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Terça-Feira 22.set.2020

Ano IX - Nº 411

Brasil

Os preços de alimentos vão continuar subindo nos próximos meses?

Se não tem arroz, que comam macarrão? 4 fatos sobre a substituição proposta por supermercados

Postado em 11 de Setembro de 2020 - Camilla Veras Mota e Laís Alegretti - BBC News

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As estatísticas de inflação não têm feito muito sentido para o brasileiro que vai ao supermercado. Os índices de preços vêm se mantendo em patamares historicamente baixos desde 2017, mas a sensação é de que a gente deixa cada vez mais no caixa quando faz compras.

E não é só impressão: enquanto o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial do país, avançou 2,44% nos acumulado em 12 meses até agosto, a alimentação no domicílio, subitem que compõe o grupo alimentos e bebidas, subiu 11,4%:

Os dados divulgados na quarta (09/09) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostraram que o arroz ficou quase 20% mais caro desde o início do ano, que o preço do feijão mulatinho subiu 32,6%, da abobrinha, 46,8%, e da cebola, 50,4%.

As razões para esse comportamento estão ligadas, de forma direta e indireta, à pandemia — o que significa que o impacto pode se estender pelos próximos meses, mas não sinaliza um aumento persistente dos preços.

Aumento da demanda interna

Dois fatores aumentaram a demanda por alimentos no mercado doméstico e pressionaram os preços para cima.

De um lado, as quarentenas e o isolamento social deixaram os brasileiros mais tempo em casa. Muita gente passou a fazer home office e a cozinhar em casa ou deixou de ir a restaurantes com a família no fim de semana.

De outro, o auxílio emergencial de R$ 600 fornecido pelo governo permitiu que as pessoas continuassem consumindo apesar da crise — algumas até com um patamar de renda superior àquele que tinham antes da pandemia.

Entre abril e agosto, o governo injetou cerca de R$ 173 bilhões na economia através do auxílio.

"Boa parte desses recursos foi usado para pagar contas e comprar mantimentos", destaca o professor da Fipecafi George Sales.

Assim, ressalta a economista do Itaú Julia Passabom, é possível ver nos índices de inflação um grupo positivamente afetado pela pandemia, como alimentos, itens de higiene pessoal e produtos para a casa, que têm experimentado aumento de preços, e outro negativamente afetado, como alimentação fora do domicílio, vestuário e turismo, que tiveram a demanda reprimida pelas medidas de isolamento social e pelo aumento do desemprego.

E isso não apenas no Brasil. O mesmo fenômeno se repete nas estatísticas dos Estados Unidos e da Zona do Euro.

O aumento do poder de compra proporcionado ao consumidor pelo grupo negativamente afetado, onde os preços subiram menos ou até caíram, é menos perceptível para a maioria justamente porque a pandemia mudou a cesta de consumo do brasileiro.

O grupo de vestuário, por exemplo, entrou no quarto mês consecutivo de deflação, mas são poucos os que estão indo ao shopping para renovar o guarda-roupa. Como estamos, de maneira geral, frequentando mais o supermercado, fica a sensação de que tudo está mais caro.

"A gente tem um comportamento super atípico da inflação brasileira (pressionada para baixo por causa do efeito da recessão e da recuperação lenta da economia), mas inflação não sai do noticiário. Está batendo em alimentos, e todo mundo vai ao mercado, fica escandalizado com os preços", comenta a economista do Itaú.

Exportações mais lucrativas

Outra razão para o aumento dos preços vem do câmbio. O dólar mais caro estimula as exportações, já que os produtores conseguem rentabilidade maior no mercado externo.

Ao mesmo tempo, a demanda está aquecida em países que viram parte da cadeia de alimentos ser afetada pelas condições climáticas ou pela própria pandemia, empurrando as cotações de commodities para cima.

A China, por exemplo, vem recompondo seus estoques — e pressionando os preços de commodities como a soja. As exportações do grão cresceram em volume quase 25% em agosto, em relação ao mesmo período de 2019, conforme os dados da balança comercial divulgados pelo Ministério da Economia.

