Semana On

Terça-Feira 22.set.2020

Ano IX - Nº 411

Coluna

O bailar de corpos dissonantes

Quando corpos dissidentes proclamam seus lugares de dança

Postado em 05 de Agosto de 2020 - Regis Moreira

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Nas composições dos possíveis, que nos tocam no bailar da vida, nossos corpos dito dissidentes LGBTQIA+ estão no mesmo salão mundo com os corpos ditos deficientes, dos ditos loucos, dos negros, das mulheres, dos pobres, dos gordos, das mulheres, das crianças, dos idosos, dos indígenas e outros mais... nas classificações que tentam imprimir verticalmente e impiedosamente sobre nossos corpos e discipliná-los.    

Pensando um conceito de corpos diz-sonantes, ao invés de dissidentes. Pensando nos acordes de um arranjo que nos acorde. Numa composição musical em que acordes sonantes necessitam dos dissonantes, já que a beleza da composição se faz com eles. Na estética musical, composições que conseguem combinar acordes consonantes e dissonantes, soam muito mais belos.  O som sai das cordas quando elas se esticam. Só aí é possível delas se extrair os acordes. Até mesmo a equilibrista, só consegue andar na corda bamba, quando ela está esticada, como as cordas que seguram a lona do circo... 

O que pode um corpo? O que pode um corpo diz-sonante? O que podem corpos diz-sonantes? Compor somente com outros corpos diz-sonantes? Não formariam acordes necessários para uma composição estética de outros mundos possíveis. A estética do possível necessita de todos os corpos, sonantes, diz-sonantes... silêncios, contextos, territeorialidades, desterritorialidades... É preciso considerar que o corpo diz-sonante, ora tbem é consononante, ora não. É consonante no desejo, é consonante na produção de vida, nas imanências existênciais, porvires, sentimentos...

E de novo à teoria corpos/música, a composição só ganha sentido quando toca... Quando toca no sentido de execução sonoro. Quando toca no sentido das afetações. Quando toca, no sentido do toque tátil. Quando toca, no sentido abrigo. Corpos diz-sonantes são corpos tocáveis. E se toca, danço. E se dançamos, os corpos se tocam. É necessário instaurar em nós novos modos de existência, num movimento arte, por isso corpos música, por isso danças coreográficas. Não aquelas disciplinares feito o balé ou outras mais, mas aquele movimento corpo que vem do seu essencial, que seja bio-dança, os modos de se mover, de se co-mover, o movimentar dos corpos, a partir da musicalidade e movimento genuíno de cada um, cada uma. De cada corpo, de cada corpa.

O som e movimento genuíno de cada corpo/corpa, são diz-sonantes ao que se considera belo, ao que se considera música, ao que que considera dança... Não estou falando de corp@s sonantes dançantes a partir de amarravas normativas pré-estabelecidas por uma arte cuja corda, ao invés de soar, amarra. Estou falando de cordas que soam, dos couros estirados, que produzem a batucada.

Essa consonância genuína e singular de cada corp@, que aos olhos normativos, disciplinadores, reguladores, classificatórios, talvez os enquadre como diz-sonantes, com menor valor, des-concertados, des-afinados, des-medidos, fora da ordem estabelecida, dos enquadramentos e expectativas. E por isso es-tigmatizados, quando deveríamos ser somente matizados, sem nos darmos conta que o estigma é um sinal natural d@ corp@. Qual corp@ que não possui cicatriz? (só da bailarina do Chico). Mas nós, dançadores da vida, começamos pelo umbigo e vamos produzindo outras marcas, outros estigmas. Portanto o normal é ter estigmas, marcas, diz-sonâncias, não o contrário. A normalidade imposta como padrão é branca, elitisita, eurocênctrica, colonizadora, destituidora de existências, de direitos, de possibilidades. A norma é hetero-cisgênera, é calcado no domínio e controle dos corpos, para o fim de perpetuação do poder, do capital, do neo-liberalismo. Porém, @s corp@s que ousam romper as amarras das cordas normativas, ou que rompem essas amarras pelo simples fato de existirem enquanto raça, gênero, classe ou as tais ditas “deficiências” ou as tais ditas dissidências, esses corpos podem aproveitar das cordas como dispositivos de ressignificação, de produção de outras sonoridades, que não sejam as amarras das negações que lhes foram impostas.

