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Quarta-Feira 21.out.2020

Ano IX - Nº 415

Coluna

Neorrealismo Italiano e a realidade como resistência

Se for preciso resistir, denunciar, enfrentar e expor a farsa e a tragédia, a história tem um excelente exemplo

Postado em 09 de Setembro de 2020 - Clayton Sales

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A obsessão dos nazifascistas em prender o engenheiro comunista Giorgio Manfredi era assustadora. Escondido numa pensão, o líder da resistência à coalizão de extrema-direita que dominava a Itália na primeira metade dos anos 1940 consegue escapar, mas é capturado depois pelos alemães que ocupavam a capital. Primeiro, os nazifascistas tentam usar a influência do padre Don Pietro sobre Manfredi, mas o religioso frustra a estratégia ao afirmar que qualquer pessoa que busca justiça, como Manfredi, está "no caminho de Deus". Então, os nazifascistas obrigam Don Pietro a testemunhar a horripilante sessão de tortura que leva Manfredi à morte. Porém, o rebelde perdeu a vida sem trair seus ideais e nem revelar qualquer informação que comprometesse seus companheiros de resistência. Essa bravura martirizante abalou o moral dos militares nazifascistas que, julgando-se a "raça superior", acreditavam que ninguém "inferior" aguentaria o ritual de destruição do corpo. Era mais um dos incontáveis erros dos facínoras. 

O contexto era a Roma de 1944 após a declaração oficial de "cidade aberta", status tornado público em meio à Segunda Guerra Mundial como uma espécie de rendição para poupar o lugar da devastação das batalhas. Mais do que expor a fragilidade do nazifascismo prestes a ser derrotado, o filme "Roma, Cidade Aberta" (1945) usou a sétima arte para compor uma obra de vanguarda, com dramático apelo realista, principalmente pelos recursos de documentário que deram o tom denunciativo das mazelas provocadas pelo regime de Mussolini. Embora o cinema italiano tivesse produzido trabalhos nos anos 1930 que continham esses elementos, o longa-metragem dirigido por Roberto Rossellini os condensou com tanta força, que serviu de partida para uma das mais importantes escolas cinematográficas: o Neorrealismo Italiano. Apesar da rejeição popular inicial, por ser realista demais para plateias ávidas por produções escapistas, "Roma, Cidade Aberta" ganhou a perenidade dos clássicos, polinizou ideias para gerações futuras e espalhou sementes em outras ondas de cinema crítico e politizado pelo mundo. O Cinema Novo brasileiro, por exemplo, agradece. 

O carvão que alimentou a caldeira do Neorrealismo Italiano foi a realidade sombria que a Itália vivia sob o fascismo, que não apenas impunha seu projeto político, como edificava um sistema de representações simbólicas de sua visão de sociedade. Isso incluía o uso do cinema como arma ideológica, com filmes românticos, épicos e melodramáticos que mostravam uma Itália grandiosa, sorridente e altiva. Da mesma forma que Hitler financiou produções enquadradas na moldura nazista, o cinema fascista recebeu incentivos abundantes do governo autoritário. O Neorrealismo Italiano surgiu no rastro da decadência do fascismo, como forma de desmanchar a maquiagem pintada pelo regime de Mussolini. A fome, a miséria, o desemprego e a desigualdade pelas quais a maioria do povo italiano passava eram resultado do projeto fascista. Esse quadro tinha que ganhar as telas, o coração e a indignação do público. Se no início os filmes neorrealistas não causaram esse efeito em larga escala, ao longo do tempo, as pessoas se deram conta da nuvem ácida que alijou a vida na Itália sob o Duce. O cinema ajudava a população a compreender a causa do inferno que viveu. 

Em regimes despóticos, a censura é lei. O cineasta Luchino Visconti teve que enviar o roteiro de "Obsessão" (1943) para os analistas do governo fascista, que ficaram estarrecidos com o que leram. Adaptação de um romance americano, o longa-metragem expõe a divisa entre a riqueza e a pobreza ao contar a história de um andarilho que se envolve com esposa da dona do restaurante onde consegue emprego. Casada com um homem rico por necessidade, o casal de amantes planeja matar o marido. A produção do filme não avançou até que a autorização definitiva veio, surpreendentemente, do próprio Mussolini. Outra obra fundamental do Neorrealismo Italiano foi "Alemanha, Ano Zero" (1948) de Rosselini. O filme vai até à Alemanha pós-nazista devastada pela derrota na Segunda Guerra para narrar a triste saga de um menino de 12 anos que perambula pelas ruas de Berlim à procura de dinheiro para ajudar a família. Era a sétima arte exibindo as vísceras de um pesadelo. 

Se "Roma, Cidade Aberta" deu impulso ao Neorrealismo Italiano, coube a "Ladrões de Bicicleta" (1948) de Vittorio de Sica refinar seu ideário estético e político. O drama apresenta como paisagem a dificultosa situação econômica da população italiana após a Segunda Guerra, representada pela figura de um desempregado que consegue um trabalho em que depende de sua bicicleta. Porém, o veículo sobre o qual se concentra seu fiapo de esperança é roubado, fazendo com que ele e o filho perambulem desesperadamente por Roma atrás do objeto tão valioso naquelas circunstâncias. A produção escalou atores não profissionais, marca do Neorrealismo Italiano, como forma de alcançar o tom realista em suas tramas. Era o retrato comovente e duro da classe trabalhadora que carregava o fardo de anos entregues ao fascismo. Uma ferida que o cinema italiano expunha sem anestesia. 

O crescimento da televisão nos anos 1950, somado ao gradativo alívio da crise econômica na Europa, contribuíram para o declínio do Neorrealismo Italiano. Para enfrentar a avalanche da recém-chegada TV, os realizadores passaram a concentrar esforços em produções diversionais e o entretenimento dividiu espaço com a denúncia social. No entanto, o que parece não mudar é a urgência em desnudar a realidade. Em tempos de guerras híbridas, operações psicológicas e fake news, travadas sob as trincheiras das redes digitais e financiadas por fontes abundantes de capital, reverter o poder manipulador dessas forças ocultas em favor de trabalhos capazes de abrir os olhos das pessoas ao mundo real, despertando sua sensibilidade e recuperando sua humanidade, é imperativo vital de nosso tempo. O pujante cinema neorrealista plantado na Itália pós-fascista para frutificar como antídoto à cegueira aos acontecimentos desoladores e despertar o povo para a ação, chegou ao ocaso, mas o espírito do seu legado clama por resgate. Se for preciso resistir, denunciar, enfrentar e expor a farsa e a tragédia, a história tem um excelente exemplo chamado Neorrealismo Italiano.


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