Semana On

Terça-Feira 27.out.2020

Ano IX - Nº 416

Mato Grosso do Sul

Fogo já consumiu mais de 10% do Pantanal em 2020

De animais carbonizados a fogo 'subterrâneo': a rotina de brigadistas no maior incêndio em décadas na região

Postado em 21 de Agosto de 2020 - Nádia Pontes (DW), Camilla Veras Mota (BBC News) – Edição Semana On

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Assustador e sem precedentes: é assim que quem conhece e monitora o Pantanal descreve a situação da região, continuamente castigada por incêndios. Só em 2020, o fogo já consumiu 17.500 quilômetros quadrados de mata, o equivalente a mais de 10% da área do total de um dos biomas mais importantes do mundo.

Desde 1998, quando o monitoramento das queimadas no Pantanal foi iniciado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), nunca houve tantos focos de calor entre janeiro e agosto como agora: foram 7.727 registrados até 18 de agosto. Um aumento de 211% em relação ao mesmo período do ano passado.

O fogo no Pantanal não tem poupado sequer animais que conseguiam escapar das chamas a tempo: cenas de jacarés, macacos, cobras e antas carbonizadas chocam quem trabalha na região.

"A extensão, a velocidade com que as chamas se espalham é assustadora", afirma Felipe Dias, diretor executivo do Instituto SOS Pantanal. Os prejuízos materiais e o impacto sobre a vida natural ainda estão sendo levantados. "O problema é que o fogo tem sido recorrente. Ele normalmente não voltava a uma região atingida. O que vemos agora é que os incêndios estão se repetindo nas mesmas regiões", completa.

Ação humana

"Historicamente, a mobilização dos órgãos oficiais para combater o fogo começa em julho. Mas neste ano já estamos lutando desde fevereiro, tentando evitar com que as chamas cheguem a áreas protegidas e até a escolas", diz à DW Brasil Angelo Rabelo, que implantou na década de 1980 a Polícia Ambiental em Corumbá, Mato Grosso do Sul, e fundador do Instituto Homem Pantaneiro.

Iniciado, segundo monitores, em mais de 90% dos casos por ação humana, o fogo encontra uma mata seca, esturricada, que funciona como um combustível poderoso.

"Já está tudo muito queimado, e o fogo ainda não acabou. Estamos à espera de uma grande chuva”, lamenta por sua vez Neiva Guedes, pesquisadora e presidente do Instituto Arara Azul, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

Os indícios de que essa seria uma temporada severa vieram em fevereiro, época em que o Pantanal deveria estar coberto pela água. A área sofre influência dos rios que drenam a bacia do Alto Paraguai e que, quando transbordam durante a época de chuvas, de novembro a maio, alagam até dois terços da planície.

"Estamos num ano extremamente seco, poucas chuvas e, na maior parte dos rios, não teve inundação. Foram poucas chuvas e pouca inundação, com temperaturas muito altas", comenta o cenário prévio à catástrofe Danilo Bandini, pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Refúgio ameaçado

Numa zona pantaneira de difícil acesso em Mato Grosso, o entorno do refúgio das araras azuis ainda está em chamas. O santuário, área repleta de bocaiúvas, um tipo de palmeira, dentro de uma fazenda, abriga 20% da população dessa ave no Pantanal.

"O refúgio é um lugar único", afirma Neiva Guedes, que estuda as araras azuis há três décadas. "A gente sente como se fosse a nossa própria pele queimando", diz sobre o choque diante do cenário atual.

A queimada, que teria consumido 70% da fazenda onde fica o refúgio, traz um impacto grande sobre a espécie. "Ninho com ovos e filhotes são perdidos, há mortalidade por fumaça, calor, estresse dos pais, a perda de araras, das cavidades que elas ocupam", diz Guedes.

As repercussões vão perdurar. "A médio e longo prazo, haverá falta de comida, de água. Aumenta a predação de juvenis e de adultos porque falta comida, há briga pelas cavidades", explica a pesquisadora.

As conclusões vêm da experiência de 2019, quando o fogo destruiu parte do Refúgio Ecológico Caiman, em Miranda, no Mato Grosso do Sul, e atingiu ninhos de araras. Propriedade particular, a fazenda desenvolve três atividades: ecoturismo, pesquisa de conservação e pecuária.

Fora da lista brasileira de espécies em extinção desde 2014, mas considerada espécie vulnerável na lista internacional, a arara azul pode voltar para a zona de perigo extremo devido aos incêndios.

"É um risco que não só as araras estão correndo. O impacto dessas queimadas é gigantesco. Já pensou nos insetos, que não conseguem voar grandes extensões e que foram perdidos, mas que têm um papel fundamental nos ecossistemas?", comenta Guedes.

