Semana On

Domingo 29.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

Met-amor-fose

Um retrato dos tempos que vivemos, de pandemia, mudanças climáticas e devastação ambiental

Postado em 16 de Setembro de 2020 - Ricardo Moebus

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Bem vindo ao Brasil o livro recentemente lançado do italiano Emanuele Coccia,  “Metamorfose”, com ilustrações de Luiz Zerbini , pela Dantes Editora.

O texto de Coccia parece encomendado para esses tempos que vivemos de pandemia do novo coronavírus, mais ainda, para estes tempos que estão chegando e se aprofundando, tempo das mudanças climáticas, da crise climática global. Também encomendado, em especial, para este momento Brasil de devastação ambiental, que hora se faz sentir de forma mais brutal, na carne das últimas onças pintadas do pantanal.

Um parênteses aqui, é claro que o inferno dantesco de queimadas que hora consomem o pantanal são indubitavelmente ligadas ao desmanche federal de todo o sistema de segurança ambiental, ligadas ao PNDS - Programa Nacional de Destruição e Saque geral dos bens comuns, Pátria Amarga e Queimada Brasil, com direito a “dia do fogo” migrando do Pará ao Mato Grosso.

Mas, ao mesmo tempo, essa situação que vivemos se conecta com o modo como entendemos o que somos, o que é a vida, o que é aquilo que chamamos “natureza”. E é aqui que este recente livro de Coccia nos traz um sopro que revitaliza e areja os ares. Um sopro de re-conexão, de re-ligare, de re-existência frente ao trágico de nossa atualidade.

Esse frescor que nos traz a obra de Coccia, vai levando as descobertas darwinistas às últimas consequências, vai deslindando um horizonte de conexões íntimas e indistinguíveis entre tudo que vive, que aproxima seu texto dos grandes relatos mitológicos, cosmológicos dos povos originários.

O surpreendente é que chega a este ponto de conexão com a sabedoria ancestral dos povos originários partindo de um minucioso estudo da biologia científica. Ainda que mais que um bio-logos, ele nos faz transitar por um bio-conatus, em um sentido spinozista, tal como, a vida ansiando por viver, tudo esforçando-se por perseverar em existir, a vida transitando, experimentando, por formas e corpos, em uma continuidade vertiginosa.

Sem dúvida uma bio-logia que resgata o sentido largo de ciência da vida, ou, até mesmo, cons-ciência da vida. Uma bio-logia necessária e urgente para repensarmos nossos mundos, nossas escolhas, nossos multinaturalismos, como tensiona Viveiros de Castro.

O livro de Coccia traz uma surpreendente ressonância, fazendo coro ao recente livro de Ailton Krenak “A Vida Não é Útil”. Não apenas em seu conteúdo - quando claramente atualiza a desconstrução de uma ideia sólida e substancial de homem, de humanidade -, mas também na forma, saborosa e fluida de escrever com leveza e destreza sobre temas difíceis e profundos.

Compartilho abaixo trecho, uma pequena amostra-entrada, fiquem todos convidados a desfrutar na íntegra desse banquete:

“É o sopro de um outro que se prolonga no nosso, o sangue de um outro que circula em nossas veias, é o DNA que um outro nos deu que esculpe e cinzela nosso corpo. Se nossa vida começa bem antes do nosso nascimento, ela termina bem depois da nossa morte. Nosso sopro não vai esgotar-se em nosso cadáver: vai alimentar todos aqueles que encontrarem nele uma ceia para celebrar.

Nossa humanidade tampouco é um produto originário e autônomo. Ela também é um prolongamento e uma metamorfose de uma vida anterior. Ela é, mais precisamente, uma invenção que os primatas – uma outra forma de vida – souberam extrair de seus próprios corpos – do seu sopro, do seu DNA, da sua maneira de viver – para fazer existir de forma diferente a vida que os habitava e os animava. Foram eles que nos transmitiram essa forma – e, através da forma de vida humana, são eles que continuam a viver em nós. Aliás, os próprios primatas são apenas uma experimentação e uma aposta feita por outras espécies, outras formas de vida. A evolução é uma mascarada que acontece no tempo e não no espaço. Ela permite que toda espécie, de era em era, use uma nova máscara diante daquela que a gerou, e, aos filhos e filhas, que não se deixem reconhecer e não reconheçam mais seus pais. E, no entanto, apesar da troca de máscara, “espécies-mães” e “espécies-filhas” são uma metamorfose da mesma vida. Cada uma das espécies é um “patchwork” de pedaços extraídos de outras espécies. Nós, as espécies vivas, nunca deixamos de trocar peças, linhas, órgãos, e o que cada um de nós é, aquilo a que chamamos espécie, é apenas o conjunto das técnicas que cada ser vivo tomou emprestado de outros. É por causa dessa continuidade na transformação que toda espécie compartilha com centenas de outras uma infinidade de traços. Compartilhamos o fato de ter olhos, orelhas, pulmões, um nariz, sangue quente com milhões de outras espécies – e em todas essas formas somos apenas parcialmente humanos. Cada espécie é a metamorfose de todas aquelas que vieram antes dela. Uma mesma vida que molda para si um novo corpo e uma nova forma para existir de uma maneira diferente.”


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