Semana On

Quarta-Feira 21.out.2020

Ano IX - Nº 415

Brasil

Mau exemplo de Bolsonaro chancela violência de quem se nega a usar máscara

O presidente da República deveria ser considerado corresponsável pelos atos de violência perpetrados por quem se nega a usar máscara em estabelecimentos comerciais, como os casos que temos visto nos últimos dias

Postado em 17 de Setembro de 2020 - Leonardo Sakamoto - UOL

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O presidente da República deveria ser considerado corresponsável pelos atos de violência perpetrados por quem se nega a usar máscara em estabelecimentos comerciais, como os casos que temos visto nos últimos dias.

Desde o início da pandemia, alertamos que o mau exemplo transmitido de forma sistemática por um negacionista no posto de principal líder do país incentivaria os terraplanistas biológicos a atacarem o naco racional da sociedade. Dito e feito.

Em Campinas (SP), um homem se irritou com a exigência de usar a máscara corretamente feita por uma comerciante em uma sorveteria e passou a xingá-la de "lixo" e "palhaça". Fez ameaças ("faz alguma coisa comigo para ver se eu não meto a mão na sua cara, seu lixo. Fala um a para você ver") e danificou o local.

Em Sorocaba (SP), uma funcionária de um supermercado levou um soco nas costas em meio a uma discussão que começou por que clientes se recusaram a usar máscara, como divulgou o G1. O grupo saiu do estabelecimento e voltou com mais pessoas. Trabalhadores foram ameaçados, segundo o proprietário, e a confusão continuou até que os clientes fossem expulsos e o local fechado.

Os vídeos de ambos os casos circulam pelas redes. São dois, mas relatos assim têm sido frequentes.

Antes de mais nada, há decretos e leis que obrigam a utilização do equipamento em estabelecimentos comerciais e aplicam multa aos proprietários que não zelarem por isso.

Há, contudo, quem critique a exigência afirmando que seria uma afronta à liberdade individual dos clientes - o que é risível, para não dizer pamonha. Não existem direitos absolutos. Nem o direito à vida é, caso contrário não haveria a legítima defesa. Portanto, é um erro afirmar que a liberdade do indivíduo de não usar máscara em um estabelecimento é comparável à garantia de saúde coletiva e de segurança sanitária da sociedade.

É o mesmo processo egoísta que está por trás daqueles que se revoltam com a obrigatoriedade da vacina - lembrando que vacina obrigatória não é laçar fujão em casa e picá-lo contra a sua vontade, mas bloquear acesso a benefícios sociais por exemplo.

Jair Bolsonaro vai dizer que não foi ele quem gritou, ameaçou e depredou. Mas foi a sobreposição de seus discursos menosprezando a covid-19 e a sua divulgação de desinformação sobre a pandemia que banalizam e justificam atos bizarros como esses.

No dia 19 de agosto, o presidente foi bem claro ao contar uma mentira para um grupo de fãs na porta do Palácio do Alvorada, de que a eficiência da máscara na prevenção ao coronavírus é "quase nula". Respondia a uma seguidora que disse que só tiraria fotos com ele quando não precisasse mais usar o equipamento.

Bolsonaro mente ao dizer que quarentenas não funcionaram para retardar a propagação do vírus. Mente ao afirmar que o isolamento e o distanciamento social não funcionou. Mente ao defender que a hidroxicloroquina deve ser usada no tratamento da doença mesmo com provas de que não funciona. Mente ao cravar que a crise econômica causava pelo vírus mata mais do que ele próprio.

Seu mau exemplo não ficou apenas em declarações bizarras e orientações fajutas. Ele causou danos à saúde pública através de suas ações. Como as aglomerações que promoveu em dias de atos a favor de um autogolpe militar e do fechamento do Congresso Nacional e do STF.

Inspirados no presidente, muitas pessoas, mesmo podendo permanecer em quarentena, levaram uma vida normal, organizando baladas e churrascos. Relativizaram a importância de se cuidar e, ao fazer isso, passaram adiante o vírus a quem não tinha nada a ver com a história. Resultado: mortes. Já são mais de 133 mil.

Considerando o número daqueles que não gostam de seguir regras das quais discordam e acreditam que a solução de conflitos se dá através da "lei do mais forte", o que é comprovado pela quantidade de imbecis que compram brigas e causam mortes no trânsito no Brasil, o medo é que, até o final da pandemia, inauguremos uma outra forma de morte relacionada à covid. Uma que não tem a ver com o coronavírus, mas que é tão grave quanto.

Há brasileiros que acreditam que todos os "cidadãos" são iguais, mas que eles não se incluem nessa categoria. Esse pessoal, quando colocado contra a parede, gosta de relinchar um bom "você sabe com quem está falando?" - como o desembargador que humilhou o guarda civil que o multou pelo não uso de máscara na orla de Santos (SP).

Esse pessoal está sendo visto mais facilmente por conta da popularização de smartphones com boas câmeras e das redes sociais e aplicativos de mensagens, mas sempre esteve aí. Mas também porque Jair Bolsonaro se tornou um exemplo de que não é preciso ter vergonha de ser agressivo e egoísta.

Se o presidente diz que a pandemia é uma "gripezinha" e um "resfriadinho", por que não terei orgulho de ser assim também?


Voltar


Comente sobre essa publicação...