Pouca proteção

Com suas nascentes principalmente no cerrado, que conta com menos de 50% de sua vegetação nativa, os rios que banham o Pantanal vêm sofrendo cada vez a influência da agropecuária.

"O uso e ocupação do solo tem grande influência. Nos últimos anos, a coisa pode ser agravado pela chegada de muitas fazendas de agricultura", analisa José Marengo, pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Além do desmatamento no próprio bioma, a destruição da mata na Floresta Amazônica também influencia o regime das águas no Pantanal: parte das chuvas vem da umidade da Floresta Amazônica, por meio dos chamados rios voadores.

Até o fim da temporada da seca, a expectativa é desanimadora. "Estamos contanto com redução de algumas espécies. Muitas delas já são ameaçadas, e o fogo atual pode ter um efeito de piorar o status de conservação", prevê Danilo Bandini, pesquisador da UFMS.

Região repleta de fazendas de gado, o Pantanal tem apenas 3,5% de seu território protegido por unidades de conservação onde, até o momento, não há registro de focos de calor pelo Inpe.

"Não há como dissociar o que está acontecendo agora com a relação que o homem tem com a natureza. Achar que é normal é um equívoco", diz Angelo Rabelo, numa referência à pandemia e às queimadas. "Temos que repensar essa relação e cuidar dessas áreas que cumprem um papel determinante para proteger espécies que podem, no futuro, trazer soluções de doenças que ainda nem apareceram", finaliza.

De animais carbonizados a fogo 'subterrâneo': a rotina de brigadistas

Assim como milhões brasileiros, Washington Rojas, natural de Corumbá (MS), trabalha "com o que aparece".

Em 2019, foi uma empresa de refrigeração. Depois, uma companhia de encanamento. Isso de janeiro a junho.

Nos últimos 6 anos, quando chega o mês de julho ele "vira a chave". Rojas é um dos 90 brigadistas do Sistema Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) no Mato Grosso do Sul.

Os profissionais que há mais de um mês estão na linha de frente contra o fogo que consome parte do Pantanal têm um contrato temporário com o Ibama, que em geral se estende até dezembro, e passam por uma semana de treinamento.

A remuneração para a grande maioria é de um salário mínimo, R$ 1.045. Chefes de esquadrão como Washington, que tem 24 anos, recebem um pouco mais.

A rotina, que via de regra é de grande desgaste físico e mental, tem sido extenuante.

O bioma vive a maior temporada de queimadas em décadas. Mesmo com o reforço das Forças Armadas, que têm cedido seus barcos e aviões e dado apoio logístico, o fogo já consumiu 1,5 milhão de hectares. Desse total, 910 mil estão em Mato Grosso do Sul e o restante, em Mato Grosso.

A chuva que caiu na região de Corumbá nos últimos dias ajudou a aliviar um pouco a situação, diz o supervisor de brigadas do Prevfogo Bruno Águeda, mas não foi suficiente para encharcar o solo. A onda histórica de frio que deve tomar conta do país nos próximos dias também não anima a equipe, já que o frio na região geralmente é seco.

No ano passado, ele conta, a última operação ocorreu em meados de novembro.

'Horário de pico' do fogo

O trabalho começa em geral às 8h e não tem hora para acabar.

"Quando a gente vê que dá pra vencer o fogo, a gente continua", diz Rojas. "Já cheguei a virar noite."

O combate noturno acaba sendo mais frequente do que os brigadistas gostariam. Isso porque o fogo tem "horário de pico". Se o intervalo entre 10h e 14h é o período mais crítico, depois que o sol se põe, quando a temperatura geralmente cai e a umidade aumenta um pouco, às vezes é mais fácil apagar as chamas.

É também o período mais perigoso para se trabalhar, emenda Heuler Hernany, de 25 anos, que também é chefe de esquadrão.

Há três anos ele atua como brigadista entre julho e dezembro. Descobriu o concurso do Ibama quando fazia um bico de entregador e viu um cartaz com o edital no escritório em Corumbá.

No início, a mãe estranhava quando o filho não voltava para casa. "Ela ia bater na porta do Prevfogo", conta.

Como muitas regiões são de mata fechada — o que, aliás, torna o acesso às áreas de incêndio muitas vezes um desafio tão duro quanto o fogo em si —, o risco de ser picado por um animal peçonhento aumenta quando está tudo escuro.

As imagens que mais impressionam do fogo, para ele, são dos animais fugindo — ou carbonizados. Rojas já viu 5 jacarés queimados de uma vez só. Hernany já viu filhote de macaco, tatu. "Você vê o animal todo encolhido, dá muita dó. Parece cena de filme."

