Semana On

Segunda-Feira 21.set.2020

Ano IX - Nº 411

Brasil

Nove milhões de brasileiros deixaram de comer por falta de dinheiro durante a pandemia

Piora econômica deve empurrar 3,8 milhões de domicílios para as classes D e E neste ano

Postado em 27 de Agosto de 2020 - Marina Rossi (El País), Bianca Lima e Luiz Guilherme Gerbelli (GloboNews e G1) – Edição Semana On

Alimentos são entregues pela Central Única das Favelas (Cufa) para famílias em Heliópolis, São Paulo, durante a pandemia. Foto: Amanda Perobelli - Reuters Alimentos são entregues pela Central Única das Favelas (Cufa) para famílias em Heliópolis, São Paulo, durante a pandemia. Foto: Amanda Perobelli - Reuters

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A pandemia do novo coronavírus afetou a qualidade e a quantidade de comida que as crianças e adolescentes brasileiros estão consumindo. Além disso, em diversos outros aspectos, os lares onde eles vivem foram mais afetados pela crise econômica e social que se instalou após a chegada do vírus no Brasil. É o que concluiu pesquisa do Ibope e Unicef realizada com adultos que vivem com adolescentes e crianças entre 4 e 17 anos. De acordo com o levantamento, 21% dos entrevistados afirmaram que vivenciaram momentos em que os alimentos acabaram e não havia dinheiro para comprar mais. Entre os que vivem com crianças e adolescentes em casa, esse percentual foi de 27%. Sem ter a quem recorrer, como programas de distribuição de alimentos, 6% disseram que a única saída foi deixar de comer, o que representa cerca de nove milhões de brasileiros deixando de realizar alguma refeição por falta de dinheiro. Nos lares com crianças e adolescentes, esse percentual sobe para 8%.

O estudo ainda mostra que a comida, quando tem, é de pior qualidade em muitos casos. Quase metade (49%) dos brasileiros sofreu alguma mudança nos hábitos alimentares neste período de quarentena. Entre as famílias que vivem com crianças ou adolescentes o impacto foi ainda maior: 58%. Isso inclui o aumento do consumo de alimentos industrializados, refrigerantes e fast food, o que contribuiu para a evolução de uma outra epidemia, explica Cristina Albuquerque, chefe de saúde do Unicef Brasil. “A covid-19 pode trazer um agravamento da epidemia da obesidade entre crianças, adolescentes e nas famílias”, afirmou.

A mesa vazia é reflexo direto da crise econômica que abalou principalmente as famílias mais pobres durante a pandemia. Mais da metade dos entrevistados (55%) disse que o rendimento caiu desde o início da pandemia. Em muitos casos, a redução se deu por causa das demissões, já que 64% afirmaram que estavam trabalhando antes da chegada do coronavírus ao Brasil, mas, no momento da pesquisa, realizada em julho, este percentual havia caído para 50%. Já os lares com crianças e adolescentes foram especialmente afetados também neste campo: nessas casas, 63% afirmaram que o rendimento caiu. Em 25% desses lares, a renda diminui pela metade. Já nas casas sem crianças, a mesma redução foi observada por 14%.

Maioria seguiu estudando

O levantamento mediu também o impacto da pandemia na educação e revelou um dado um tanto surpreendente: 91% afirmaram que as crianças e adolescentes continuaram realizando as atividades escolares durante a pandemia. O percentual chamou a atenção das autoridades do Unicef que apresentaram os dados para a imprensa na manhã desta terça-feira. Mas, por outro lado, foi frisado que é preciso questionar a qualidade desse vínculo escolar que foi mantido remotamente nos últimos meses. “A grande questão é entender a qualidade com que essa frequência de atividades tem sido realizada”, afirmou Ítalo Dutra, chefe de educação do Unicef Brasil.

