Semana On

Domingo 25.out.2020

Ano IX - Nº 416

Coluna

Cacetada maravilhosa

Idelber Avelar fala de meio ambiente, mentiras, futebol e Caetano

Postado em 16 de Setembro de 2020 - Idelber Avelar

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Que cacetada maravilhosa o Claudio Angelo lhe deu, hein General Mourão?

Vocês aí, quando o Claudio Angelo escrever, larguem as brigas inúteis por um minuto e leiam. É espetacular, uma porrada inesquecível. Trecho:

Prezado general Mourão,

Leio no Congresso em Foco que o senhor está preocupado por ter “perdido o domínio da narrativa” sobre a Amazônia. Segundo o senhor, três grupos teriam “dominado” a tal “narrativa”: a oposição a Bolsonaro, os nossos concorrentes econômicos e o cânc…, digo, os ambientalistas, com sua “paixão exacerbada”. A declaração contém tantas camadas de significado que demandaria quilômetros de análise para ser explicada a contento. Não é o caso aqui. Deixe-me apenas dar um conselho: se quer retomar o “domínio da narrativa”, um bom jeito de começar é parar de mentir.

[...]

General, pessoas que manejam trilhões de dólares em ativos não se informam pelo zapzap nem pelo YouTube do Olavo de Carvalho. Elas leem jornais. Conversam com especialistas. Elas entendem que, quando imagens de satélite e relatos de campo mostram desmatamento e queimadas acontecendo na Amazônia, é porque desmatamento e queimadas estão acontecendo na Amazônia. Cada vez que o senhor, o seu chefe e o menino da boiada dizem que não tem nada acontecendo elas ganham mais uma razão para duvidar do governo. E o nosso agronegócio fica mais próximo de amargar aquela palavra tenebrosa que começa com “boi” e termina não em “ada”, mas em “cote”.

INDESCRITÍVEL

É indescritível o que está acontecendo no Pantanal. 16% do bioma já queimou. Algumas poucas dezenas de pessoas, entre funcionários e voluntários, tentam debelar os incêndios, abandonadas pelo próprio governo, que incentiva desmatadores.

A perda de flora, fauna, vida, em suma, é incalculável.

COISAS DOIDAS DO FUTEBOL

Salvo engano, aconteceu algo inédito no futebol brasileiro. Com uma gritaria de algumas poucas horas, a torcida do Galo barrou a contratação de um jogador, com o negócio já encaminhado e praticamente fechado. O episódio é um testemunho da falta de noção colossal da cartolagem brasileira.

Se você fizer uma pesquisa para descobrir qual é o cidadão mais detestado da cidade de Belo Horizonte, haverá um claro favorito ao trono, Thiago Neves, igualmente odiado por cruzeirenses e atleticanos. E esse sujeito, favorito disparado à condição de figura mais odiada da cidade, foi pedido como reforço pelo técnico Sampaoli e contratado pelo presidente Sette Câmara e pelo diretor de futebol Alexandre Mattos, sem qualquer notícia de que ele é inaceitável para atleticanos, pelo histórico de desrespeito ao clube e provocações escrotas, homofóbicas, do tipo que não se faz.

É evidente que não há nenhum problema em que um jogador que vestiu a camisa do rival vista a nossa. Alguns, inclusive, conseguiram a proeza de serem amados pelas duas torcidas: Nelinho, por exemplo. Há também aqueles que só vestiram a camisa do rival, mas são unanimemente respeitados pelos atleticanos, como Tostão e Sorín.

Mas se há um cara que ninguém em Beagá aceita, é o Thiago Neves. Caramba, não é preciso nem gostar de futebol, basta respirar o ar da cidade, basta saber a diferença entre a Savassi e a Pampulha que você já aprendeu isso. Só o presidente e o diretor de futebol do Galo não sabiam. Para vocês verem o grau do amadorismo: o Galo é um dos líderes do Campeonato Brasileiro. Imaginem o resto.

O país é dirigido por uma gangue de amadores pilantras e os clubes de futebol, bem, os clubes são dirigidos por gangues de amadores, com graus variados, em geral bastante altos, de pilantragem também.

CACETADA BEM DADA

Sobre a cacetada bem dada do Pablera Ortellado no Caetano Veloso, não vou me juntar à polêmica porque ela não me parece que vá ser produtiva nos termos em que está colocada. Mas vou me permitir contar um causo, que começa com uma boa notícia.

ELES EM NÓS voltou da Record com um trabalho de copidesque impecável de Thaís Lima e equipe, o que me permitiu melhorar o manuscrito. Tenho agora 10 dias para acrescentar o que quiser antes de o livro partir para a fase de produção. Era para ser lançado este ano, mas com a pandemia ficou para o começo de 21.