Em geral, os bichos mais lentos são os mais vulneráveis, mas há situações em que o fogo brota de repente e qualquer um pode se ver cercado.

O fogo que 'aparece do nada'

O combate ao fogo na região do Pantanal tem uma série de particularidades, entre elas uma espécie de "fogo subterrâneo" que queima despercebido até que emerge para a superfície.

É o chamado "fogo de turfa", explica Águeda.

As secas e cheias que marcam as estações na região vão criando camadas de matéria orgânica no solo. É como se fosse um sanduíche, diz ele: uma camada de terra, outra de vegetação, outra de terra, e por aí vai.

Às vezes, o fogo consegue atingir uma dessas camadas mais profundas, ricas em matéria orgânica e altamente inflamáveis, e vai se espalhando por baixo da camada mais superficial da terra até encontrar alguma fissura e uma vegetação mais seca para emergir.

"Ele aparece do nada", diz ele.

Outro inimigo dos brigadistas é o vento, que às vezes muda subitamente de direção e leva o fogo junto.

E às vezes isso acontece depois de um longo dia de trabalho, quando eles levaram horas fazendo os chamados aceiros: a retirada de uma faixa da vegetação para tentar brecar o avanço do fogo.

"Às vezes o brigadista passa o dia inteiro batendo enxada e o vento leva o fogo para outro lado", diz o supervisor de brigadas.

'Sensação de impotência'

"A gente pode ter feito tudo, mas às vezes o vento muda e joga uma fagulha a 100 metros", diz o tenente Rodrigo Bueno, do Corpo de Bombeiros do Mato Grosso do Sul.

"A coisa que mais choca é a sensação de impotência", diz ele, que há 10 anos está na corporação.

Os bombeiros militares são os outros protagonistas da força-tarefa que tenta controlar os incêndios florestais no Pantanal. De acordo com o último relatório sobre a operação, 81 bombeiros do Mato Grosso do Sul e 42 do Mato Grosso lutavam contra as chamas.

Dada a dimensão dos incêndios neste ano, foram montadas três bases para o combate: na região de Poconé/Sesc Pantanal (MT), em Corumbá (MS) e na terra indígena dos Kadwéus (MS).

O trabalho pode ser feito pelas equipes locais a partir das bases, com saídas diárias, como tem sido o caso dos chefes de brigada do Prevfogo Rojas e Hernany, ou por meio de missões, quando as áreas são mais afastadas ou o pessoal vem de outra região.

Esse é o caso do tenente Bueno, que fica em Maracaju (MS) e se voluntariou para passar 10 dias na base do Sesc Pantanal.

Em geral, a equipe se reúne às 6h da manhã para delinear a estratégia do dia e costuma voltar em torno de 19h. Mas não são raros aqueles que já passaram mais de 24 horas trabalhando sem interrupção.

'Operação Dito Verde'

No dia em que conversou com a reportagem, o bombeiro havia retornado quase 8 da noite, depois de um dia intenso.

De helicóptero, ele fora enviado à área da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Sesc Pantanal para proteger a casa da única pessoa que há décadas vive na área de conservação: seu Dito Verde, "uma lenda do Pantanal".

"Era uma casinha de barro, com telhado de sapê, toda feita por ele."

A missão da equipe era evitar que o fogo que consumia o mato no entorno chegasse lá. Para isso, os bombeiros puxaram água do rio mais próximo, armazenaram-na em um reservatório improvisado e, com uma motobomba, usaram-na contra as chamas.

A seca que atinge a região impôs um desafio adicional: como o nível dos rios está muito abaixo da média, a equipe teve de caminhar uma longa distância até a margem.

"Na cheia, o rio chega bem perto da casa dele", diz o tenente.

A primeira folga em um mês

Em uma década como bombeiro, ele diz que nunca viu uma operação de combate a incêndios florestais na região nessas proporções.

Hernany, do Prevfogo, teve o primeiro dia de descanso depois de um mês intenso de trabalho no Dia dos Pais, 9 de agosto.

Assim como muitos dos profissionais que estão direta ou indiretamente envolvidos no trabalho contra os incêndios, o presidente do Instituto Homem Pantaneiro, coronel Ângelo Rabelo, diz que as queimadas na região vêm piorando um ano após o outro.

Ele lembra quando chegou ali, na década de 80, "um dos momentos mais violentos da história do Pantanal", com muita caça ilegal de jacaré e tráfico de animais silvestres.

Com o tempo, a caça e pesca predatórias foram sendo controladas. Agora, o avanço do fogo preocupa: quanto mais longas e mais intensas as "temporadas" de queimadas, menor o intervalo que a natureza tem para se recuperar, colocando em risco um ecossistema único, que abriga quase 4,7 mil espécies de plantas e animais.


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