Semana On

Quinta-Feira 24.set.2020

Ano IX - Nº 411

Cultura e Entretenimento

Campo Grande constrói identidade cultural que aflora pelas influências das fronteiras e imigrações

A mistura de cultura que tem no Estado inteiro também acontece aqui. Mas tem muita gente colocando elementos culturais de Campo Grande nas artes, música e literatura

Postado em 01 de Setembro de 2020 - Theresa Hilcar e Beatricce Bruno

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“Cultura não é apenas produto, mas também processo”, destaca a professora, doutora em Teoria da Literatura, escritora e crítica de artes plásticas, Maria Adélia Menegazzo. Neste contexto, de acordo com a especialista no assunto, é preciso pensar de que maneira os artistas campo-grandenses são também responsáveis por uma visualidade local-urbana e de que maneira esses artistas preservam a autonomia estética da experiência individual e buscam um envolvimento com as formas da tradição local, modificando-as.

Segundo ela, nas artes plásticas por exemplo, as obras/monumentos, vão definindo visualidades, na afirmação de símbolos importantes para constituição de uma cultura local.  Ela destaca como obras de arte pública, o Monumento às Araras de Cleir Ávila; o Monumento aos Pioneiros, de Neide Ono e Marisa Tibana em frente ao Horto florestal; a Cabeça do Boi, de Humberto Espíndola, na Praça Cuiabá; o Guerreiro Guaicuru, de Anor Pereira Mendes, no Parque das Nações Indígenas; o Monumento ao Sobá, de Cleir Ávila, na Feira Central, os Ipês, de Isaac de Oliveira, no SESC Cultura, entre muitos outros espalhados pela cidade.  

A professora destaca também o gesto artístico individual que, segundo ela, tem um papel modificador na estrutura da cultura. “Sempre observando que o acesso a esse gesto depende de uma escolha pessoal do observador”, explica. Entre os tantos artistas que representam a capital, Menegazzo cita Humberto Espíndola, Jonir Figueiredo, Lúcia Barbosa Coelho, Priscila Pessoa, Ana Ruas, Patrícia Helney, Cecílio Vera, Sidney Nofal, entre outros.

Cena poética invade a capital

Jornalista, poeta e "agitador" cultural, Victor Barone acredita que Campo Grande tem, sim, uma identidade cultural estabelecida e que, segundo ele, é um caldeirão que ferveu com ingredientes da tradição paraguaia, sulista, do centro oeste, mineira, japonesa, libanesa etc., e criou um caldo que, hoje, tem sabor próprio.  E como Brasil é uma grande cozinha cultural, Barone diz que a cidade necessita de um ou outro tempero para firmar-se como receita original.

Para acelerar a mistura, Barone apostou na poesia como matéria prima e elemento catalisador deste caldo cultural. Junto com o poeta Fábio Gondim, criou ainda no mês de maio, o projeto Poema na Quarentena que leva a poesia para as redes sociais com o objetivo de amenizar o isolamento social e promover a cultura.

“O formato do projeto foi muito democrático. Um poeta diz o poema de outro em um ciclo que se repete durante duas semanas, semeando as redes sociais com poesia”, explica Barone. Para conhecer o projeto basta acessar no Facebook a partir da hashtag #poemanaquarentenams.

Mudanças foram muitas nos últimos 30 anos

Para o professor de História e jornalista especialista em cultura, Oscar Rocha, a cidade de Campo Grande recebe as mesmas influências culturais que o Estado de Mato Grosso do Sul. Mas de alguns anos para cá, muita gente vem colocando elementos específicos da cidade nas artes em geral. Em sua percepção a cidade ainda é muito nova para se estabelecer uma identidade cultural, explica Rocha.

No campo musical, segundo ele, Paulinho Simões, Geraldo Roca, Geraldo e Celito Espíndola (para citar apenas que ficaram em Campo Grande) continuam sendo referências para as gerações pós anos 1980. As referências, claro, não poderiam ser melhores.

O jornalista também destaca os artistas que continuam usando estas referências locais em seus trabalhos, como Jerry Espíndola, Rodrigo Teixeira, Camilo, Gabriel Sater e Luan Santana. E tem mais, muito mais. “Tem uma cena rap, beirando a 30 anos, com temática totalmente voltada para Campo Grande, bem interessante, uma galera do Pop que surgiu nos últimos 10 anos”, conta. Na cena contemporânea, destaque para Marina Peralta que aparece como uma das vozes mais fortes desta geração.

