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Quinta-Feira 24.set.2020

Ano IX - Nº 411

Coluna

Inclusão, assimilação, integração

Indígenas tentam minimizar o desastre nacional, com especial cuidado aos povos mais vulneráveis

Postado em 09 de Setembro de 2020 - Ricardo Moebus

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“Já se percebeu que, quase sempre, as sociedades arcaicas são determinadas de maneira negativa, sob o critério da falta: sociedades sem Estado, sociedades sem escrita, sociedades sem história. Mostra-se como sendo da mesma ordem a determinação dessas Sociedades no plano econômico: sociedades de economia de subsistência. Se, com isso, quisermos significar que as sociedades primitivas desconhecem a economia de mercado onde são escoados os excedentes da produção, nada afirmamos de modo estrito, e contentamo-nos em destacar mais uma falta, sempre com referência ao nosso próprio mundo: essas sociedades que não possuem Estado, escrita, história, também não dispõem de mercado.

(…)

Imagem antiga, sempre eficaz, da miséria dos selvagens. E, a fim de explicar essa incapacidade das sociedades primitivas de sair da estagnação de viver o dia-a-dia, dessa alienação permanente na busca de alimentos, invocam-se o subequipamento técnico, a inferioridade tecnológica.”

Pirerre Clastres – A Sociedade Contra o Estado

Os povos indígenas do Brasil tem construído, ao longo dos últimos séculos, uma contundente crítica à unanimidade de uma ideia rasa e generalizada do que costumamos considerar de forma benevolente como inclusão.

Esses povos tem sido assediados, quando não invadidos, por propostas governamentais, não governamentais, empresariais, assistenciais e religiosas, que pretendem sempre uma suposta inclusão dos indígenas, que lhes trariam tantos benefícios, quando finalmente desfrutariam da “vida moderna”.

Tentativas sob a forma de uma catastrófica “política de integração nacional”, seja sob o lema “Brasil para os Brasileiros”, seja sob o atual lema “Brasil, Pátria Amada”.

Tentativas sob a forma da catequese, da evangelização, da cristianização, da “compaixão”, das “Missões”, das “Novas tribos”.

Tentativas sob a forma do mercado, do empreendimento, do “REED”, dos “serviços ambientais”, da “economia verde”.

Tentativas sob a forma das organizações não governamentais, ONGs que querem “proteger” as “reservas indígenas”, ou querem defender os povos indígenas.

A todas estas circunstâncias, os povos indígenas têm resistido; defendendo, construindo e reconstruindo, de forma permanente, seus territórios existenciais, até mais invadidos que seus territórios geográficos.

Um exemplo grotesco destas tentativas foi a participação do capitão, que atualmente comanda esta nação, em evento na Organização das Nações Unidas (ONU), no início de seu mandato, sendo acompanhado de supostas lideranças indígenas que estariam representando os indígenas agricultores e iniciativas empreendedoras em territórios indígenas, agora, reduzidos mediocremente neste discurso, a terras indígenas, a serem cultivadas, mineradas, “exploradas economicamente”.

O fato é que os povos indígenas sabem, talvez mais agudamente que outros, como o Brasil tem sido, mais ainda nesta atual gestão federal, um Brasil, Pátria Amarga.

Talvez o exemplo mais contundente desta re-existência sejam os povos pelos brancos nomeados “isolados”, que se consideram tão integrados em seus próprios sistemas e ecossistemas de vida, que evitam, sistematicamente, ativa e estrategicamente, trocas materiais ou simbólicas com pessoas ou governos “de temperamento sórdido”, como disse Jorge Bem na música “Os Alquimistas”.

Os “povos biointegrados”, chamados isolados, resistem a todo custo a uma assimilação, a uma integração destruidora de seus modos de vida. Em uma trincheira muito além do pensado por Pierre Clastres em “A Sociedade Contra o Estado”, muito além do pensado por Henry Thoreau em “A Desobediência Civil”.

Estes são povos que habitam de forma nômade ou seminômade em territórios indígenas de outros povos, estando altamente sensíveis às invasões de madeireiros, garimpeiros, grileiros e devastadores em geral, agora, armados também pelo contágio intencional ou não nesta guerra viral do novo coronavírus.

A iniciativa das próprias organizações indígenas, chamada “Emergência Indígena”, tenta minimizar o desastre nacional, com especial cuidado aos povos mais vulneráveis.


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