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Terça-Feira 22.set.2020

Ano IX - Nº 411

Artigo da semana

Dois vídeos, dois entregadores negros chamados Matheus, o mesmo racismo

O Brasil dos Matheus é maior, sempre foi. O outro agride, demite e xinga, sendo, portanto, espaçoso e barulhento. Contudo, é menor, muito menor - e precisa ser lembrado disso

Postado em 11 de Agosto de 2020 - Leonardo Sakamoto

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Dois vídeos que viralizaram, no último dia 7, chocaram pelas cenas de racismo. Um deles mostra a agressão contra um entregador chamado Matheus, que foi amparado por seu amigo também chamado Matheus, em um shopping no Rio de Janeiro. E o outro traz ataques racistas sofridos pelo entregador Matheus por parte de um homem de nome Mateus em um condomínio em Valinhos (SP). As vítimas têm em comum os nomes, o trabalho, a cor de pele. Os dois Matheus são a cara de um Brasil, enquanto o Mateus é a voz de outro.

O entregador Matheus (Fernandes) foi trocar o relógio que havia comprado para o pai na loja Renner, do Shopping Ilha Plaza, Zona Norte do Rio. Arrancado do local por dois homens, ele foi acusado de roubar a mercadoria, imobilizado na escada de emergência e agredido. Uma pistola foi apontada para ele e só não ocorreu algo pior porque um amigo acompanhou a cena e chamou outras pessoas. Tudo foi gravado. Matheus estava orgulhoso que tinha comprado o presente com seu próprio dinheiro.

"Todo dia entro no shopping para trabalhar. Agora, só porque eu sou preto, eu não posso ir lá para me divertir?", perguntou.

O entregador Matheus (Nascimento) presta serviço para um restaurante no shopping e testemunhou o que os dois homens fizeram com o seu amigo Matheus. Graças a ele, a agressão não foi maior. Como nenhuma boa ação fica impune no Brasil, agora, está com medo. Disse que o shopping afirmou que não quer mais vê-lo por lá.

"Agora, não sei como vai ficar a minha situação. Tô até com medo de ir trabalhar, medo de represálias", afirmou à Marcela Lemos, do UOL.

O entregador Matheus (Pires) atrasou uma encomenda da iFood para uma residência em um condomínio em Valinhos (SP). Lá chegando, o cliente o chamou de "lixo" e "semianalfabeto", disse que ele tinha inveja do condomínio e das famílias que lá moravam. E apontando para a própria pele branca, afirmou que o entregador negro também tinha inveja daquilo. Mesmo diante de agentes da guarda civil, continuou sendo humilhado pelo homem. Segundo ele, recebeu uma cusparada. Um vizinho gravou a cena para apoiar o entregador, que pedia respeito de forma educada.

"Eu falei pra ele que essa era uma atitude que não era mais aceita. O que ele faz é pra se mostrar superior às pessoas", desabafou.

O contabilista Mateus Abreu Almeida Prado Couto, morador que humilhou Matheus Pires, foi levado à delegacia, onde manteve as ofensas. Seu pai, um bem sucedido empresário, afirmou à Polícia Civil que o filho é esquizofrênico, teria mostrado laudos que comprovam isso, e pediu compreensão. Segundo Matheus, não é a primeira vez que ele causa problemas a quem vem entregar comida a ele e vizinhos reclamam de seu comportamento com outros prestadores de serviço. Até agora, o único incômodo, além da delegacia, foi ter tido cancelada sua conta na iFood.

Os três Matheus representam um Brasil. Poderiam ser a mesma pessoa e, ao mesmo tempo, qualquer um de outros milhões que se lascam diariamente para trabalhar honestamente, desviando-se da violência e da arbitrariedade, sendo solidário e nadando contra a corrente do racismo e do sistema que o protege. Sistema alimentado por nós.

Já Mateus vocalizou outro Brasil, mesmo que talvez não tenha plena consciência disso. Um Brasil que se acha no direito de acusar um Matheus de roubo e puni-lo por sua cor de pele, um Brasil que acredita que pode ameaçar um Matheus por ele ter denunciado uma agressão, um Brasil que acha justo mostrar para trabalhadores negros e pobres o seu devido lugar. Em intragáveis mensagens de aplicativos, esse Brasil sentiu-se representado pelas palavras de Mateus.

Esse mesmo Brasil festejou quando Mateus chamou o entregador de analfabeto, quando o presidente do Superior Tribunal de Justiça, João Otávio de Noronha, chamou jornalistas que questionaram a soltura da esposa de Queiroz de analfabetos, quando o desembargador Eduardo Siqueira chamou o guarda civil que o multou por andar sem máscara de analfabeto.

Celebra quando um casal tenta dar uma carteirada contra o fiscal sanitário com a antológica frase "cidadão, não, engenheiro civil, formado, melhor do que você", quando o empresário Ivan Storel gritou a um policial que veio à sua casa checar denúncia de violência doméstica que ele "é um bosta, é um merda de um PM que ganha R$ 1 mil por mês, eu ganho R$ 300 mil por mês".

O Brasil dos Matheus é maior, sempre foi. O outro agride, demite e xinga, sendo, portanto, espaçoso e barulhento. Contudo, é menor, muito menor - e precisa ser lembrado disso.

No meio deles, há muita gente que acha um absurdo negros serem vítimas de discriminação como nos dois vídeos, mas não perde o sono com o fato deles serem superexplorados como trabalhadores, ocupando postos nos quais ganham menos ou têm jornadas muito maiores. É a tal parte "estrutural" do racismo, que acaba por embalar os nossos privilégios.

Talvez seja difícil de entender isso se você se espelhar em Mateus. Mas não se você se reconhecer em Matheus.

Leonardo Sakamoto - Jornalista


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