Deste grupo que seguiu realizando as atividades escolares mesmo de casa, a pesquisa registrou disparidade entre a rede pública e a particular. Enquanto 94% dos alunos da escola privada seguiu realizando as atividades, na rede pública foram 89%. A Internet foi o meio utilizado por 97% dos estudantes da rede particular para seguir estudando, e para 81% da rede pública.

As aulas e atividades remotas, no entanto, não demandaram dedicação somente dos estudantes. A maioria (73%) afirmou que eles tiveram ajuda de alguém em casa para realizar as atividades. E 63% receberam tarefas cinco dias por semana para serem cumpridas.

A pesquisa foi realizada entre os dias 3 e 18 de julho, com entrevistas por telefone feitas com 1.516 pessoas acima de 18 anos de todas as regiões do país.

Piora econômica deve empurrar 3,8 milhões de domicílios para as classes D e E

A recessão provocada pela pandemia do novo coronavírus, que atingiu uma economia já fragilizada e com baixo crescimento, vai empurrar milhões para a camada social mais pobre do país. Além de piorar a condição de vida de uma fatia significativa da população, a atual crise deve impedir que parte dos brasileiros consiga progredir socialmente.

Neste ano, segundo um estudo realizado pela consultoria Tendências, 3,8 milhões de domicílios devem passar a engrossar as classes D e E por causa da piora da economia. Ao todo, serão cerca de 15 milhões de brasileiros – contingente equivalente ao número de habitantes do estado da Bahia - que terão uma piora de condição social e passarão a ter uma renda domiciliar inferior a R$ 2,5 mil.

Antes da crise sanitária, a Tendências já esperava uma piora do quadro, devido ao cenário de baixo crescimento econômico. Mas a expansão das classes D e E seria bem menor: uma alta de 600 mil domicílios. Só a pandemia será responsável por empurrar mais 3,2 milhões de lares para a base da pirâmide social, segundo o estudo.

No fim deste ano, 41 milhões de lares estarão nas classes D e E.

O que explica essa pioria adicional é a forte deterioração do mercado de trabalho, tanto informal como formal, durante a pandemia. Entre maio e julho, o desemprego cresceu 20,9% e alcançou 12,2 milhões de pessoas.

Mas o real impacto da doença no mercado de trabalho está escondido em outros números. No segundo trimestre, por exemplo, 8,9 milhões de brasileiros perderam o emprego - 6 milhões deles informais. Parte desse contingente, porém, ainda não voltou a procurar uma recolocação, seja por conta do risco de contágio da Covid-19 ou devido aos auxílios que vem recebendo do governo. Portanto, esses números ainda não se refletiram na taxa de desemprego.

"Quando a gente observa o impacto da pandemia no mercado de trabalho, os empregos mais formais ou ligados a posições que exigem maior escolaridade estão sofrendo bem menos", afirma a economista e sócia da consultoria Tendências, Alessandra Ribeiro. “O grosso (do impacto) é realmente sobre a classe C.”

Não por acaso, boa parte dos novos integrantes das classes D e E deve vir da classe C - domicílios com renda entre R$ 2,5 mil e R$ 6,1 mil. Pela projeção da Tendências, a classe C deve perder neste ano quase 2 milhões de domicílios.

De forma geral, os domicílios da classe C têm uma renda bastante variável porque, de todos os integrantes, apenas um costuma ter um trabalho fixo. Os demais têm renda variável e, portanto, são sensíveis a qualquer instabilidade no mercado de trabalho.

"A família de classe C é composta por uma renda fixa, uma pessoa contratada no regime CLT, e por várias rendas variáveis", diz o diretor executivo da consultoria Plano CDE, Maurício Prado. "Com o cenário da pandemia, essas rendas variáveis caíram muito. Então, houve uma queda muito grande da renda da classe C."

Os trabalhadores da classe C lidam ainda com uma piora adicional recente no mercado de trabalho, já que atuam majoritariamente em atividades do setor de serviços, duramente impactadas pela pandemia com a necessidade de se promover o isolamento social para evitar um avanço ainda maior da doença.