“Para quem tem mais de 40 anos fica difícil se localizar na atual cena musical de Campo Grande”, explica Oscar. Mas segundo ele nos últimos anos muitos artistas apareceram defendendo a identidade local e com isto “a busca acabou tornando-se a própria identidade”.

O cenário musical da capital sul-mato-grossense é mesmo abrangente. Tem rap, o hip hop, sertanejo universitário e até rock. Todos com trabalhos bem consistentes. Campo Grande comporta visões artísticas extremadas, na visão do especialista, frisando que de 20 anos para cá muita coisa mudou.

Batalha de rimas engajadas conquistou campo-grandense

A poesia falada e apresentada para grandes plateias não é um fato novo. A grande diferença é que hoje a poesia falada se apresenta para o povo e não para uma elite — estamos falando da poesia slam. O movimento Slam, que na essência faz um retrato da sociedade através de disputas poéticas é um elemento recente que apareceu na cena campo-grandense

Criado em 2017 na Capital o grupo Slam Campão começou se reunindo toda a semana na Praça Aquidauana para fazer as apresentações. De lá para cá o sucesso só cresceu. Entre apresentações em terminais de ônibus, feiras literárias, o Campão se destaca principalmente através de um trabalho forte entre os jovens, poetas e não poetas, que usam a poesia para se expressar.

O Slam é um movimento cultural que cumpre o papel de dar voz à periferia e aos artistas. Durante a quarentena, por exemplo, o Campão vem fazendo lives com declamação de poesias nas redes sociais para, segundo eles “ manter o foco na missão” e promover a arte e os artistas da cidade.

E quem ainda não conhece, vale a pena dar uma olhada no trabalho das meninas do grupo Slam Camélias. Além da estética, as integrantes fazem questão de agregar e incentivar meninas e mulheres a se expressarem por meio da poesia. Recentemente o grupo As Camélias fizeram questão de se envolver na questão da Pandemia e emitiram nota pública em apoio ao lockdown em Campo Grande.

A crônica da cidade e a literatura que fala das ruas

Não há como falar em literatura campo-grandense sem mencionar o escritor e memorialista Paulo Coelho Machado. Em suas publicações: “ A Rua Velha”; “A Rua Principal”, “A Rua Barão”; “A Rua Alegre”; e “A Grande Avenida”, Machado inaugura a crônica da memória campo-grandenses. Com invejável lucidez e pertinaz pesquisa que lhe permitiu reconstituir, fidedignamente, acontecimentos e passagens das mais rotineiras, às memoráveis dos primórdios do cotidiano da Cidade Morena, Paulo Coelho Machado (1917/1999) evidenciou o crescimento da cidade, como “A Rua Velha”, alusivo à Rua 26 de Agosto, onde instalaram-se os primeiros comércios e a igreja da capital do Estado.

O escritor costumava dizer que a história de um local pode ser contada através das suas ruas e da sua gente. Entre suas histórias, contava com humor a origem dos nomes dos córregos Prosa e Segredo, ligada às fofocas em suas margens. Nascido em São Paulo, Machado tinha orgulho em dizer que era um “campo-grandense de coração”, tendo se tornado um dos maiores cronistas da capital sul-mato-grossense.

Na literatura atual, temos alguém que, instintivamente, bebe da mesma fonte do grande memorialista. Estamos falando do cronista e romancista campo-grandense, André Alvez, que acaba de participar do livro. “A glória desta morena”, que além de contos inéditos de Maria da Glória Sá, carinhosamente chamada de Glorinha, traz contos de outros 29 escritores sul-mato-grossenses.

Publicitário de profissão, André Alvez começou a escrever aos 14 anos, em 2006. Ele vive, respira e dialoga com Campo Grande em todas as suas obras e à exemplo de Paulo Coelho Machado, as ruas da cidade também o inspiram. Na crônica intitulada “As duas calçadas”, ele discorre sobre o passado e o presente da Avenida Calógeras, especialmente no trecho compreendido entre a Antônio Maria Coelho e a Cândido Mariano.

“Nasci cinco quadras acima do portão de ferro, no bairro Amambai, bem perto da Cabeça de boi, no meio dos anos sessenta”, conta Alvez que já escreveu três romances, todos eles tendo como palco a cidade de Campo Grande.  “O Santo de Cicatriz”, “No Pantanal não existe pinguim”; e “A Bruxa da Sapolândia”, baseado em suas memórias de infância. “O meu apego é a paixão por esta terra”, conclui.


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