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Segunda-Feira 21.set.2020

Ano IX - Nº 411

Entrevista

'Está na hora de acabar com esse negócio de 'passar a boiada' nas questões ambientais', diz presidente da Ramboll Brasil

Para Eugenio Singer, à frente de uma das maiores consultorias de meio ambiente no mundo, país perde atratividade sem estratégia sustentável para a Amazônia

Postado em 11 de Agosto de 2020 - João Sorima Neto – O Globo

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Depois dos fundos de investimento estrangeiros e dos empresários brasileiros, a consultoria dinamarquesa Ramboll, uma das maiores do mundo em questões ambientais, presente em 35 países e com 17 mil funcionários, também recorreu a uma carta para denunciar a destruição da Floresta Amazônica.

Na carta, o presidente da Ramboll no Brasil, Eugenio Singer, critica a fragilidade da fiscalização na região, o relaxamento em exigências de proteção e as ameaças à população indígena. Singer afirma que o país precisa acabar com essa história de ‘passar a boiada’ nas questões ambientais e ter uma estratégia para se posicionar globalmente como líder nessa questão.

Singer avalia que, no período pós-pandemia, o país não terá recursos próprios para investir e precisará do dinheiro estrangeiro. Mas sem uma estratégia sustentável para a Amazônia, o país está perdendo cada vez mais a atratividade dos investidores.

 

Por que a Ramboll decidiu divulgar uma carta denunciando a destruição da Floresta Amazônica?

Queremos mostrar nossa preocupação com o desprezo com que o país está tratando a questão ambiental. Sofremos com o descrédito que o Brasil tem na Dinamarca e em outros países escandinavos. Não se consegue a atratividade para um investimento maciço dessas nações aqui. E no período pós-pandemia, o país não terá recursos próprios para investir e precisará do dinheiro estrangeiro.

Quanto o país perde em investimentos?

Perdemos bilhões de dólares. Temos quase 50 empresas dinamarquesas no Brasil, que investem através de agências de cooperação e fundos. Mas poderíamos atrair muito mais recursos se o país tivesse uma estratégia ambiental focada na sustentabilidade. Além disso, é preciso o alinhamento da diplomacia brasileira com o setor financeiro, no sentido de recuperar a reputação do país lá fora. É preciso parar de confrontar a França ou a Alemanha quando se trata de questões ambientais. Por isso, está na hora de acabar com esse negócio de ‘passar a boiada’ nas questões ambientais e flexibilizar tudo. Isso é perigosíssimo.

Qual a visão dos investidores escandinavos sobre a política ambiental brasileira?

É péssima. Todo mundo no exterior tem disposição de preservar a Amazônia. Talvez países que dependam muito dos alimentos produzidos no Brasil, como a China, não se importem com isso e achem que o país está uma bagatela, com o dólar valendo mais de R$ 5.

A recuperação da economia no pós-pandemia vai passar pela questão ambiental?

Sim. Sem essa pauta haverá restrição de investimentos. O Brasil é imprevisível. Tem recursos naturais que o colocariam como líder das discussões sobre mudanças climáticas. Tem uma indústria sólida, recursos para produzir alimentos sem desmatar. Já é o sétimo país em produção de energia eólica (do vento) e está entrando de forma competitiva em energia solar. Tem recursos hídricos abundantes. Mas falta inteligência para trabalhar em num modelo que proteja o ambiente e gere renda para a população amazônica. Nenhum governo conseguiu isso até agora. O Brasil é um gigante adormecido que perde oportunidades em cada crise global.

Quais são os principais erros do país em relação à Amazônia?

Visitei recentemente a cidade de Presidente Figueiredo, na Região Metropolitana de Manaus, e havia plantação de cana-de-açúcar. Não é essa a vocação da Amazônia. A floresta em pé é rentável. Ali a vocação é o extrativismo, a exploração da biodiversidade. Precisamos ter uma isenção de impostos na região que fomente o desenvolvimento. A agricultura de escala, como no caso da plantação de cana-de-açúcar naquela região, e o gado são vetores de destruição na região amazônica.

A questão indígena também preocupa os investidores?

O país tem uma imensidão de recursos para explorar, e não é preciso expulsar os indígenas de suas terras. Não é necessário fazer exploração mineral nas reservas indígenas. Na nova fronteira da mineração do país, em Juruena, no Mato Grosso, há cobre e níquel para abastecer as baterias de todos os carros elétricos do mundo. A questão do respeito aos direitos humanos também passa pelos indígenas. Precisamos aprender com eles.

O que o país precisa mudar para ter uma política ambiental com sustentabilidade?

Tem que usar a inteligência, congregar os demais países da Amazônia para explorar a biodiversidade da região. Proteger a floresta e ao mesmo tempo gerar renda. Como nas empresas, o país precisa ter uma política de governança para a Amazônia. Agregar e ouvir todos os envolvidos nessa questão. Não se pode excluir índios, missionários, agricultores dessa discussão. São eles que conhecem a região e seus problemas. Esse saber está sendo desprezado. A aprovação do marco do saneamento também ajuda porque há devastação urbana na região.

O que mais se pode fazer para evitar as queimadas e o desmatamento ilegal?

É preciso usar drones, satélites para identificar queimadas e treinar agentes locais, como pescadores, para agir com capacitação profissional nesses casos. Por exemplo, no vazamento de óleo no litoral brasileiro, em 2019, vimos a boa vontade de voluntários em limpar a área. Mas, sem preparo, muita gente se contaminou.

Qual a sua avaliação do vice-presidente Hamilton Mourão como presidente do Conselho da Amazônia?

Ele deu uma acalmada nos investidores. Não deixou a situação se deteriorar ainda mais. Parece aquele tipo de jogador que entra numa partida de futebol para mudar a situação. Ele está preparado para mudar o jogo, mas precisamos de uma nova política ambiental, com paz e tranquilidade.


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