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Segunda-Feira 21.set.2020

Ano IX - Nº 411

Coluna

Os discípulos de Tsunnama Nalaghoa

Do transe à modernidade dos saberes transcendentais. Ou, não...

Postado em 05 de Agosto de 2020 - André Miguel Lucidi

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Todo imbecil que se preza, ao iniciar um golpe só seu, sabe que necessita de quem o apoie. Tsnunnama Nalaghoa não era diferente. Tratou de, após sua primeira terapia transcendental a distância, procurar pessoas que pudessem divulgar seu nome. Foi seu primeiro cliente, que, depois de 40 mil reais gastos em terapia e ser elevado ao status de discípulo, acabou incumbido de espalhar seu nome e feito aos atormentados em quarentena. 

O discípulo estava versado em tudo que há de mais moderno em termos de diálogo transcendental. Sabia dizer ‘sim’, ‘eu acho que não’, ou ‘quem sabe, talvez’, quando o assunto era política, e quando perguntado sobre as dificuldades do dia a dia, aprendeu a responder ‘não tenho culpa disso, mas prometo elevar minha meditação ao problema, tão logo seja possível e a conjuntura das estrelas em união ao céu e a lua seja favorável’, o que impressionava.

As mudanças ocorridas nele chamaram, realmente, a atenção de pessoas que, assim como ele, não entendiam porra nenhuma de nada.  Um grupo resolveu fazer uma consulta coletiva, com preços atuais para fazer frente a cotação do dólar e o custo da gasolina. Horário marcado, cada um em seu lar, acessaram por seus computadores o link da reunião. Antes que o mestre surgisse, ficaram por quarenta minutos ouvindo a música Caneta Azul repetidamente, um mantra da modernidade musical psicodélico-meditativa.

Ao termino, todos com os ouvidos zunindo mais do que ouvido de bêbado com labirintite, puderam ouvir as primeiras palavras do mestre, ditas em um tom bastante sério. De seu computador, sem ver sua imagem, ouviram a um som bem mais que um três em ohm. Ouviram   um roncar profundo.

O discípulo tratou de chamar o mestre, que despertou e, ao lembrar que tinha atendimento marcado, tratou de emendar a conversa. Exortou a importância de um relaxamento profundo durante esse período, tendo como mantra uma música para pensar nos tempos atuais. Porém, o grupo desejava extrair mais dos conhecimentos do mestre.

Coube a uma mulher fazer a primeira das três perguntas as quais o mestre se propôs a responder.

_Guru, por que existe a mentira?

_A mentira existe para que outros possam justificar suas existências. Sem a mentira, não haveria o pescador, certos políticos, a imprensa, e não haveria esse seu guru aqui, para contradizer tudo. Sem a mentira, nem teríamos nascido. Perguntem aos seus pais e avós, eles compreenderão a pergunta, mas talvez não estejam preparados para dar a resposta. Em uma próxima conversa, eu te explicarei a diferença entre mentir e omitir a verdade. Pequena ipanemense praiana, quantos anos você tem?

_Vinte e cinco anos.

_Então, explicarei pessoalmente. Deixe seu telefone para mim. Qual a próxima pergunta?

_Mestre, não gosto de políticos, não gosto de imprensa, não gosto de pescadores. Isso é normal?

_Em sofisma te digo: quem não gosta de político e não gosta de imprensa, pode ser uma pessoa em plena sanidade. Já quem não gosta de pescar, jamais terá a sanidade plena. Um ser humano que foge do que pode ser seu grande refúgio, viverá sempre a mercê da tempestade. Então, melhor será sempre admitir para si mesmo que a mentira e a omissão da verdade existem, e saber lidar com isso.

_Guru, como isso pode ser verdade?

_Não convém que seja, mas é melhor aceitar assim mesmo. Vejam quantos acreditaram na mentira nas últimas eleições, por exemplo. A verdade sempre incomoda quem para ela não está preparado. Você se sente preparado para todas as verdades? Ninguém se sente assim, mas muitos aceitam uma mentira por conveniência.

Tsunama Nalaghoa até estranhou a própria resposta, mas achou que tinha se saído bem, uma vez que todos os três sorriam para ele. Logo depois, o silêncio tomou conta da conversa por alguns instantes, até que surgiu a última pergunta.

_Guru, como posso diferir a verdade da mentira?

Do alto de sua suposta sapiência, o mestre respondeu sem expressar emoções.

_Eu posso te ensinar a mentir muito bem, mas serão outros 5 mil reais. Me procure.

... E desligou o computador.


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