Semana On

Domingo 25.out.2020

Ano IX - Nº 416

Artigo da semana

Sobre não generalizar evangélicos

Eles dizem pertencer ao mesmo segmento religioso cristão, mas têm perspectivas de fé relacionadas a visões e práticas tão distintas

Postado em 22 de Setembro de 2020 - Magali Cunha

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Há alguns dias participei da Usina de Valores, iniciativa do Instituto Vladimir Herzog para articular, promover e disseminar valores essenciais à construção de uma cultura de direitos humanos.  Foi uma noite fantástica de diálogo no projeto “À Mesa”, com 50 lideranças evangélicas, a maioria jovem.

A ideia de “estar à mesa” é muito significativa: é um espaço de comunhão e de diálogo, e acolhimento da diversidade. O projeto, nesse sentido, busca ser um encontro de formação, qualificação, comunhão e partilha. Alguém expõe um tema previamente acordado e um dos articuladores locais faz a mediação da conversa.

Expus “à mesa” o tema “Religiosidades e espaço público”. Aprendi muito nesse diálogo com o grupo, de pastores, pastoras e pessoas leigas, vinculados a movimentos diversos na promoção de direitos para mulheres, pessoas negras, moradores de periferias, pessoas sem teto, LGBTI+, jovens, entre outros.

A cada encontro que tenho com grupos de evangélicos como esse, espalhados pelo Brasil, sempre emerge a reflexão: o que essas pessoas de fé têm a ver com Flordelis, Everaldo, Crivella (para falar das personagens evangélicas em evidência no noticiário mais recente) e também com Damares Alves, André Mendonça, Milton Ribeiro (para lembrar daquelas pertences ao primeiro escalão do governo de Jair Bolsonaro)? Todas declaram pertencer ao mesmo segmento religioso cristão, mas têm perspectivas de fé relacionadas a visões e práticas tão distintas!

É fato que o grupo de evangélicos presente no noticiário mais recente e o pertencente ao primeiro escalão do governo federal são vinculados à corrente que sempre foi hegemônica na história passada e presente do segmento no Brasil: a conservadora. Predominantemente, com certas expressões que tendem mais ao extremismo e ao reacionarismo que caracterizam os fundamentalismos.

É fato, ainda, que o grupo com o qual dialoguei “à mesa” na Usina de Valores não é novo. Por sinal, este foi assunto do próprio diálogo. Este grupo dá continuidade à corrente progressista entre evangélicos brasileiros, antiga (desde a chegada dos missionários no século XIX), que podem ser identificadas com mais intensidade a partir dos anos 1950. Apesar de marginais, por serem fonte de desconfiança das esquerdas do País, de deboche da maioria conservadora evangélica e desprezadas pelas mídias noticiosas, essas expressões se potencializaram durante a ditadura civil-militar.

Como afirma o cientista político Joanildo Burity, tornaram-se “uma minoria inegavelmente importante”. O pesquisador avalia que a questão-chave de confrontação entre os conservadores e os progressistas evangélicos se dá em torno da medida em que deve se exercer uma regulação estatal sobre o corpo, particularmente a sexualidade: aborto, homossexualidade e manipulação genética.

Acompanho Joanildo Burity na afirmação de que o embate entre conservadores e progressistas refere-se a um “acerto de contas entre fé evangélica e pluralismo sociocultural, esposado por diversas formas de esquerda não ou pós-marxista influenciadas pelos movimentos de direitos civis, estudantil, feminista, ecológico e gay dos anos de 1960 em diante, que ganharam visibilidade desde fins da década de 1980”. Aqui acrescento a essa lista a dimensão inter-religiosa, plural, que desafia a fé evangélica a se posicionar quanto ao direito à liberdade de crença da parte de todas as religiões, superando-se a demonização do diferente e o proselitismo exclusivista que estabelece fronteiras aprisionantes de Deus.

Essas pautas demarcam nitidamente a distinção entre conservadores e progressistas, acompanhando o que se define na ciência política em torno destes termos, que, em outras abordagens podem ser nominados como conservadores e liberais, conservadores e libertários e afins. Uma chave importante aí é a ultrapassagem dos temas clássicos restritos ao relevante alívio da pobreza, na perspectiva de que, como diz a canção popular, “a gente não quer só comida…”.

Vale lembrar que o nome “progressista” pode ser apropriado de forma oportunista como é o caso do Partido Progressista Reformador (PPR, depois Partido Progressista, PP), formado no Brasil em 1993, de uma dissidência de um dos partidos mais conservadores e antidemocráticos do País, originado na ditadura, o (ironicamente denominado) Partido Democrático Social (PDS). Era o Partido Progressista de Paulo Maluf, que abrigou por alguns anos Jair Bolsonaro e hoje compõe o fisiológico Centrão na Câmara dos Deputados, opositor a todas as pautas progressistas acima listadas.

Isso parece se dar também entre evangélicos quando aparecem personagens que se identificam como “progressistas”, mas silenciam ou são até mesmo contrárias a pautas de direitos civis estudantis, feministas, antirracistas, ambientais, LGBTI+ e de pluralismo religioso. Alguns chegaram até mesmo a assumir cargos no governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro.

Não! As lideranças evangélicas de movimentos, os mais diversos, que encontrei na Usina de Valores e encontro em outras andanças (atualmente virtuais) por distintos espaços religiosos, defensoras das pautas direitos humanos, antirracistas, sexuais e reprodutivos, de pluralidade religiosa e ambientais, não andam em destaque nas matérias de crimes e ilegalidades dos jornais nem trabalham para o governo de extrema-direita.

Pelo contrário, continuam a ser uma “minoria inegavelmente importante”. Como eu disse ao grupo no encontro “à mesa”: dão prosseguimento, honram e atualizam os esforços históricos dos tantos evangélicos que atuaram neste país. Alguns a ponto de perderem a vida ou carregarem marcas da tortura nos seus corpos, cujos nomes já foram citados tantas vezes neste espaço.

Eis aí “memória e utopia” para os evangélicos…

Magali Cunha - Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas


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