Semana On

Sábado 16.jan.2021

Ano IX - Nº 426

Brasil

Apesar de tudo, aprovação de Bolsonaro aumenta

Além do auxílio emergencial e do novo estilo menos boquirroto, uma terceira questão influi na pesquisa: o brasileiro médio não está nem aí para os desmandos do bolsonarismo. Simplesmente, falta empatia.

Postado em 13 de Agosto de 2020 - Ricardo Noblat (Veja), Carta Capital, Tainá Andrade (TAB UOL) - Edição Semana On

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O que aconteceu entre a última semana de junho passado quando o Datafolha foi a campo para saber a opinião dos brasileiros sobre o governo de Jair Bolsonaro, e esta quando repetiu a dose?

Fabrício Queiroz foi preso na casa do advogado do presidente Bolsonaro e do seu filho Flávio, senador. E, no último sábado, o Brasil atingiu a triste marca dos 100 mil mortos pelo coronavírus.

A devastação da Amazônia seguiu em frente e até cresceu. O Ministério da Saúde completou 3 meses sob o comando de um general. E mal tomou posse, o 4º ministro da Educação adoeceu.

O que explica então que a aprovação de Bolsonaro tenha aumentado e a rejeição caído segundo a nova pesquisa Datafolha? Duas poderosas coisinhas, pela ordem de importância.

A primeira: o auxílio emergencial de 600 reais pago a pelo menos 42% da população para que ela enfrentasse os efeitos da pandemia. A segunda: a mudança de comportamento de Bolsonaro.

O índice dos que acham o governo ótimo ou bom subiu de 32% para 37%. Caiu de 44% para 34% o índice dos que o acham ruim ou péssimo. É a melhor avaliação desde que o governo começou.

Dos 5 pontos de crescimento da taxa de avaliação positiva, pelo menos três vêm dos trabalhadores informais ou desempregados que têm renda familiar de até três salários mínimos.

Entre os que receberam o auxílio, a taxa dos que consideram Bolsonaro um presidente ótimo ou bom é seis pontos superior à observada entre os que não pediram o benefício.

A popularidade do presidente no Nordeste, a região mais pobre do país, cresceu seis pontos. Bolsonaro no modo bonzinho reduziu sua desaprovação entre os brasileiros de maior renda no Sudeste.

Fique, portanto, Bolsonaro à vontade para criticar governadores e prefeitos que decretaram medidas de isolamento social, defender a volta ao trabalho e prescrever cloroquina aos doentes.

Tudo isso lhe será perdoado. Só não pare de pagar o auxílio emergencial, ou qualquer outro nome que se lhe dê. Nem o reduza. Se reduzir será lembrado como aquele que deu e depois tomou.

A mesma mão que hoje afaga, amanhã apedreja.

Homens do Sul e do Centro Oeste

A aprovação ao presidente, de acordo com o levantamento, prevaleceu entre os empresários (58%), homens (42%), moradores do Sul (42%), e do Centro-Oeste/Norte (42%), da faixa etária entre 35 a 44 anos (45%).

Entre os que  consideravam o governo ruim ou péssimo, a opinião prevaleceu entre os estudantes (56%), pretos (48%), quem tem Ensino Superior (47%), entre quem ganha mais de dez salários mínimos (47%) e entre as mulheres (39%).

A parcela dos que consideram o governo regular está em 27%, contra 23% em junho.

Falta de empatia

Além do auxílio emergencial e da mudança de comportamento do presidente, há, ainda, uma terceira questão a ser levada em conta: o brasileiro médio não está nem aí para os desmandos do bolsonarismo. Simplesmente, falta empatia.

Os noticiários, diariamente, nos contam histórias contraditórias. Informam crises, mostram violências cotidianas, mas também exibem debates construtivos, diferentes mobilizações de solidariedade.

O período pandêmico tem evidenciado uma nação desalinhada. As condutas individuais destoam do esforço coletivo pela vida e de uma imagem cristalizada no pensamento de um povo "hospitaleiro como um traço definido do caráter brasileiro", mencionada em 1936, pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, em "Raízes do Brasil" — embora a "cordialidade" mencionada por Holanda seja relacionada a tudo que vem do coração, capaz de grandes afetos e de violência. O autor passou o resto da vida explicando o que é o "brasileiro cordial".

