Semana On

Quinta-Feira 28.jan.2021

Ano IX - Nº 427

Coluna

A majestade na moviola

Ou o barato dos filmes de Elvis Presley

Postado em 12 de Agosto de 2020 - Clayton Sales

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A situação de Vince Everett não estava nada confortável. Condenado por matar um homem acidentalmente, esse sujeito pintoso, com seus ressaqueados olhos claros, cabelos escuros e sorriso travesso, encontra no companheiro de cela Hunk Hounghton, uma proteção dentro do ambiente hostil da prisão. Além disso, o veterano encarcerado tem um dote que decide ensinar ao jovem detento: a música. Como Vince é talentoso, ao cumprir a pena, sai da cadeia e engrena uma carreira artística ascendente. Porém, Hunk se corrói em ressentimento e o desafia para uma briga, na qual esfaqueia a garganta de Vince, prejudicando suas cordas vocais. No entanto, o final tinha que ser feliz e o brilhante cantor recupera a voz e, de quebra, ganha um amor. Vince Everett é o personagem principal de "Prisioneiro do Rock" (1957), dirigido por Richard Thorpe, o terceiro estrelado por um grandioso músico, que usou o cinema para projetar seu trabalho e seu mito. Vince Everett foi interpretado por Elvis Presley, que faleceu em 16 de agosto de 1977, deixando seu nome inscrito na cultura popular e na história do rock'n'roll. Sua imagem cantando e dançando "Jailhouse Rock" com roupa de presidiário é uma das mais icônicas do rock, da música e da sétima arte. 

Como escrever sobre Elvis Presley sem mencionar sua carreira no cinema? Afinal, foram 31 filmes entre 1956, quando estreou nas telonas com "Love Me Tender" de Robert D. Webb, e 1969, quando atuou pela última vez em "Ele e as Três Noviças" de William A. Graham. Embora predominem os musicais, sua filmografia abraça gêneros como o faroeste e um exemplo é "Estrela de Fogo" (1960) de Don Siegel. Ursula Andress em "O Seresteiro de Acapulco" (1963), Nancy Sinatra em "O Bacana do Volante" (1968) e Ann-Margret no adorado "Viva Las Vegas" (1964) foram algumas atrizes que contracenaram com o cantor. Elvis Presley foi dirigido por vários cineastas, entre eles, Norman Taurog, vencedor do Oscar, o que mais realizou filmes protagonizados pelo astro, como "Loiras, Morenas e Ruivas" (1963). Elvis Presley viveu a pele de Vince Everett, Danny Fisher, Lucky Jackson, Steve Graysson, Dr. John Carpenter e mais 27 personagens, quase todos cantores. A exceção é o western "Charro!" (1969) de Charles Marquis Warren, em que ele não canta e surpreendeu as plateias com seu visual desleixado e barbudo de anti-herói.

Diversos filmes e produções televisivas foram realizados sobre Elvis Presley. Na televisão, o destaque é a minissérie "Elvis" (2005) da CBS, em que o astro foi interpretado por Jonathan Rhys Meyers. Um dos longas-metragens mais interessantes é "Elvis & Nixon" (2016) de Liza Johnson, sobre o pitoresco encontro do artista com o presidente americano Richard Nixon em 1970. Outra obra curiosa é "Idênticos" (2014) de Dustin Marcelino, que narra uma história fictícia sobre o que aconteceria se o irmão gêmeo de Elvis Presley não morresse no parto e ingressasse na música. Os pais do cantor realmente tiveram gêmeos em 1935, mas apenas Elvis sobreviveu. No campo dos documentários, o mais celebrado é "This is Elvis" (1981) de Malcolm Leo e Andrew Solt, mas há também o filme "Elvis Presley: The Searcher" (2018) da HBO, iniciativa de sua viúva Priscilla Presley. E com previsão de estreia para novembro de 2021, a cinebiografia dirigida pelo australiano Baz Luhrmann tem o ator Austin Butler no papel principal e aborda a controversa relação do astro com seu agente, o Cel. Tom Parker, vivido por Tom Hanks. As filmagens começaram em janeiro de 2020, mas foram interrompidas por causa da pandemia do coronavírus. 

Elvis Presley e cinema é uma combinação que rendeu deliciosas histórias e segue capaz de disparar muita nostalgia. A luz que o cantor irradiava provinha de sua incrível voz, suas fabulosas canções, seus trejeitos endiabrados nos palcos e seu inesquecível carisma. A música era sua vocação superlativa. Os produtos cinematográficos que estrelou, na verdade, foram um dos vários instrumentos da engrenagem usada para abrir as clareiras do showbusiness que o transformaram no sucesso mundial que atravessou décadas e até hoje arrebata novos e revigora antigos fãs. No entanto, ainda que seus filmes não sejam primores da sétima arte, apesar de alguns, como "Feitiço Havaiano" (1961), terem disputado prêmios, é inegável que assistir a Elvis Presley fulgurando nas telas, envolvido em aventuras, dramas, situações hilárias e romances adocicados, é uma maneira divertida de conhecer um pouco do universo dessa lenda. Principalmente quando as cenas que protagoniza mostram o que ele sabia fazer de melhor: a música de uma verdadeira majestade.


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