"O grão mais caro vira ração mais cara, que vira carne mais cara. Tudo vai na mesma direção e sinaliza mais inflação à frente", pondera Passabom.

No caso do arroz, o preço da saca de 50 kg deu um salto no mês, passando de R$ 73 no dia 11 a R$ 94 no fim de agosto, de acordo com o boletim mais recente do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). As exportações somaram 212 mil toneladas, 98% mais do que em agosto de 2019.

Com o produto mais competitivo lá fora, o país está entrando inclusive em novos mercados. Desde maio, passou a exportar arroz também para o México, após um acordo que retirou barreiras sanitárias que há anos dificultavam as vendas.

Isso aconteceu depois que os Estados Unidos, principal fornecedor do grão para o país, elevaram os preços do produto diante da entressafra e da redução dos estoques.

O Brasil também vendeu mais açúcar por conta da seca na Tailândia, o segundo maior exportador do mundo, que passa por um período de seca. Como resultado, os embarques da commodity cresceram 118% em volume em agosto, quando se compara com igual período de 2019.

O dólar apreciado tem impacto ainda sobre os preços de combustíveis, que seguem as cotações internacionais, diz Sales, da Fipecafi.

Reajustes na gasolina e no diesel acabam tendo impacto indireto em diversos setores, entre eles o agronegócio, já que encarece o custo de frete.

Nos dados de agosto divulgados pelo IBGE, o grupo transporte teve a maior alta entre os 9 grupos acompanhados pelo instituto, de 0,82%.

Após as recentes reduções de preço nas refinarias anunciadas pela Petrobras, contudo, a expectativa é que os combustíveis deem alívio à inflação em setembro, conforme análise do economista Fabio Romão, da LCA Consultores.

Julia Passabom, do Itaú, espera deflação nos planos de saúde no mês, após a suspensão anunciada pela Agência Nacional de Saúde (ANS) nos reajustes por 120 dias.

Os preços de alimentos, entretanto, devem se manter pressionados nos próximos meses, diz ela, levando o subitem alimentação no domicílio ao pico de 14% no acumulado em 12 meses em outubro, para fechar o ano em algo entre 9% e 10%.

A projeção da LCA também é de aceleração no grupo alimentação no domicílio, de 1,15% registrado em agosto para 1,65% em setembro, puxado principalmente por alta nos preços do arroz, da batata inglesa, do tomate, de leites e derivados e de carne.

A expectativa de aumento nos preços do grupo alimentação levou a consultoria a revisar para cima a estimativa do IPCA para o ano, de 1,6% para 1,7%.

A XP Investimentos também calculou a projeção, de 1,4% para 1,7% no fim de 2020.

Em relatório, a equipe da corretora destacou entre as razões "as diversas fontes de estímulos atualmente vigentes na economia", referindo-se ao cenário de juros baixos, disponibilidade de crédito e os programas de transferência de renda para amortecer o impacto da pandemia.

Ainda assim, segue o texto, o cenário para a inflação, de maneira geral, segue benigno, e parte da alta de alimentos observada neste ano deve ser "devolvida" em 2021, o que motivou uma redução da projeção para o IPCA do próximo ano, de 2,7% para 2,6%.

A projeção do Itaú para o IPCA de 2021 é de 2,8%, acima dos 2% esperados para este ano, mas abaixo da meta estipulada pelo Banco Central, de 3,25% (e ainda distante dos 10,3% registrados em fevereiro de 2016, a última vez em que a inflação passou de dois dígitos no país).

Uma das razões para a manutenção dos preços mais comportados é a própria recessão e o desemprego, que dificultam a recuperação da demanda interna e uma retomada mais rápida da economia: muitos donos de negócios preferem reduzir sua margem de lucro antes de aumentar os preços e correr o risco de perder vendas.

O câmbio também deve ajudar: conforme as projeções do Itaú, o dólar sai do patamar de R$ 5,25 esperado para o fim deste ano para R$ 4,5 no fim de 2021.

Comam macarrão

Depois de se reunir com o presidente Jair Bolsonaro, o presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Sanzovo Neto, defendeu a substituição do consumo de arroz por macarrão.

