Semana On

Segunda-Feira 21.set.2020

Ano IX - Nº 411

Coluna

A profundidade poética de Wim Wenders

Seus filmes são complexos e delicados poemas, seja um formoso soneto ou uma soturna elegia

Postado em 19 de Agosto de 2020 - Clayton Sales

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Anjos são criaturas mitológicas investidas de bondade, dotadas de poderes e encarregadas de cuidar de homens e mulheres. Por sua natureza divina, jamais morrem. A imortalidade é o dom que permite aos anjos cumprir sua tarefa por eras, enquanto houver dor, angústia e desolação. São seres de compaixão, capazes de se identificar com os mortais mais aflitos e se conectar com eles. Anjos tem desígnios puros, sem o sofrimento humano, e os equilibra com a racionalidade metafísica de sua função em nosso mundo. Esse equilíbrio os impede de ultrapassar a fronteira do apego mundano. Porém, um anjo chamado Damiel ousou atravessar essa divisa. Ele se apaixonou pela linda e solitária trapezista Marion. Essa estranha coisa fervente chamada amor era um arrebatamento que desejava experimentar. Queria tanto, que estava disposto a sacrificar sua imortalidade para mergulhar nessa emoção, intensificada pela perspectiva do fim da vida. Razão e eternidade como arcabouços de um viver estéril. Amor e morte em conjunção efêmera de sentido sublime. Dialéticas suscitadas pelo filme "Asas do Desejo" (1987), escrito e dirigido por um gênio da sensibilidade: Wim Wenders. Sensibilidade explorada em elementos técnicos apurados, como a fotografia predominantemente em preto-e-branco e o uso de recursos do expressionismo alemão. 

Nascido em Düsseldorf, Alemanha, ele chegou a cursar a faculdade de Medicina, porém, abandonou. Depois, partiu para a Filosofia, mas decidiu mesmo ir para França tentar o ingresso numa escola de Artes. Também não deu certo e o jovem Wim Wenders se contentou com o emprego de gravurista de um artista americano. Nesse período, nas folgas, desenvolveu enorme fascínio pelo cinema, frequentando as salas da cidade com assiduidade. Então, tomou a decisão de sua vida. De volta a sua terra natal, conseguiu trabalho no escritório local da companhia cinematográfica United Arts. Além disso, Wim Wenders ingressou na Academia de Cinema de Munique e atuou como crítico, escrevendo para publicações como a Der Spiegel. Durante sua trajetória estudantil, Wim Wenders realizou vários curtas e produções para TV. Seu trabalho de conclusão de curso foi o longa-metragem "Verão na Cidade" (1971), sobre um homem libertado da prisão que vaga pela Alemanha em busca de algum horizonte. O recém-formado cineasta estreava na sétima arte mostrando algumas de suas marcas: vazios existenciais, introspecção e jornadas profundas na individualidade. O cinema se materializava nos caminhos de Wim Wenders.  

Sua carreira começou na efervescência do Novo Cinema Alemão, movimento que almejava romper com padrões comerciais da indústria cinematográfica do país e privilegiar obras pautadas pela excelência artística. Uma das produções de Wim Wenders que representa essa fase é "Alice nas Cidades" (1974), filme inaugural de uma trilogia que apresenta outra característica do cineasta: os road movies. Uma década depois, o diretor revisitou o gênero em "Paris, Texas" (1984), vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes. Nessa trama imersiva, estrada e memória se encontram para formar um dos mais belos trabalhos cinematográficos e consolidar definitivamente Wim Wenders como um grande realizador. Outra obra na modalidade road movie é "Don't Come Knocking" (2005), escrito em parceria com Sam Shepard, sobre um decadente astro do faroeste que foge à cavalo do set de filmagens da produção que estrelava e vaga pelo deserto até o lugar onde nasceu. Wim Wenders também trafegou pelo cinema policial em "O Hotel de Um Milhão de Dólares" (2000), sobre a misteriosa morte do filho de um bilionário em uma hospedagem de quinta. A arte de Wim Wenders se expandia para outros domínios.  

Há, entretanto, um gênero audiovisual em que se especializou com maestria: o documentário. Sua primeira produção nessa área foi "Lightning Over Water" (1980), sobre os últimos momentos do cineasta Nicholas Ray. Wim Wenders sempre buscou personalidades que admirava em seus filmes documentais, como em "Tokyo-ga" (1985), sobre o influente diretor japonês Yasujiro Ozu. O alcance de sua capacidade de extrair detalhes arrebatadores sobre grandes figuras atingiu o ápice no aclamado "Buena Vista Social Club" (1999), sobre músicos cubanos que se apresentavam na famosa casa de shows de Havana e que viviam no anonimato. Já "Pina" (2011) é uma obra que retrata com muito lirismo o universo artístico da bailarina e coreógrafa alemã Pina Bausch. Em "O Sal da Terra" (2014), Wim Wenders declara seu amor pela fotografia ao capturar pormenores encantadores das lentes singulares do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, produção dirigida em parceria com Juliano Salgado. Seu trabalho mais recente é o documentário "Pope Francis - A Man of His Word" (2018), sobre o Papa Francisco. A arte de Wim Wenders também serve ao registro histórico.

Investigar o âmago do homem, desvelar os detalhes dos sentimentos e transformá-los em cinema. Com essa vocação, Wim Wenders aplica seu olhar minucioso sobre a alma humana numa variedade possível de gêneros. Seus dramas são profundos e poéticos, seus suspenses são profundos e poéticos, seus documentários são profundos e poéticos. Profundidade e poesia são assinaturas de potente autoralidade do cinema de Wim Wenders. Um cinema que se manifesta como painel denso e caleidoscópico do cosmos e caos insondáveis de nós mesmos. Coração, mente e espírito são como filme de Wim Wenders: um complexo e delicado poema, seja ele um formoso soneto ou uma soturna elegia.


Voltar


Comente sobre essa publicação...