Semana On

Quinta-Feira 29.out.2020

Ano IX - Nº 416

Coluna

O inacreditável Trump, no 11 de setembro

Idelber Avelar fala de absurdos, jornalismo, México e de um céu que desaba

Postado em 09 de Setembro de 2020 - Idelber Avelar

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A inacreditável reação de Donald Trump enquanto o World Trade Center queimava, em 11 de setembro de 2001: "agora o edifício mais alto é o meu".

ESTADO DE EXCEÇÃO

Este texto está publicado em meu livro "Crônicas do estado de exceção" (Editora Azougue, 2015), e aparece em plataforma aberta agora pela primeira vez. Ele reconstrói a manhã do golpe militar de 11 de setembro de 1973 no Chile e corrige algumas falsificações.

Trecho:

"O comandante aéreo Roberto Sánchez telefona com um recado do general Van Schowen, que oferecia um avião para que o Presidente deixasse o país com seus assessores e familiares. A resposta de Allende é contundente: 'Comandante, diga ao general Van Schowen que o Presidente do Chile não foge de avião; que ele saiba comportar-se como soldado, que eu saberei cumprir como Presidente da República'. Anos depois, a aparição da gravação da conversa mantida pelos golpistas Augusto Pinochet e Patricio Carvajal provou que o plano dos militares era colocar Allende num avião que jamais chegaria a destino. Eles voltariam a fazer essa oferta várias vezes naquela manhã, inclusive depois de iniciado o bombardeio. Allende a recusaria sempre com a mesma dignidade."

BOB WOODWARD

Ver Bob Woodward em ação é bom demais. Que puta jornalista! O resumo da história que está rolando é: Trump é um chimpanzé cujo governo havia sido retratado de forma não muito lisongeira em um livro de Bob, o zoólogo-mor, feito só com as fontes de Bob, e sem entrevista com Trump. E o chimpanzé sonhou que poderia dar aulas ao zoólogo.

Bob tentou, mas não recebeu resposta, seja porque Trump negou-se, seja porque o estafe de Trump, sentindo o massacre, sequer transmitiu o recado. Não sabemos, porque Trump mente o tempo todo. Mas é fato que Bob tentou entrevistar.

FEAR saiu, causou um baita impacto e Trump, vaidosinho e machucadinho e narcisista, cismou que ficaria mais bem situado na fita se pudesse ser entrevistado para oferecer sua versão. Falou e falou e falou horas e horas com Bob.

E Bob Woodward está o levando à escola, sambando-lhe na cara, revelando ao mundo que ele mentiu de caso pensado sobre uma pandemia, e enfiando goela abaixo de Trump talvez a pior crise de relações públicas e assessoria de imprensa de todo o seu governo.

Trump deu acesso total a Bob Woodward achando que estava falando com Alexandre Garcia ou Augusto Nunes. Sonhou, por um momento, que era um chimpanzé capaz de dar aulas de zoologia a um zoólogo, ao maior zoólogo do nosso tempo, apenas por ser um chimpanzé. Já se arrependeu, inclusive porque Bob fez questão de pegar permissão de gravar tudo.

Pura e simplesmente jornalismo, ladies and gentlemen, jornalismo, só que feito por um mestre.

Trump é tão tolo que achou que ele seria o primeiro presidente a ser retratado de forma não demolidora por Bob Woodward.

TOP 5 MEXICANOS

No meu top 5 de divindades mexicanas, junto com Juan Rulfo, Elena Garro, Rosario Castellanos e José Gorostiza, estaria Juan García Ponce.

García Ponce é talvez o único mexicano que se poderia ombrear com Saer em longevidade na excelência. Ao longo de 50 anos, mais de 50 livros, você encontra a mesma marca registrada: a frase construída com esmero, a cuidadosa mas inovadora pontuação, o uso serpenteante de subordinadas e a extrema exatidão lexical, seja nos contos, nas novelas (García Ponce é um mestre no gênero 70-100 páginas), nos romances, nos ensaios ou nas traduções.

Há algo de aforístico nas histórias de García Ponce, o que não é surpresa quando se lembra que ele foi o introdutor, na América Latina, do Nietzsche sessentista, do Nietzsche pós-estruturalista, do Nietzsche maio-meia-oito francês.

A literatura de García Ponce foi chamada de "erótica", o que não é errado, mas não passa perto de dar uma ideia do que é a minuciosa fenomenologia do amor que vai realizando Ponce ao longo das décadas, inspirado por Sade, Bataille, Nietzsche e Klossowski, autores dos quais ele foi grande conhecedor. Isso, sim, poderíamos dizer: os relatos de García Ponce são, em geral, histórias de amor.

“Tajimara” é um dos seus contos mais conhecidos e saiu publicado em “La noche” (1963). Segue em link ao texto e em leitura minha.

Foi bacana conseguir ler "Tajimara" de um fôlego.

Esta, sras. e srs, é uma obra-prima da forma conto, no topo com qualquer coisa que você tenha lido em Poe, Machado ou Borges.

A QUEDA DO CÉU

Obrigado à UNAM Universidad Nacional Autónoma de México por tornar este vídeo público.Já subi ao meu canal, para quem quiser: palestra na UNAM, em 2016, sobre "A queda do céu," de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Inscreva-se lá porque ando subindo mais coisas.

Ao meu lado, anfitrionando e dando aquele auxílio luxuoso no bate-bola, a querida Dra. Silvana Rabinovich, argentina, profa. no México, pensadora da tradição judaica e colega minha de causa palestina.

Espero que curtam.

O QUE É UM BRASILEIRO?

O que é um brasileiro? Como vocês explicariam, digamos a um marciano, de forma mais antopologicamente exata e sucinta possível, o que unifica esse universo de 211 milhões de almas que passam, no momento, por tão singular penúria?

Poderíamos dizer, lembrando a impressionante unidade linguística do país, desconhecida para qualquer outro de seu tamanho: um brasileiro é, antes que nada, um americano que fala português. Claro, sabemos que centenas de línguas são faladas no Brasil, mas seus falantes são numericamente poucos em proporção à população, e boa parte desse naco é de bilíngues em sua língua e em português, como o são tantos Guarani ou Munduruku. Imigrantes que chegam ao Brasil tendem a aprender português rapidinho.

Mas poderíamos dizer que um brasileiro é também aquele cujo Dia da Independência é o Dia do Nada. Não é que “simbolicamente” ele não poderia representar nada, entenda-se. Algo aconteceu em 07/09/1822, sim, a saber, a oficialização de um prévio arranjo monárquico-parlamentar.

Mas, e ainda simbolicamente, algo parecido com “Independência do Brasil” teria que se comemorar em 02 de Julho, que foi quando, em 1823, uma luta popular afro-mestiço-baiana enterrou de vez as pretensões do Império de dividir um Sul sob Dom Pedro de um Norte sob controle português.

Se nós comemorássemos o 02 de Julho, ele seria mais parecido ao 09 de Julho argentino ou ao 16 de Setembro mexicano. Mas comemoramos o 07 de Setembro, que é o Dia do Nada.

Eis aí, então, outra possível forma de explicar a coisa ao marciano: um brasileiro é aquele para quem a Data Pátria nunca, jamais, em tempo algum, significou porríssima nenhuma simbolicamente, para além da alegria das crianças brutalizadas pelo aparato escolar e felizes com o feriado, e o descanso extra dos trabalhadores brutalizados pela labuta, que dormem até mais tarde um pouco.

Deixo a compatriotas, então, os votos de Feliz Dia do Nada!


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