"Vamos estar promovendo o consumo de massa, macarrão, que é o substituto do arroz. E vamos orientar o consumidor que não estoque", disse.

Em meio ao aumento no preço de alimentos, a sugestão levou logo a comparações com a frase "Não tem pão? Que comam brioches!", que virou lenda ao ser atribuída a Maria Antonieta, embora não haja registro de que tenha sido de fato dita por ela. A expressão virou símbolo da falta de entendimento da nobreza em relação às necessidades da população.

De tempos em tempos, o brasileiro ouve uma sugestão de produto a ser substituído na mesa. Em setembro de 2014, diante de uma alta da inflação de alimentos, o então secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, sugeriu que a população brasileira ficasse atenta para a possibilidade de substituir carne por aves e ovos.

Agora, a discussão está nos carboidratos. Embora outros alimentos tenham tido uma alta de preço ainda maior neste ano, é o arroz que vem dominando o debate — ele ficou quase 20% mais caro desde o início do ano, enquanto o preço do feijão mulatinho subiu 32,6%, da abobrinha, 46,8%, e da cebola, 50,4%, segundo dados divulgados na quarta (09/09) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A reportagem ouviu especialistas nas áreas de nutrição, sociologia e economia sobre quais fatores devem ser levados em conta ao se falar em substituição do arroz pelo macarrão. Um spoiler: ao menos no município de São Paulo, o macarrão continua saindo mais caro que o arroz.

1.Inflação

A sugestão da substituição veio diante da alta de preço do arroz: enquanto ele subiu 19,25% neste ano até agosto, o preço do macarrão ficou estável, segundo os dados do IBGE.

O arroz subiu em todas as regiões pesquisadas, chegando a uma alta de 27,8% em Salvador. Já o preço do macarrão cresceu um pouco em algumas regiões e caiu em outras, resultando em uma variação igual a zero quando pensamos no país todo.

Professor de economia da Universidade Federal do ABC, o economista Fábio Terra explica que a lógica por trás da sugestão na troca dos produtos é o chamado efeito substituição, que, nesse caso, consiste em substituir a demanda do arroz pela demanda do macarrão. No entanto, ele pondera que, na prática, a mudança não é simples como quer a teoria econômica.

"A racionalidade que colocamos na teoria da economia não considera cultura, gosto, rotina, hábito. Então é muito fácil falar pra substituir arroz por macarrão, mas 95% dos brasileiros comem arroz. Não é uma mudança tão simples de ser feita."

Um estudo da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), publicado em 2015, menciona que "quase 95% dos brasileiros consomem arroz e mais da metade o fazem no mínimo uma vez por dia". O mesmo documento aponta que a preferência nacional de consumo é pelo arroz da classe longo fino, comercialmente conhecido como "arroz-agulhinha".

Terra lembra que o aumento do preço do arroz é uma combinação de fatores, e muitos estão fora do Brasil. "Está acontecendo um choque que se dá, em parte, porque pode ter ocorrido aumento de demanda (pelo fato de as pessoas estarem mais em casa, e não pelo auxílio emergencial), e isso está combinado com a colheita de produtores internacionais ainda não ter começado e com exportações do Brasil terem aumentado significativamente."

2. Preço na prateleira e rendimento

O ritmo de aumento do preço do arroz não significa, no entanto, que o quilo do arroz tenha necessariamente ficado mais caro que o macarrão, especialmente considerando as diferenças regionais.

Dados do levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em 17 capitais aponta uma média de preço do quilo do arroz que vai de R$ 3,20 em Curitiba a R$ 4,54 no Rio de Janeiro em agosto. Em São Paulo, a média é de R$ 3,37.

O preço médio do pacote de 500g de macarrão em agosto ficou em R$ 2,64 no município de São Paulo. Isso significa que a média do quilo do macarrão (R$ 5,28) ainda é mais cara que a média do quilo de arroz. (Não há dados do preço de macarrão em outras capitais pois o item não integra a cesta básica do Dieese.)

A coordenadora da pesquisa da cesta básica do Dieese, Patrícia Costa, lembra que o macarrão é feito de farinha de trigo, e grande parte do trigo consumido do Brasil é importado. "Importar alimentos com o real desvalorizado significa pagar mais pelo grão em real e encarece o valor médio dos derivados — como se observa no preço do macarrão e do pão francês."

