Semana On

Quarta-Feira 21.out.2020

Ano IX - Nº 415

Poder

Queiroz depositou ao menos 21 cheques na conta de Michelle Bolsonaro, diz revista

Sem pé nem cabeça: o que disse Flávio Bolsonaro ao defender-se?

Postado em 07 de Agosto de 2020 - Congresso em Foco, Ricardo Noblat (Veja) - Edição Semana On

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Reportagem publicada na edição desta sexta-feira (7) da revista Crusoé mostra que o ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e ex-policial militar Fabrício Queiroz depositou pelo menos 21 cheques na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. As transações, feitas entre 2011 e 2018, somam R$ 72 mil.

Segundo a revista eletrônica, as transferências foram identificadas na quebra de sigilo bancário de Queiroz. A revelação contraria a versão dada pelo presidente Jair Bolsonaro de que o depósito no valor de R$ 24 mil, conhecido desde dezembro de 2018, era parte do pagamento de um empréstimo de R$ 40 mil que fizera ao ex-policial, seu amigo desde 1985. O repasse, na época, foi considerado atípico pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Queiroz e Flávio Bolsonaro são investigados pela suspeita de comandarem um esquema de apropriação de salário de servidores do gabinete do filho do presidente quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, a chamada “rachadinha”.

De acordo com a reportagem de Fábio Serapião, a quebra de sigilo mostra que Queiroz recebeu R$ 6,2 milhões em suas contas entre 2007 e 2018. Desse montante, R$ 1,6 milhão seriam salários recebidos como PM e como assessor na Alerj. Outros R$ 2 milhões teriam vindo de 483 depósitos de servidores do gabinete de Flávio Bolsonaro, o que reforça a suspeita do esquema de rachadinha. Outros R$ 900 mil foram depositados em dinheiro, sem identificação do depositante.

Michelle evita falar sobre o depósito de R$ 24 mil feito por Queiroz em sua conta. Já o presidente demonstrou irritação nas vezes em que foi questionado por jornalistas sobre o assunto. Ele disse que havia emprestado dinheiro ao amigo e que não tinha documento para comprovar a negociação.

Em dezembro de 2019, logo após uma busca e apreensão em uma empresa de Flávio Bolsonaro, o presidente afirmou a jornalistas que não tinha qualquer responsabilidade pelas movimentações financeiras do ex-assessor do filho. “O caso da minha esposa é a mesma coisa. Eu é que emprestei o dinheiro. Eu é que emprestei. Eu conheço o Queiroz desde 85. Foi meu soldado na brigada paraquedista. Se ele, se ele cometeu algum deslize, ele que responda. Não sou eu", disse.

A reportagem procurou o advogado Paulo Catta Preta, que defende Queiroz, para comentar as informações publicadas pela Crusoé, mas ainda não teve retorno. A reportagem tenta contato com a assessoria da primeira-dama e do presidente.

Na mesma entrevista de dezembro de 2019, Bolsonaro se irritou com a insistência de repórteres com o assunto. Um jornalista perguntou: "O senhor tem algum comprovante?". O presidente respondeu de maneira irritada: "Ô, rapaz, pergunta para a tua mãe o comprovante que ela deu pro teu pai, tá certo?". "Comprovante de tudo? Pelo amor de Deus. Você me empresta... Fica quieto! Você tem nota fiscal desse relógio que está contigo no teu braço? Não tem! (grita). Não tem. Você tem nota fiscal do teu sapato? Não tem, porra! Você tem do teu carro, talvez não tenha nota fiscal, mas tem lá o DUT, o documento. Tudo pro outro lado tem que ter nota fiscal e comprovante? Eu conheço o Queiroz desde 85. Nunca tive problema com ele. Pescava comigo. Andava comigo no Rio de Janeiro. Tinha que ter um segurança comigo. Andava com meu filho. Aí, de repente, se ele fez besteira, responda pelos atos dele", acrescentou.

Nem pé, nem cabeça

Se o presidente Jair Bolsonaro, como demonstrado tantas vezes, é capaz de atravessar a rua só para pisar numa casca de banana, seu filho Flávio, o Zero UM, também é. E foi o que fez ao dizer tudo o que disse em entrevista ao jornal O Globo, a primeira que concedeu fora de sua zona habitual de conforto.

Até então, ele só se dispunha a falar sobre a parceria com o ex-PM Fabrício Queiroz com veículos amigos de sua família, de preferência canais bolsonaristas no Youtuber, e redes de televisão que não lhe criassem problemas. E ainda assim a jornalistas confiáveis. Resultado: pisou na casca de banana e escorregou feio.

Admitiu que Queiroz pagava suas contas pessoais com dinheiro vivo. Mas não dinheiro extorquido de servidores do seu gabinete à época de deputado estadual no Rio. Dinheiro limpo dele, Flávio. Ocorre que o Ministério Público tem provas de que o atual senador poucas vezes meteu a mão no bolso para pagar suas dívidas.

Entre 2013 e 2018, Queiroz, então chefe do gabinete de Flávio, pagou pouco mais de 286 mil reais de contas pessoais de Flávio e da sua mulher, entre elas, parcelas do plano de saúde dos dois e mensalidades escolares dos filhos. E sempre em dinheiro vivo, sabe-se lá por que, se pagamento eletrônico é mais seguro.

Nos 15 meses anteriores a um pagamento de quase 7 mil reais, outra vez em dinheiro vivo, o casal não fez nenhum saque nas suas contas. Uma parcela de 16,5 mil da compra de um imóvel pelo casal foi paga pelo PM Diego Sodré, amigo e correligionário político de Flávio. E o que ele disse a respeito disso? Simples.

Um dia, Flávio e Sodré estavam num churrasco. Então Flávio lembrou que justamente naquele dia vencia mais uma parcela do pagamento do imóvel. Teria de abandonar o churrasco porque não tinha no celular o aplicativo que lhe permitiria pagar. Sodré pagou. E, depois, foi reembolsado por Flávio – em dinheiro vivo.

Quer mais ou basta?


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