoas terem consciência de que, mesmo em um momento de dor pela perda de um ente querido, ela pode salvar uma vida”, destaca.

Mesmo sabendo das dificuldades que enfrentaria à espera de uma doação, a esperança de Jane permanece.

“Nós que estamos na fila não desejamos a morte de ninguém, mas a doação é uma segunda chance para quem aguarda e um ato de amor e caridade de quem doa. Imagina ficar esperando um chamado, alguém ligar e dizer: vem fazer a cirurgia, seu coração está aqui, sua segunda chance chegou”, diz emocionada.

Incentivo e conscientização

Sensível à causa, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS) editou uma norma há 27 anos para incentivar a doação de órgãos e chamar atenção para a importância do tema.

A Lei 1414, de 13 de setembro de 1993, foi proposta pelo então deputado estadual Cícero de Souza e instituiu a Semana Estadual de Doação de Órgãos e Tecidos no Mato Grosso do Sul.

Em 2019, a lei foi alterada por iniciativa do deputado Renato Câmara (MDB). Com as mudanças, a campanha passou a integrar o calendário oficial de eventos de Mato Grosso do Sul. A nova redação da norma está registrada na Lei 5410, de 2 de outubro de 2019, publicada no Diário Oficial do Executivo.

Também houve alteração do mês de realização do evento. Antes da edição da lei, a campanha era prevista para o início de agosto.

Agora a ação acontece entre os dias 21 e 27 de setembro - mês escolhido para concentrar as atividades sobre o tema. O último dia de evento (27) é quando se comemora o Dia Nacional da Doação de Órgãos. A cor verde simboliza a campanha.

Conforme Renato Câmara, o principal intuito da Semana Estadual de Doação de Órgãos e Tecidos é estimular as atividades de promoção e de apoio à doação e sensibilizar a população sobre a importância do tema.

"É uma forma de ajudarmos milhares de pessoas que lutam para salvar suas vidas. Muitas pessoas estão na fila de transplante aguardando o sim de uma família. Por conta da pandemia, o número de doadores diminuiu consideravelmente e essa espera está se tornando ainda mais longa para muitas pessoas”, afirma o parlamentar. 

Campanha

A programação da Semana Estadual de Doação de Órgãos e Tecidos de 2020 será realizada pela internet e contará com a transmissão de lives e a exibição de vídeos. O evento é uma parceria da Assembleia Legislativa e diversos órgãos, entre eles a Secretaria Estadual de Saúde (SES), a Central de Transplantes de Mato Grosso do Sul (CET/MS), o Sindicato dos Médicos de MS e a Santa Casa de Campo Grande.

“A recusa da família em doar os órgãos do ente querido muitas vezes pode estar ligada à falta de informação, por isso a necessidade de esclarecimentos. A campanha é uma ótima oportunidade para darmos ainda mais evidência ao tema”, destacou Câmara.  

A live “Apoiando um Gesto de Amor: seja um doador de órgãos e tecidos” encerrará a semana. A transmissão será realizada no domingo (27). Veja a programação completa clicando aqui.  

Para a coordenadora da Central de Transplantes de MS, Claire Miozzo, eventos de incentivo à doação podem aumentar os números de doadores. Segundo dados da CET/MS, foram registrados no Estado 52 doadores, 130 órgãos captados e 234 córneas doadas em 2019.

“O maior desafio é reverter a negativa familiar, que ainda é muito alta, em torno de 50%. A gente entende que essa negativa vem por conta das pessoas não conversarem sobre o assunto, não falarem em vida que elas têm vontade de ser tornarem doadoras”, destaca Claire.

A CET trabalha 24 horas e é responsável por todo processo de doação e transplante no âmbito estadual. A equipe coordena acolhimento às famílias, exames, distribuição dos órgãos, elaboração da lista de receptores, entre outras atividades.

“A gente trabalha com muita responsabilidade, amor e respeito. Esse processo é feito por profissionais que amam o que fazem. É um trabalho gratificante”, revela a coordenadora da CET.

Doação ainda é tabu

No ano passado, só na Santa Casa de Campo Grande, mais da metade da famílias (56,79%) não autorizou a captação de órgãos de pacientes aptos à doação. 

De janeiro a dezembro de 2019, o hospital registrou 116 mortes encefálicas. Desse total, 81 eram potenciais doadores, mas somente 35 deles (43,20%) tiveram os órgãos e tecidos captados. 

“A questão da doação é cultural. Ainda existe tabu, receio, medo de doar”, explica Rodrigo Gomes, coordenador da Organização de Procura de Órgãos (OPO), da Santa Casa de Campo Grande. 

O enfermeiro relata que ao receber a notícia da morte encefálica muitas famílias ainda resistem à doação por temerem algum dano ao corpo do paciente. 

“Quando chamamos o familiar para o diagnóstico da morte encefálica, o paciente ainda está ligado aos aparelhos e a família fica com receio de doar. Mas a partir da morte encefálica, o nosso comandante, o cérebro, já não está mais no controle. O corpo começa a se deteriorar”, diz. 

É nesse momento que a corrida pela vida pode começar para outra pessoa. A equipe da OPO faz a ponte entre a família que acaba de receber a notícia do falecimento de um ente querido e o paciente que aguarda uma segunda chance por meio da doação de um órgão. 

“Ao mesmo tempo que damos a notícia do falecimento, precisamos acolher a família que passa pelo luto e temos que pedir a doação, pois é uma corrida contra o tempo. Esse é o momento mais crítico e delicado”, confessa o profissional que há 12 anos trabalha na área.

