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Terça-Feira 22.set.2020

Ano IX - Nº 411

Coluna

Emergência Indígena

Que possam emergir todas as nações indígenas deste lugar Pindorama, que possam ressurgir, reinventando-se, re-existindo cada vez mais

Postado em 02 de Setembro de 2020 - Ricardo Moebus

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A pandemia do novo coronavírus avança a passos largos por todo o Brasil, ultrapassando os 4 milhões de contaminados, possivelmente muito mais que isso, carecendo de forma gritante de uma adequada articulação federal no enfrentamento da crise.

O capitão dessa nau demonstra a cada dia sua incompetência para navegar nessas águas turbulentas, nessa tempestade sócio-sanitário-econômica.

Diante da falência do Estado Nacional em garantir aos povos indígenas o acesso aos seus direitos constitucionais, falência em garantir as condições de proteção da vida, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), partindo de deliberações de grandes encontros de povos indígenas, que este ano ocorreram de forma virtual - o Acampamento Terra Livre (ATL) e a Assembleia Nacional de Resistência Indígena - a APIB vem divulgando amplamente seu Plano Emergencial Indígena para o enfrentamento da pandemia do novo coronavírus nos territórios indígenas de todo o Brasil, denominado “Emergência Indígena”.

Trata-se da formação de uma ampla rede solidária de integração de ações de proteção dos povos indígenas contra o novo coronavírus, envolvendo inúmeras organizações indígenas e também instituições não indígenas, organizações não governamentais, que sejam parceiras dos povos indígenas.

A proposta envolve a articulação de um amplo leque de ações regionais e locais, com diretivas e recomendações que se constroem de forma horizontal e participativa.

Mas não é só isso, O que mais impressiona neste Projeto “Emergência Indígena” é sua capilaridade, seu envolvimento nos mais variados territórios, demonstrando que, mesmo em meio a esta crise humanitária, a esta tragédia nacional diante do novo coronavírus, mesmo diante da evidência, que se fez ainda mais clara na pandemia, da necropolítica que impera e controla o Brasil nestes dias, mesmo diante disso tudo, o movimento indígena avança e se consolida como um dos mais importantes movimentos sociais do Brasil, como um dos mais potentes atores sociais na defesa das diferenças, na defesa dos direitos sociais, na defesa dos direitos constitucionais, na defesa da democracia, na defesa da vida.

Sim, a tempestade se abate com força ainda maior sobre os povos indígenas, e, ainda assim, o movimento indígena demonstra sua potência articuladora nacionalmente, sua capacidade de apresentar não só importantes críticas contundentes, mas também apresentar propostas concretas de uma articulação societária mais justa e mais respeitosa com a vida.

Sim, os povos indígenas vivem uma crise humanitária, paira sobre suas cabeças uma ameaça de morte coletiva, uma ameaça de etnocídio, uma ameaça de genocídio brutal, mas ainda assim, a Emergência Indígena é, ao mesmo tempo, o fazer emergir a voz dos povos originários deste lugar, é fazer emergir a força de suas culturas e tradiçoões, é fazer emergir a potência de suas propostas para uma sociedade brasileira menos racista, menos classista, menos fascista.

A Emergência Indígena é, apesar de todas as circunstâncias desfavoráveis, a emergência, a insurgência dos povos originários em sua verdadeira potência, rompendo uma suposta fragilidade, construída na fragilização imposta e fabricada.

Que possam emergir todas as nações indígenas deste lugar Pindorama, que possam ressurgir, reinventando-se, re-existindo cada vez mais.


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