Ela destaca, ainda, que "é muito complicado para as famílias brasileiras pagarem pelo aumento de produtos tão básicos e tão importantes como arroz, macarrão, carne bovina, leite, pão francês".

A professora de Nutrição da UnB Raquel Botelho lembra que, para não cair em armadilha, é importante comparar os preços levando em conta o valor do quilo, e não do pacote de macarrão (que, em geral, contém 500g do produto).

Especialista na área de técnica dietética, que contempla cozinha e preparações, ela também destaca que o arroz rende mais que o macarrão. Segundo ela, um saco de um quilo de arroz, bem preparado, rende na panela pelo menos 2kg. Se for um arroz do tipo 1, chega a virar 2,5kg após o preparo. Já o macarrão, segundo ela, a tendência é não passar de 2kg.

3.Características nutritivas

O sociólogo Carlos Alberto Dória, autor do livro A culinária caipira da Paulistânia, diz que há uma "perspectiva colonialista" na fala do representante dos supermercados, que aponta apenas o macarrão como substituto do arroz. Ele lembra que o Brasil tem alternativas de qualidade nutricional e sabor.

"Ao arroz não se contrapõe apenas o macarrão, mas também a outros carboidratos, como farinha de milho, farinha de mandioca, o cuscuz — importante na alimentação brasileira de norte a sul."

O Guia alimentar para a população brasileira, do Ministério da Saúde, aponta que o arroz é o principal representante do grupo dos cereais no Brasil e que o consumo mais frequente é na mistura com o feijão. No grupo dos cereais, também estão milho (incluindo grãos e farinha) e trigo (incluindo grãos, farinha, macarrão e pães), além de aveia e centeio.

Por que, então, mencionar apenas o macarrão? Dória diz que é a "lógica do supermercado": o macarrão é mais padronizado e tem várias faixas de preços, enquanto soluções mais regionais estão ligadas principalmente à agricultura familiar ou pequenas indústrias locais.

Raquel Botelho diz que, analisando puramente os macronutrientes, o macarrão é, sim, substituto do arroz, mas desencoraja a substituição.

"Em termos de calorias, se for arroz puro e macarrão puro, não faz diferença. São parecidos. Mas a gente não come puro — e sim alho e óleo, molho de tomate, molho branco. Dependendo de como combinar, tem um adicional de calorias."

Já o valor do arroz, ela diz, está exatamente na popular combinação com o feijão. Por isso, ela diz, deve-se encorajar a população a consumir arroz com feijão, que é "marcador de identidade no Brasil".

"A combinação arroz com feijão é muito feliz porque o arroz tem aminoácido que o feijão não tem e vice-versa. Eles se completam. Por isso que, como nutricionistas, encorajamos o consumo, principalmente em populações que não consomem tanta proteína animal. É uma forma de garantir minimamente o aporte desses aminoácidos."

Ela destaca que o feijão é fonte de ferro e de fibra, especialmente importante numa população que come cada vez menos frutas e vegetais.

"Tirando o arroz com feijão, você tira quantidade de fibra da dieta do brasileiro."

Mas não pode comer macarrão com feijão?

Pode. Raquel Botelho diz, no entanto, que a combinação só dos dois não é tão comum no Brasil quanto o arroz com feijão.

Dória lembra da popular pasta e fagioli na Itália, que é uma espécie de sopa de feijão com macarrão.

"Quando as pessoas falam que não combina, há primeiro um viés elitista e segundo um desconhecimento, porque uma das coisas mais populares no Brasil é o arroz, feijão e macarrão, juntos no mesmo prato."

4. Sensibilidade ao glúten

Outro fator importante apontado pela nutricionista é que o macarrão contém glúten.

Como a estimativa é de que 10% da população seja sensível ao glúten, segundo ela, o macarrão não é uma opção para essas pessoas. Esse percentual inclui celíacos, alérgicos e pessoas com sensibilidade ao glúten.

"A alternativa seria o macarrão de... arroz", diz.


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