Semana On

Quinta-Feira 24.set.2020

Ano IX - Nº 411

Coluna

Pensar a vida não útil e suspender a venda do amanhã são ideias para adiar o fim do mundo

A dissolução da ideia de humanidade nos textos de Krenak possibilita refundar novos mundos que mereçam ter seu fim adiado

Postado em 26 de Agosto de 2020 - Ricardo Moebus

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Vamos imaginar uma cena bem corriqueira:

Um fazendeiro chega diante da sua bela mata e orienta a tarefa de seus vaqueiros: “aquelas três árvores ali, grandes, vocês deixam ficar porque serve para dar sombra pro gado, aquelas outras bem altas, vocês vão tirar e fazer tábuas, o resto põe fogo, que não serve pra nada, vamos plantar capim nesses dez hectares”.

Fomos brindados recentemente com a terceira parte desta trilogia de Ailton Krenak, que começa com “Idéias para Adiar o Fim do Mundo”, continua com “O Amanhã Não Está à Venda” e agora seu terceiro livro publicado, “A Vida Não é Útil”.

Muitas são as pérolas que podemos encontrar ao longo deste seu último livro, mas quero me reportar aqui a três temas que atravesam toda a trilogia e que configuram um esforço interessantíssimo de enfrentar e refundar alguns pilares que sustentam nossas construções e destruições de mundos, em um autêntico exercício de “transvaloração de todos os valores”, na concepção como propunha Nietzsche.

Vou sublinhar aqui os temas da utilidade da vida, o tema da presumida humanidade e o tema do amanhã.

A cena que inicia este texto tenta ilustrar um pouco a força e a penetrância desta ideia de utilidade, como um valor capilarizado em nossa cultura.

O apreço pelo que é útil e o desprezo pelo que é inútil estabelece uma escala de valores que atravessa toda nossa mentalidade societária, toda nossa sensibilidade social, se voltando até mesmo sobre os seres vivos, sobre a vida.

Talvez por isso mesmo, uma certa biologia engajada em defesa da biodiversidade tem construído estratégias como por exemplo: “Plantas úteis do Cerrado”, como forma de tentar garantir a sobrevivência ao maior número de espécies, anunciando sua utilidade.

Já o naturalista Tomio Kikuchi, diante do horror da destruição provocada por um utilitarismo míope, repetia sempre: “tudo é útil, para quem sabe olhar”. Era seu modo de dizer que tudo deveria ter garantido seu direito à existência, tudo deveria ser respeitado e considerado.

Krenak vai mais além em sua ousadia e declara: a vida não é útil. A vida não precisa ser útil. A utilidade não pode mais ser nossa escala de valoração da vida. A vida vale por ser vida, não precisa dar provas de qualquer utilidade. É hora de transvalorar a medida da utilidade da vida como critério de validação das existências. Toda vida vale a pena, e não há alma que seja pequena.

O que o texto de Krenak nos leva a pensar em última instância é que o homem que anda pelo mundo com a pergunta obsessiva na cabeça: isso serve para quê? Qual a utilidade disso? É o mesmo homem que tem realizado, com paixão, empenho e determinação, a destruição da pluralidade da vida.

Contra essa escala de valoração da vida por sua utilidade, que diz, isso serve para construir casa, aquilo serve para comer, esse serve para trabalhar no supermercado, etc; é preciso proclamar e repetir: a vida não é útil.

A vida como um valor intrínseco, a vida para viver em fruíção, passou a ser para nós, uma transgressão intolerável. Essa é a transvaloração de valores que Krenak sopra em nós. 

Talvez nesta mesma direção, o poeta Manuel de Barros insistiu até o fim em sua tarefa de tentar desviar a linguagem, desviar as palavras, de sua “utilidade”, a isso chamava poesia.

O Segundo tema desta trilogia é viver para comprar o amanhã. É sempre estar vendendo o hoje para comprar o amanhã. É também não se permitir o hoje, não enxergando que pode não haver amanhã.

Também aqui Krenak propõe uma verdadeira transvaloração. Se ninguém pode comprar o amanhã, então ninguém deveria vender sua vida hoje. Quem pode enxergar o valor do hoje e do agora, pode se engajar em sua própria existência de uma forma bastante diferenciada. Também aqui o que está em jogo é dar à vida seu devido valor.

O terceiro tema é a ideia de humanidade, deste seleto clube dos humanos, em diferenciação, primeiro, com uma sub humanidade, já que nem todos são convidados a pertencer a este clube; e, em segundo lugar, em oposição à natureza como não humano, como concepção que vem sustentando o modus operandi de desrespeito e destruição da diversidade da vida.

Talvez Manuel Bandeira, tenha sido um dos primeiros a levantar essa bandeira:

“Os Homens estão atrapalhando meu caminho, mas eles passarão, eu passarinho”.

A proposta de Krenak passa pelo eu passarinho, em oposicão aos homens destruidores de ninhos.

O enfrentamento dessa ideia tão cara a nós, a ideia de humanidade, a ideia de direitos humanos, como algo que vem viabilizando desde séculos a possibilidade de abusar de tudo que não esteja enquadrado neste clube, é talvez a maior transvaloração de nossos valores, que permitiria refundar nossa relação com tudo que nos rodeia, com tudo que constitui nossa experiência de existir.

A dissolução da ideia de humanidade, reatando uma linha de continuidade de tudo que existe, é uma transvaloração que aparece nos textos de Krenak como a possibilidade de refundar novos mundos que mereçam ter seu fim adiado.

É interessante lembrar que Michel Foucault em seu livro “As Palavras e as Coisas” realiza uma arqueologia da construção da ideia de homem e de ciências humanas, por conseguinte de humanidade, anunciando sua transitoriedade:

“O homem é uma invenção cuja recente data a arqueologia de nosso pensamento mostra facilmente. E talvez o fim próximo.

Se essas disposições viessem a desaparecer tal como apareceram, se, por algum acontecimento de que podemos quando muito pressentir a possibilidade, mas de que no momento não conhecemos ainda nem a forma nem a promessa, se desvanecessem, como aconteceu, na curva do século XVIII, com o solo do pensamento clássico – então se pode apostar que o homem se desvaneceria, como, na orla do mar, um rosto de areia.”


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