Uma pesquisa, divulgada em 2016 pela Universidade Estadual de Michigan (EUA), prova algo de que já se desconfia. Num comparativo entre países, o Brasil está em 51º lugar, em um ranking de empatia. Foram avaliadas 63 nações.

Onde o povo brasileiro começou a apresentar essa dicotomia? Segundo o professor e historiador Deusdedith Rocha, a ideia de que há uma "natureza humana" foi reforçada no Iluminismo, com as ideias dos filósofos Thomas Hobbes e de Jean-Jacques Rousseau. O primeiro pensador dizia que o ser humano é mau por natureza, ao passo que o segundo sugeriu sermos bons genuinamente.

"O problema disso é que acabamos deixando de lado muitas coisas que interferem no comportamento humano", explica o historiador. "No caso do Brasil, os colonizadores se habituaram a dizer que o país é uma dádiva de Deus. Fizeram um grande esforço para compor uma história que afirma: os brancos colonizadores construíram tudo com a 'ajuda' de africanos e indígenas. Mas os conflitos sociais entre nós sempre foram muito cruéis. Houve um apagamento da crueldade da nossa história e dos intensos conflitos que ela sempre teve."

Essa estrutura atinge diretamente a percepção sobre nós mesmos, a representação que se faz do outro e, consequentemente, dos problemas sociais que o país atravessa. "A questão fundamental é que o Brasil é desigual. Temos uma Bélgica e uma Índia aqui dentro", diz Débora Messemberg, professora de sociologia na UnB (Universidade de Brasília).

Gentileza como propaganda turística

O "tempero" social brasileiro foi incentivado numa primeira onda migratória, no final do século 19, quando extingue-se a escravidão e o país começa a importar mão de obra barata e branca, vinda da Europa e do Japão. "Era uma dupla intenção: branquear o país e buscar mão de obra barata para a agricultura, já que a população negra que aqui habitava não era considerada gente", afirma Ana Maria Mauad, professora do Departamento de História da UFF (Universidade Federal Fluminense). A reestruturação da lógica de trabalho, ocupação e domínio das terras dos povos originários ocasionou o fortalecimento desse racismo estrutural, porque criou uma disputa entre o branco europeu pobre e o negro, sobretudo depois da abolição.

Entre 1930 a 1945, durante a ditadura de Getúlio Vargas, o país aplicava a política da boa vizinhança: este é o momento em que se constrói o ideário do nacional popular, da cultura popular, do samba. A publicidade e a fotografia, produzidas pelo governo, destacam a figura de Carmen Miranda e da Bando da Lua, grupo de músicos que tocavam instrumentos brasileiros e que acompanhavam a cantora.

Em 1941, no meio da Segunda Guerra Mundial, o desenhista Walt Disney vem ao Brasil e cria Zé Carioca, consagrando o "país cordial" ao apresentá-lo a Pato Donald. "O Brasil se projeta como um país receptivo, alegre, ordeiro e simpático; conflitos entre capital e trabalho parecem completamente controlados, o país estava se industrializando", analisa Mauad. "O que fica claro, dentro dessa operação, é mitigar todo tipo de conflito de classe e de raça. Carmen representava um país unido, que adorava o Carnaval e gostava de receber, assumido de norte a sul como se houvesse unidade regional, e não era — não é — assim."

Um abismo de distância

O Brasil é a sétima nação mais desigual do mundo, de acordo com o último relatório divulgado pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), em 2019. As disparidades começam na diferença de rendimento dos brasileiros. Em seu levantamento de 2019, o IBGE divide a população em 10 decis — faixas de renda mensal recebidas. O menor salário pago equivale a R$ 160, e o maior começa a partir de R$ 28.659, ou seja, uma pequena parcela da população (representada por 1%) ganha pelo menos 180 vezes mais que a última faixa (representada por 5% do total, ou as classes D e E).