Ele explica que cada família tem uma reação à doação, por isso os profissionais são treinados para lidar com as mais diversas situações. “Tem família que aceita, fica tranquila. Outras sofrem mais. Já houve caso de familiares até agredirem a equipe médica e de enfermagem”, conta.

Para Gomes, a informação e a conversa são aliadas para reverter o índice de recusa de doações e diminuir a fila de espera por um órgão. “A informação é um divisor de águas para a decisão de doar órgãos. Isso derruba as crenças e os tabus”, enfatiza.

O enfermeiro faz um apelo para que as famílias conversem, ainda em vida, sobre o que desejam no momento de sua morte. “Independentemente se a decisão por doar seja positiva ou negativa, ela será respeitada. Mas as pessoas precisam conversar sobre o assunto em vida”, pontua.

Durante a carreira, Gomes já conseguiu dar assistência a muitas famílias, tanto as que perderam uma pessoa querida, quanto as que ganharam nova vida com a doação.

“Agradeço às pessoas e familiares que autorizam a doação. Sem esse sim, não poderíamos ajudar tantos pacientes. A doação é um consolo, pois você sabe que seu familiar partiu, mas continuou ajudando aos outros”, reflete.

“Eu queria viver, eu optei pela vida”

Geraldo Julimar Ramos, de 63 anos, foi uma das pessoas beneficiadas com a generosidade de alguém que decidiu ser doador. Ramos conseguiu mudar de vida por meio de um transplante de rim há dois anos e meio.

Os problemas renais já acompanhavam o comerciante há cerca de 20 anos. Após a morte da única filha, em 2014, o quadro de saúde dele se agravou.

“Por conta do meu emocional, após a perda de minha filha, a saúde ficou ruim, a situação dos meus rins piorou, tive problema no pulmão, no coração, uma reação atrás da outra”, conta.

O comerciante chegou a fazer um ano e 8 meses de hemodiálise. “Chega uma hora que você se convence de que aquilo ali é seu lugar para o resto da vida”, desabafa sobre a rotina do tratamento renal.

Porém, o amor pelos três netos que a filha lhe deixou fez com que Geraldo não desistisse da batalha. Para receber um rim, ele precisava melhorar a saúde. “Eu queria viver, eu optei pela vida”, enfatiza.

Com as sessões de hemodiálise, mudança no estilo de vida e muita dedicação, Ramos se fortaleceu. Para ser candidato a um transplante, foi necessária uma bateria de exames de quase um ano.

Ao final dessa maratona, ele teve a confirmação: poderia ser candidato ao transplante. Vinte dias depois, recebeu a informação que esperava, havia chegado a hora de receber um novo rim.

“Minha médica me ligou 10 da noite, disse que havia uma doadora. Quando recebi a notícia fiquei paralisado. Aos poucos fui retomando o fôlego”, relembra o comerciante. Na manhã seguinte à ligação, ele foi internado e fez a cirurgia. Ramos conta que um mês depois do transplante já estava retomando as atividades. 

Quando indagado sobre como era a vida antes e depois do transplante, ele não tem dúvidas da resposta. “Se me perguntarem se prefiro o jeito que está hoje ou há 20 anos, prefiro hoje. Voltei a ser jovem. Após a cirurgia, passei a viver a vida de onde ela parou”.

Reconhecer o gesto de amor

A Assembleia Legislativa promoveu em 2019 a Sessão Solene de Entrega do Diploma de Honra ao Mérito Legislativo “Amigo do Transplante”, por proposta do deputado Renato Câmara. O policial Anderson Ferreira Bento foi um dos 50 homenageados.

Em 2011, o militar enfrentou um momento delicado pela morte do filho de 19 anos. Mesmo comovido pela dor da perda, Bento se solidarizou e autorizou a doação dos órgãos de Felipe.

“Em qualquer momento de adversidade, podemos respirar, raciocinar e ver o que pode ser feito. Verificar se podemos ainda ajudar alguém, mesmo que estejamos passando por uma situação de dor”, testemunhou na noite da entrega da honraria.

Seja doador

Quem pretende ser doador uma ação simples basta: avise a sua família. Para ser doador, converse com os familiares sobre o seu desejo e deixe claro que eles devem autorizar a doação de órgãos.  A doação de órgãos ou tecidos pode vir de doadores falecidos ou vivos.

Doador falecido é a pessoa em morte encefálica. Um único doador pode salvar inúmeras vidas. Dos doadores falecidos podem ser captados: coração, pulmões, fígado, pâncreas, intestino, rins, córnea, vasos, pele, ossos e tendões. A pessoa que tenha falecido por parada cardíaca pode doar tecidos.

Doador vivo é qualquer pessoa saudável que concorde com a doação, desde que não prejudique a sua própria saúde.

O doador vivo pode se dispor a doar um dos rins, parte do fígado ou do pulmão e medula óssea. Pela lei, parentes até o quarto grau e cônjuges podem ser doadores vivos. Fora desse critério, somente com autorização judicial.

O Brasil é referência mundial na área de transplantes e possui o maior sistema público de transplantes do mundo. Atualmente, cerca de 96% dos procedimentos de todo o país são financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Em números absolutos, o Brasil é o 2º maior transplantador do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Os pacientes recebem assistência integral e gratuita, incluindo exames preparatórios, cirurgia, acompanhamento e medicamentos pós-transplante, pela rede pública de saúde.


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