Semana On

Terça-Feira 22.set.2020

Ano IX - Nº 411

Brasil

Suspensão em Oxford e Bolsonaro excitam conspiracionistas antivacinação

Falta, sim, amor no mundo, mas falta ainda mais interpretação de texto

Postado em 10 de Setembro de 2020 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Foto: Eduardo Matysiak/Matysiakfotopress Foto: Eduardo Matysiak/Matysiakfotopress

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A suspensão nos testes da vacina contra o coronavírus desenvolvida pela Universidade de Oxford animou uma parcela dos terraplanistas biológicos brasileiros. Nas galerias de esgoto dos subterrâneos do WhatsApp, a cautela do processo científico foi tratada como prova cabal de que a ciência é uma fraude. Mostrando que falta sim amor no mundo, mas falta ainda mais interpretação de texto.

O problema foi detectado em um dos voluntários que teve o diagnóstico de uma inflamação na medula espinhal. Ainda não é possível afirmar que é um efeito colateral à imunização. Mas, nas mãos dos conspiracionistas, a suspeita - que está sendo investigada - virou certeza absoluta e prova da ineficácia da substância contra a covid.

O desenvolvimento de vacinas, quando sério, segue rigorosos protocolos de testes para assegurar não apenas a eficácia, mas, principalmente, a segurança das pessoas. Por isso, a vacina que vem sendo desenvolvida na Rússia foi tão criticada quando anunciada - não havia informação sobre os testes e seus resultados.

O anúncio da suspensão condiz com esse cuidado e com a transparência que deve orientar esse processo.

Mas, para o movimento antivacina, isso demonstra que o produto faz mal a seres humanos e está sendo desenvolvido apenas para deixar as indústrias farmacêuticas mais ricas. Sabemos que muitas delas têm menos ética que um anticoncepcional de farinha, mas isso não invalida o uso e a importância de vacinas. Que nos ajudam a viver mais e melhor.

Isso quando não estamos falando daquele pessoal nível hard que acha que a vacina vai servir para a implantação de chips para sermos rastreados e controlados a partir de torres de celular 5G chinesas. Isso o Globo Repórter não mostra. O que comem? Onde vivem? Como se acasalam os que acreditam nessas coisas?

Toda essa doideira é alimentada por muita fake news e boatos. A notícia boa é que a imprensa e as agências de checagem vêm fazendo um trabalho importantíssimo para desmentir essas groselhas. A má notícia é que muita gente, mesmo informada, prefere as convicções de sua tribo do que os fatos com comprovação. A ignorância é um lugar quentinho.

Como desgraça pouca é bobagem, o presidente da República vem insistindo em dizer que a vacinação não deve ser obrigatória - o que provoca orgasmos múltiplos na galera já citada.

Está fazendo uma guerra de semântica e, com isso, colocando mais uma vez a saúde pública em risco.

No último dia 8, Jair Bolsonaro disse que não se pode "amarrar o cara e dar a vacina nele". Ele sabe que picar pessoas à força é coisa de um passado de mais 100 anos atrás e que, hoje, a obrigatoriedade é feita por outros tipos de pressão. Por exemplo, quem não mantém as vacinas dos filhos em dia perde o direito a continuar recebendo o Bolsa Família.

Sabe, mas quer contar a mentira para causar apreensão em uma parcela dos cidadãos desinformados e, logo depois, deixar claro que, do alto de seu respeito pela democracia, nunca irá permitir isso. Cria o monstro e já se mostra como o salvador para a ira desse monstro.

Nunca a humanidade produziu uma vacina tão rápido para uma pandemia. Exatamente por conta disso é que os testes são importantíssimos e não podem deixar falhas.

Com o crescente movimento antivacina, médicos e cientistas apontam que colocar no mercado um produto sem resultados transparentes sobre todas as etapas de testes, e portanto, menos seguro, terá impactos não apenas em quem for inoculado com o produto e na sociedade que acreditar que ele funciona, como também sobre campanhas de vacinação envolvendo outras doenças.

Ou seja, a credibilidade da imunização em massa e da ciência também está em jogo.

Quem desconhece o processo científico, acha tudo isso assustador. O que deveria servir de lembrete para a importância do ensino da ciência - sob risco diante dos cortes orçamentários no governo federal e no governo do Estado de São Paulo.

Mas assustador mesmo, de verdade, é uma sociedade na qual brotam protestos, como o realizado em Curitiba, no 7 de setembro. Fotos e vídeos do jornalista Eduardo Matysiak viralizaram na rede, com gente erguendo cartazes que diziam "não queremos a vacina, nós temos a cloroquina".

Suspensão de vacina deixa mal capitão e general

A notícia de que a farmacêutica AstraZeneca decidiu suspender os testes da vacina contra Covid-19 leva o brasileiro a dirigir aos seus botões uma pergunta incômoda: já imaginaram que país magnífico teríamos se, de repente, por um milagre, baixasse no Planalto e na Esplanada dos Ministérios uma epidemia de ridículo?

A novidade deixou mal Jair Bolsonaro, o capitão que ocupa o trono de presidente; e Eduardo Pazuello, o general que caiu de paraquedas na poltrona de ministro da Saúde.

Bolsonaro repetiu num encontro com médicos "cloroquineiros" que "não se pode injetar qualquer coisa nas pessoas, muito menos obrigar" a tomar vacina. Os testes foram suspensos justamente porque um dos voluntários que serviam de cobaia no Reino Unido apresentou reação adversa.

Deseja-se investigar o que ocorreu antes de retomar os testes, feitos em parceria com a Universidade de Oxford. O zelo e a responsabilidade visam justamente prover segurança e confiabilidade quanto à eficácia da vacina. O esforço transforma o lero-lero presidencial sobre os riscos de "injetar qualquer coisa nas pessoas" numa versão sanitária da velha e boa conversa fiada.

Horas antes, Bolsonaro levara para uma reunião ministerial a youtuber mirim Esther, 10 anos. Ela crivou os ministros de perguntas, algumas cochichadas pelo próprio Bolsonaro. Ao ministro da Saúde, a menina perguntou se haverá vacina.

E o general: "Esse é o plano. A gente tá fazendo os contratos com quem está fazendo a vacina. E a previsão é que essa vacina chegue para nós a partir de janeiro. Em janeiro do ano que vem, a gente começa a vacinar todo mundo."

A vacina a que o ministro se referiu é justamente a que teve os estudos suspensos. No Brasil, os testes estão sob a responsabilidade da Fiocruz, vinculada à pasta da Saúde. Antes da suspensão, a previsão de deflagrar a vacinação em janeiro era apenas um despautério. Depois, virou piada.

Em nota oficial, a AstraZeneca esclareceu: "Como parte de um teste controlado, randomizado global da vacina de coronavírus de Oxford, nosso procedimento padrão de revisão desencadeou uma pausa na vacinação para permitir a revisão de dados de segurança".

Acrescentou: "Esta é uma ação de rotina que precisa ocorrer sempre que há problema de saúde inexplicado em potencial em um dos testes, enquanto é investigado, garantindo a manutenção da integridade dos testes."

Bolsonaro deveria aproveitar a suspensão para refletir sobre a conveniência de interromper o hábito de falar dez vezes antes de pensar. E Pazuello faria um bem a si mesmo se substituísse o otimismo tosco pela elaboração de um plano de distribuição da vacina. Coisa com começo (compra de insumos como seringas), meio (campanha de esclarecimento e logística de distribuição) e fim (aplicação de mais de 100 milhões de doses).


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