Aproveitei o furacão que cancelou as aulas em Tulane por dois dias e emendei uma semana de trabalho, transformando-o de um bichão já gordo, de 400 páginas, em um ser realmente obeso, de 450. Havia quatro coisas de que eu queria falar mais: a retórica do programa nuclear brasileiro dos 1970, a retórica dos planos nacionais estratégicos sob Dilma, a retórica da greve dos caminhoneiros e a retórica do olavismo. Destas duas últimas coisas eu havia falado pouco. Resolvi encarar a tarefa, inclusive porque, né, no caso deste último, eu estava lá com outras e outros, capinando a internet, quando o olavismo surgiu. Era a melhor piada da internet, eu me lembro bem.

***

Há outras pessoas, como o Paulo Roberto Silva, que conhecem essa história mais de perto e com mais interioridade que eu, mas do ponto de vista de alguém que estava na esquerda dos blogs daquele momento, existiam, sim, coletivos considerados “de direita” com os quais conversávamos. Eu poderia citar vários, mas havia, por exemplo, o Wunderblogs, que tinha gente da estatura de Rogério Ortega. Gente lida, que sabia usar os talheres e as orações subordinadas. Essa turma toda a gente lia, tinha rusgas com eles, trocávamos ironias. Normal.

O olavismo era outra coisa. Era uma espécie de rugir plebeu de um esgoto da internet – o Orkut – que se alimentava de uma galera que tinha, sobretudo, muita RAIVA. Era uma raiva que nem se entendia muito bem por quê, mas raiva e ressentimento profundos, dirigidos a uma série de objetos, das universidades aos meios de comunicação. O impulso mais forte do olavismo se deu quando Olavo perdeu a coluna nos jornais porque os jornais, bem, decidiram que não queriam um colunista conspiratório e xingador.

****

Em todo caso, essa é uma história que precisa ser melhor contada, porque amplos setores do conservadorismo e do cristianismo brasileiros se refestelaram no bate-bumbo olavista e agora estão assustados, vendo o monstro que ajudaram a criar. Essa mescla de catolicismo fundamentalista, conspiracionismo, teocracia, reacionarismo delirante e tecnopilantragem violenta acabou levando um moleque criminoso ao Palácio do Planalto e produzindo o pior momento da história do Brasil pós-ditadura.

E assim parece que nos acontece de vez em quando, de ressuscitarmos ideologias estapafúrdias e mortas. Talvez esta tenha sido a mais certeira frase do certeiro frasista que foi Millôr: "quando uma ideologia fica bem velhinha, ela vem morar no Brasil".

O que chama a atenção é que esses espasmos costumam se dar través de coalizões movidas a ressentimento, que prometem ao raivoso que sua raiva será redimida em algum amanhã. Essa nossa tendência só mostra que a raiva, canalizada por máquinas pilantras, pode acabar sendo péssima conselheira política.

FAKENEWS

A HBO lançou um documentário sobre fake news, dirigido por Andrew Rossi, chamado "After truth: disinformation and the cost of fake news". Não é exatamente uma coprodução da CNN, mas a produção executiva é do Brian Stelter, da CNN, e a emissora está veiculando o filme com o seu endosso. É fácil de achar por aí.

Recomendo o documentário, e não é exatamente porque eu tenha gostado dele. É bonita a reconstrução do pizzagate, uma fake news que quase destruiu a vida de um proprietário de pizzaria falsamente acusado de pedofilia em Washington. E há outros bons momentos. Mas o que sempre me chama a atenção é que se relata a história das fake news como se elas tivessem sido invenção dos russos, da Cambridge Analytica ou do trumpismo. Antes, nada. Não havia fake news matando gente.

Curioso, né? Eu me lembro de que a primeira grande guerra do século XXI foi todinha baseada em fake news, a saber, a inexistente participação do Iraque nos ataques do 11 de setembro e, depois, quando essa não colou, o inexistente arsenal de “armas de destruição em massa” do país, mentira negada na tora pelo inspetor de armas da ONU, por multidões no mundo todo, mas imposta pela Casa Branca e docilmente veiculada pela CNN e até pelo New York Times. Na CNN, em 2003, era bate-bumbo com essa mentira o dia inteiro, eu me lembro muito bem.

Não precisava ter lido Chomsky ou Derrida para saber que era mentira. Lembro-me de uma garotada de 8 ou 9 anos de idade que sabia que era mentira. Mas a CNN docilmente bateu bumbo com a fake news. Hoje, a CNN está do lado progressista, ajudando a desmontar as mentiras de Trump. Beleza, bem-vindos. Só que essa história das fake news está meio mal contada.

É mais ou menos como no Brasil, onde a turma se horroriza com as fake news da mamadeira de piroca ou da cloroquina, mas olha pouco para o próprio rabo, e se lembra pouco da quantidade de fake news que até hoje se traficam por aí sobre conspiração americana, auditoria da dívida ou roubo do pré-sal.

O fato é que fica mais difícil derrotar a extrema direita se você não for capaz de enxergar como ela se apropriou de (e turbinou) mecanismos que já estavam por aí.

E fica ridículo distribuir carteirinhas de santo ou de vítima a conglomerados de imprensa ou grandes forças políticas, né. Muito especialmente nesse tema das fake news, em que há bons nacos de responsabilidade para serem divididos por aí.


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