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Quinta-Feira 29.out.2020

Ano IX - Nº 416

Coluna

O cinema plural e vibrante de Alan Parker

O diretor conseguiu semear consciência em suas produções, explorando a pluralidade do cinema e deixando ao mundo um legado audiovisual vibrante e intenso

Postado em 05 de Agosto de 2020 - Clayton Sales

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Primeiro, um moleque com sua gaita enfadonha. Porta na cara. Depois, um andrógino com visual de Boy George. Porta na cara. Em seguida, um metaleiro de cabelos esvoaçados. Porta na cara. Uma multidão leu o anúncio no jornal de Dublin e se interessou nos testes para a banda que Jimmy Rabbitte estava montando. Até que ele consegue os músicos que formariam o grupo do qual seria empresário. Se o sucesso almejado viesse, estava aberta a porta para deixar a vida da periferia da capital irlandesa e dar a garotos e garotas da cidade a chance da prosperidade. Tudo caminhava bem. Os shows em bares lotavam, os integrantes estavam musicalmente entrosados e até a atenção de uma gravadora a banda chamou. Porém, a incompatibilidade de gênios alcançava um grau insuportável, as brigas chegaram à agressão física e o grupo acabou. O sonho de uma banda de soul music em Dublin desmanchava sob o melódico trompete da introdução de "Try a Little Tenderness". Baseado no romance de Roddy Doyle, "The Commitments - Loucos pela Fama" (1991) é uma comédia dramática musical sobre aspirações de pessoas comuns ganhando corpo e se esvaindo como o fim de uma canção. É também o trabalho mais premiado de Alan Parker, vencedor do BAFTA, principal estatueta do cinema britânico, em quatro categorias, entre elas, as de melhor filme e melhor direção. O cineasta inglês faleceu no dia 31 de julho de 2020.

Filho de um pintor de casas e uma costureira, Alan Parker vivia o cotidiano da classe trabalhadora de Londres, onde nasceu em 1944. A influência que o proletariado local exerceu sobre a formação da sua personalidade deixariam marcas em seu cinema, mas a sétima arte estava completamente afastada dos seus horizontes naquele período. Aos 18 anos, deixou o ensino formal para ingressar no mercado de trabalho. Contratado como entregador de correspondência de uma agência de publicidade, ganhou o incentivo de colegas para mostrar seus esboços de roteiros de anúncios. O resultado foi a ascensão ao posto de redator da agência, no qual criava textos para comerciais de televisão. Ele labutou em várias agências e em uma delas conheceu David Puttnam, que o animou a elaborar seu primeiro roteiro cinematográfico. Com o filme "Melody" (1971), Alan Parker era apresentado à sétima arte. 

Totalmente empolgado com o cinema, ele passou a se aventurar na direção, realizando o longa-metragem "No Hard Feelings" (1973), relacionado à Segunda Guerra Mundial, e dois curtas-metragens em 1974. No ano seguinte, dirigiu o telefilme "Os Evacuados" (1975), episódio de uma série da BBC. O trabalho que projetou Alan Parker como cineasta foi "Busgy Malone - Quando as Metralhadoras Cospem" (1976), paródia dos filmes de máfia no formato de comédia musical, com elenco composto por crianças. Alan Parker mostrava que a música seria uma das suas mais fortes assinaturas, como atestam produções posteriores como o musical "Fama" (1980), sobre jovens em busca do sonho de se tornarem bailarinos, "Pink Floyd -The Wall" (1982), produção multifacetada baseada no clássico álbum da banda inglesa de rock progressivo, e, claro, "The Commitments - Loucos pela Fama". Alan Parker tinha na música o combustível para inflamar suas realizações. 

Outra marca do diretor é a visceralidade inteligente que imprimia nas histórias dramáticas, como em "O Expresso da Meia-Noite" (1978), sobre um americano preso e torturado na Turquia e que tem numa arriscada fuga sua única salvação, e "Mississipi em Chamas" (1988), sobre o desaparecimento de ativistas negros pelos direitos civis no sul racista dos EUA. Porém, Alan Parker era um realizador que não se prendia a gêneros. Outra característica do seu trabalho era a habilidade de transitar por várias gramáticas dentro do mesmo filme e sua destreza em realizar longas-metragem fora do do eixo drama-comédia-musical. Exemplos disso são o suspense "Coração Satânico" (1987), sobre a investigação do sumiço de um cantor no contexto da magia negra ambientado em Nova Orleans (EUA), e a cinebiografia musical "Evita" (1996), em que a cantora Madonna interpreta o papel de Eva Perón, a venerada primeira-dama da Argentina. Alan Parker era um verdadeiro alquimista do cinema. 

O título de Comandante da Ordem do Império Britânico transformou o nome do cineasta em Sir Alan Parker, mas essa foi apenas uma de suas muitas honrarias e prêmios.Ele foi indicado a oito BAFTAs, três Globos de Ouro e dois Oscars, além das estatuetas honorárias pelo conjunto e relevância de sua obra cinematográfica. O diretor e roteirista também fundou a Associação de Diretores da Grã-Bretanha e teve uma profícua atividade como professor em escolas de cinema pelo mundo. Depois de dirigir "A Vida de David Gale" (2003), Alan Parker se aposentou da direção de filmes, trabalhando esporadicamente como produtor executivo. Em 2008, ele veio ao Brasil participar do júri de um festival internacional de cinema em Manaus e aproveitou a estada no país para conhecer a exuberância da natureza e cultura amazônicas. Alan Parker degustava os frutos da carreira vitoriosa que construiu. 

Se o fracasso não tivesse sido o destino de Jimmy Rabbitte, ele teria os méritos de Alan Parker. Jimmy Rabbitte queria unir as diferenças e transformá-las em soul music. Alan Parker conseguiu aglutinar a diversidade do cinema e a transformou em arte. Jimmy Rabbitte queria uma banda arrasadora. Alan Parker conseguiu ser torrencial em seus filmes. Jimmy Rabbitte queria que os The Commitments expressassem os sentimentos da classe trabalhadora. Alan Parker conseguiu semear consciência em suas produções, explorando a pluralidade do cinema e deixando ao mundo um legado audiovisual vibrante e intenso.


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