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Quarta-Feira 21.out.2020

Ano IX - Nº 415

Coluna

Era uma casa com porcos, odores, uivos, facas e monstros que pareciam gentis

A palavra estupro nunca foi mencionada. Mas com certeza já existia

Postado em 26 de Agosto de 2020 - Theresa Hilcar

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Eu me lembro bem. Devia ter apenas uns sete ou oito anos de idade, mesmo assim me recordo perfeitamente dos fatos. O barulho do portão, o olhar triste da vizinha que vinha segurando a marmita embrulhada em um prato de prato. Achava bonito aquele pano de prato estampado com flores azuis e o nó como acabamento. Era quase um arranjo floral.

Todos os dias, no mesmo horário e durante um bom tempo, Dolores se dirigia à cadeia da pequena cidade do interior, para entregar em mãos a comida do filho.  Zezé era o nome dele. Um homem baixinho, atarracado, de fala mansa, que costumava nominar as coisas e as pessoas sempre no diminutivo.

Muito antes de ele ser preso, eu costumava vê-lo na calçada, sempre carregando uma faca na cintura que só não me dava medo porque ele me cumprimentava com doçura. A faca era seu instrumento de trabalho. Era um açougueiro. Um ajudante, na verdade, já que o negócio pertencia ao pai. Dos três filhos na família, ele era o único a trabalhar no negócio da família. Só ele literalmente sujava as mãos.

Além do açougue havia uma criação de porcos no fundo do quintal que de tão grande, quase dava numa ponta a outra do quarteirão. Por sorte não fazia muro com a casa onde eu morava. Mas acompanhava com olhar aflito o dia de matança. Era um entra e sai de homens, todos com a mesma faca na cintura.  O barulho estridente daqueles dias me deixava atordoada e com pena dos porquinhos. Talvez tenha sido um dos motivos pelos quais parei de comer carne.

Em dias normais era o cheiro que me incomodava, principalmente em dias muitos quentes. Pode parecer estranho hoje, mas à época era permitido criar porcos no quintal das casas mineiras. Normalmente as famílias criavam um ou dois, no máximo. E só para consumo próprio e em ocasiões especiais. Era o famoso leitão assado.

Já na casa do açougueiro havia dezenas, machos, fêmeas, pequenos e grandes. Todos na linha do abate.

Estive lá em diversas ocasiões, sempre acompanhando minha mãe que ia fazer visita à vizinha, volta e meia adoentada. Vez ou outra escapava pela cozinha e ia olhar os porquinhos. Um dia testemunhei, sem querer, a castração de alguns animais. A cena horripilante ficou gravada na minha memória. Os gritos, o facão ensanguentado na mão do Zezé, por muito tempo não saiu das minhas retinas de criança.

Não sei se foi a cena, ou o cheiro nauseante dos porcos, ou a fala mansa e insistente do Zezé, sempre me oferecendo uma balinha, que me desanimaram a continuar acompanhando minha mãe nessas visitas, quase obrigatórias entre vizinhos. Depois a camaradagem foi diminuindo até quase cessar de vez.

Foi nessa época que passei a ver a marmita indo e vindo, todos os dias. Em casa não se falava nada. Meu avô, o Delegado de Polícia, muito austero e polido, nunca dava detalhes dos, poucos, casos que aconteciam na cidade. A notícia da prisão do Zezé foi apenas uma fala curta, entrecortada, em meio a outras histórias do dia a dia. Havia cochichos, mas eu nunca conseguia decifrá-los.

Só mais tarde, bem mais tarde, descobri que o filho da vizinha, aquele homem franzino, tão trabalhador, sempre bonzinho, quase meigo, tinha feito uma coisa horrível. Tão horrível que fora levado para outra cidade. Foi quando ouvi pela primeira dizerem: abuso e criança. Imperdoável, bradava minha avó. Uma monstruosidade, concordava a vizinha. A palavra estupro nunca foi mencionada. Mas com certeza já existia.

Crônica publicado todos os sábados no Portal Correio do Estado


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