"O setor de serviços foi muito afetado. Toda a parte de alimentação, de lojas, lazer fora de casa, mesmo cabeleireiro, cosmética. Todos foram muito prejudicados. Isso impacta o emprego dessa classe C, esse emprego de serviços", afirma Maurício.

Sem mobilidade social

Mais do que promover um retrocesso social no país, a crise causada pela pandemia também está inviabilizando a ascensão da população brasileira para novas classes sociais. Uma parte do aumento das classes D e E é explicada por novos domicílios que se formam automaticamente nesse grupo, e que, por causa da crise, não conseguem melhorar o padrão de vida.

Essa dinâmica fica evidente no comportamento da renda dos mais pobres. A Tendências estima que a massa de renda das classes D e E suba 6,8% este ano, mas este aumento se dará pelo efeito pontual do Auxílio Emergencial. Sem ele, o quadro seria ainda pior.

O auxílio, portanto, ajudou a mitigar as perdas para os mais pobres, mas foi incapaz de promover uma melhora na pirâmide social do país. Para as demais classes, ele não é capaz de evitar uma piora e todas terão redução na massa de renda.

"O grosso desse incremento (da renda das classes D e E) tem a ver com o Auxílio Emergencial", diz Alessandra. “Os domicílios com famílias mais vulneráveis em termos de escolarização e posição no mercado de trabalho são os que estão tendo mais acesso ao auxílio.”

A massa de renda dos mais pobres pode crescer ainda mais neste ano, já que a projeção realizada pela Tendências trabalha com o cenário de término do auxílio neste mês. Mas o presidente Jair Bolsonaro já sinalizou que o programa deve seguir até o fim do ano.

Nos próximos dias, o governo deve anunciar detalhes da prorrogação do auxílio e também da criação do Renda Brasil, programa de renda mínima que deve juntar outras iniciativas de transferência de renda sob um mesmo guarda-chuva.

O ponto de partida será o Bolsa Família: a ele, deverão ser apensados outros programas, como o seguro-defeso, o abono salarial e o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Beneficiários do auxílio temem perder renda

Com o orçamento doméstico prejudicado pela crise, a indicação de que o Auxílio Emergencial vai ser prorrogado tem sido visto com alívio pelos beneficiários do programa.

Em Salvador, a família de Raimunda Bezerra Teles, de 49 anos, registrou uma queda na renda domiciliar, de R$ 1,9 mil para R$ 1,6 mil, depois que ela deixou de receber R$ 300 do aluguel de uma casa.

"Não está tendo falta no meu orçamento por causa do auxílio e pela ajuda da associação (Associação Emília Machado), que tem ajudado, na medida do possível, com doações."

Sem o dinheiro do aluguel, Raimunda tirou dois filhos da escola particular - a mensalidade de cada um era R$ 150. A casa dela e a que estava alugada foram interditadas pela prefeitura por risco de desabamento, depois de uma forte chuva na cidade. Hoje, a família de Raimunda sobrevive apenas com o salário do marido, operador de máquinas, e do auxílio.

"Eu tinha uma renda de uma casinha que alugava em frente à minha”, diz Raimunda. “Com essa renda extra, era o que pagava a escola dos meus meninos. Minha preocupação é como vou pagar a escola deles no próximo ano.”

Com um filho de 12 anos, Maria de Fátima Souza Pereira, 49 anos, também viu sua renda diminuir por causa da pandemia. Ele pescava marisco e também tem uma ajuda extra do Bolsa Família. Ao todo, ganhava R$ 350 por mês.

Do que recebia, Maria de Fátima ainda pagava R$ 150 num aluguel de um imóvel com sala, cozinha, quarto e banheiro. "Mariscar era a minha única renda, mas agora não posso mais."

A situação financeira dela também só não se agravou por causa do Auxílio Emergencial. "Com esse dinheiro é que estou conseguindo pagar aluguel e todas as contas", afirma. "Estou guardando um pouquinho do auxílio para quando acabar. Assim terei uma reserva."


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