Isso se agrava ao avaliar o aspecto cor/raça. Desde 2012, o instituto indica que a população preta e parda recebe quase os mesmos valores mensalmente. Em comparação com o mesmo período, a população branca tem, em média, de 70 a 80% a mais. Ao pensar em uma nação de pouco mais de 209 milhões de pessoas, é evidente que há uma balança estagnada no desequilíbrio.

"Abolimos bem tarde a escravidão, reduzimos os povos indígenas a um número muito pequeno. Mantemos até hoje um comportamento social segregacionista e de superioridade entre raças, gênero, etnias, classes sociais, regiões etc", argumenta Deusdedith. "Durante muitos séculos vivemos com uma massa humana de 'não-gente'. Não é uma questão nossa, apenas, tem a ver com a nossa história. Vários países do mundo mostram na lógica iluminista da razão um processo evolutivo contínuo, mas a verdade é que a sociedade se constrói em uma série de avanços e retrocessos. A questão da cidadania não é uma conquista evolutiva e contínua", esclarece a socióloga. O reflexo disso está nas notícias. Na visão de Débora, a vontade social de ter uma imagem positiva esconde a perversidade presente na construção das relações brasileiras.

 

Sentir é diferente de viver

A empatia é um dos elementos integrantes de um pensamento mais coletivo. Nos liga à comunidade ou com o país no qual se estabelece reconhecimento, sem ela no dia a dia não se consegue estar atento à dor do outro.

O psicanalista e professor do instituto de psicologia da USP, Christian Dunker, explica que "a empatia começa quando termina a identificação com o outro, quando se vai além da identificação e não se quer silenciar o outro, vê-lo como subalterno".
Segundo Dunker, o que acontece hoje é uma espécie de "democracia em estrutura de condomínio" ou "democracia customizada", isto é, "feita para os que são iguais a mim e não para quem é diferente de mim. As pessoas irão se identificar com quem está no mesmo pedaço. Posso me achar muito empático porque estou me identificando com o outro, não necessariamente sendo empático a ele", elucida.

Portanto, uma sociedade desigual não propicia relações mais humanizadas. "Sem relações horizontais não se criam vínculos, serão sempre relações hierárquicas [ou verticais]. Tanta desigualdade dificulta, ainda mais dentro de uma lógica de problemas raciais e econômicos. Então, temos grupos se identificando cada vez mais com os seus próprios pares, que são cada vez mais minúsculos", contextualiza Débora Messemberg. "Percebo a desigualdade como o grande nó da nossa história. Se não começar a resolver por aí, será difícil conseguir uma solução."

Relações sociais

A dinâmica narrada pela socióloga é representada nas tiras criadas por Leandro Assis e Triscila Oliveira. Publicada no Instagram e no Twitter, a série "Os Santos" representa uma família da elite carioca. Seus personagens vivem de maneira conservadora e inclinados ao discurso de direita. Ele retrata os pormenores das relações verticais que evidenciam os privilégios brancos, as desigualdades sociais, o racismo, o desrespeito e a falta de empatia entre as classes.

"Quando comecei a fazer, era uma série escrita de branco para branco. Claro que a ideia era humanizar ao máximo as domésticas, os pobres, contribuir para que esse leitor branco, classe média-alta, tivesse mais empatia por aquelas pessoas", conta o autor. "Tem aí uma questão de mentalidade escravocrata que faz o brasileiro rico acreditar que existe uma parcela da população que está aí para servir. Ele desumaniza essas pessoas para poder, inclusive, vê-las apenas como serviçais."

As reações às tiras são diversas. Desde ataques de seguidores, produções tiradas do ar, até pessoas com o perfil desenhado que passaram a refletir, a ver um outro lado, a repensar a maneira de agir. Tem também as obras que chegam às pessoas das classes representadas ali. O retorno delas é o mais positivo. Sentem reconhecimento na representação. A identificação é tamanha que dão ideias para novas histórias.

"Não dá para colocar que temos uma face egoísta e uma face boazinha do brasileiro, porque elas estão misturadas. Todos temos impulso à solidariedade e a nos comportarmos contra o coletivo, por exemplo. Isso é comum a todos os povos. O que muda essa tonicidade são os momentos que a sociedade atravessa", afirma Dunker.


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