Semana On

Quarta-Feira 21.out.2020

Ano IX - Nº 415

Coluna

O Fim da História

Minha despedida e o começo da Distória

Postado em 02 de Setembro de 2020 - Rodrigo Amém

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Quando Francis Fukuyama declarou o "fim da história" em 1989, conseguiu duas coisas: gerar polêmica e inventar o artigo "clickbait". O conceito era que o conflito entre capitalismo e comunismo tinha sido resolvido com a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética, o capitalismo havia vencido e, portanto, chegávamos ao apogeu da evolução humana: McDonald's, José Sarney e Vanilla Ice. Fim da História. Parabéns aos envolvidos. 

Muita gente já pisoteou Fukuyama pela sua fanfic liberal. Chega a ser uma forma de bullying desenterrar esse surrado artigo 30 anos depois. 

O problema é que concordo com ele. 

Se partirmos do princípio que "História" é um processo linear de evolução das sociedades, sim. Não tem mais história, mesmo. Chegamos ao fim da linha e o maquinista está engatando uma marcha ré célere.

Em todo o mundo, estamos adotando uma espécie de moonwalking ideológico. Depois do fim da guerra fria, nos dedicamos a rejeitar o progresso e reanimar os esqueletos do passado. Nichos políticos paramilitares, como os milicianos do Rio, estão dividindo as cidades em feudos eleitorais. Movimentos nacionalistas estão usando o populismo para implodir relações internacionais como o Mercosul, o NAFTA ou a Comunidade Europeia. A democracia está dando lugar a governos de opressão teocrática. Nossas sociedades estão involuindo voluntariamente.

Essa é uma questão que me anima a insônia. Como impedir que o fascismo seja instrumentalizado por uma elite que almeja mão-de-obra cada vez mais abundante e submissa? Como evitar que castas reacionárias transformem o Legislativo, o Executivo e o Judiciário em teatros de perseguição e clientelismo? Como evitar que o Brasil dê mais dois passinhos para trás?

Eu acho que não dá. 

Parece-me impossível evitar a marcha inexorável do atraso. É inevitável como foi a Segunda Guerra e a gripe espanhola. Parar essa máquina do tempo exigiria algo impensável. Exigiria a extinção de privilégios. A defesa radical do Estado laico. O exorcismo do aparelhamento do Judiciário, das polícias, das Forças Armadas. Acho claro que nenhuma dessas categorias estaria disposta ao sacrifício dessa correção de curso. Não haverá pacto social civilizatório porque, historicamente, nunca houve. Haverá violência e resistência, como sempre. Porque enquanto a questão em pauta for a disputa pelo poder, sempre existirá o interesse pela manutenção do status quo. E sem correção de curso, o iceberg é o único destino. E que cara tem esse iceberg?

No mundo, Trump deve ser reeleito. Assim como o Brexit vai desestabilizar a União Europeia e aumentar a influência de Putin. A China provavelmente consolidará sua beligerância através da tecnologia e manipulação de dados.  

No Brasil, os eleitores deverão decidir entre o bolsonarismo e o lavajatismo. Ambos serão trágicos, visto que não são ideologias propositivas, mas de perseguição e clientelismo. A esquerda permanecerá orgulhosa e desunida, amarrada pelo culto à personalidade, seu maior problema e ganha-pão desde as camisetas do Chê até os murais de Marielle.

A História que o Fukuyama definia como "evolução da humanidade", vai dar um tempo. Esse período involutivo que se seguirá talvez ainda precise ser batizado. Distória, sei lá. 

Aproveito esse desabafo otimista para comunicar que estou deixando este espaço para me dedicar a construção do meu bunker subterrâneo em algum lugar das pradarias uruguaias. Agradeço à revista Semana On e seu editor, o jornalista Victor Luiz Barone Júnior, pela acolhida durante esses seis anos. Fui um aprendizado recompensador e prazeroso. 

Quem sabe nos vemos quando recolherem os botes salva-vidas. Até lá, lave as mãos, use máscara e cumprimente com o cotovelo. E leia um livro, vez ou outra.

Obrigado por tudo e desculpe qualquer coisa.


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