Esses novos sons são produzidos a todos instante, porém nem sempre são ouvidos. E quando ouvidos, nem sempre são considerados, num processo de reprodução do poder hegemônico que está impregnado em nosso DNA, mas que necessitamos romper a matriz deste DNA, por uma arte de instaurar novos modos de existência, como nos propõe Peter Pál Pelbart.

Isso exige de nossas corpas processos de rebeldias, resistências, insurgências, subversões, quebras de paradigmas, numa nova dança, cujo movimento não seja robotizado, não seja copiado, não seja aquele ensinado nas escolas, não seja copiado do que comumente é considerado belo, mas que seja movimento essencial de cada um, e que essa estranheza bela, rompa conceitos estéticos pré-establecidos.

Que essas corpas consonantes/diz-sonantes, sejam sonantes, a partir da composição necessária para novas estéticas dos porvires, a partir das sonâncias dos corpos que se produzem em ato pela vida, nas grafias do coração. A partir das potencializações das nossas precariedades, das nossas fragilidades: força motriz para produções de dobras, furos, linhas de fuga.  Como declara Donna Haraway, em seu Manifesto Ciborgue “Por que nosso corpo deveria terminar na pele ou, na melhor das hipóteses, ser encapsulado por pele?”  

Quais são as bocas que consideram e classificam as corpas como diz-sonantes? Nunca pelas próprias bocas, mas pelas bocas da mídia hegemônica, da medicina, das leis, do sistema jurídico, dos europeus, dos norte-americanos, do norte do mundo, dos brancos, colonizadores, burgueses... Para os diz-sonantes, o que não soa bem, não são suas corpas, mas o que dizem sobre essas corpas. A diz-sonância está ligada à classificação do corpo que fala, da fala que vale, das corpas que valem. Quem pode trabalhar? Quem pode viver? Quem pode respirar? quem merece castigo? Quem merece morrer? Quem representa despesa pro Estado? Quem é a corpa pecadora?

As bocas das corpas decoloniais podem e devem falar por si mesmos. Mas por quais meios, quais veículos, se os de massa estão na mão dos dominantes? Por isso a necessidade de tensionar o domínio nos mais diversos campos, com a produção de novas narrativas: nas mídias radicais, no midiativismo, no midialivrismo, na comunicação popular, comunitária, colaborativa, participativa, democrática. Nas medicinas outras tantas. Nos humanos direitos. Nos direitos à uma saúde integral, à seguridade social, à participação política, na política dos acessos, em todos os campos dos direitos.

Qual o valor do valor da vida? Numa sociedade que normaliza que travestis e mulheres transexuais morram aos 35 anos. Que normaliza quem será escolhido para respirar no tratamento da Covid-19. Quem pode respirar nas abordagens policiais. Quem pode viver e quem deve morrer? Como nos alertou Judith Butlher, “De quem são as vidas consideradas choráveis em nosso mundo público?”

A naturalização diante das pessoas mortas pela Covid-19, corpes que não são dignas de luto, pois estavam mesmo condenadas à morte. Corpes de idosos, portadores de comorbidades, pobres, pretos, favelados, quilombolas, presidiários, indígenas, mulheres, trans, travestis... corpes que já não possuíam uma vida vivível pela maquinaria do capital, que resiste, insurge pela própria sorte ou pelo poder dos movimentos sociais. Corpes negligenciadas pelo poder público hegemônico, higienista, fascista, destituidor de direitos, massacrador de sonhos e novos possíveis.

O Brasil é o país que mais mata a população LGBTQIA+ no mundo! O país que mais mata a população de Transexuais e Travestis no mundo! O país que mais mata os ativistas de  movimentos sociais no mundo! Um dos países que mais matam mulheres por feminicídio no mundo! Há uma naturalização das mortes destes corpes. Não há, via de regra, um luto, um espanto diante da violência praticada todos os dias. Envelhecer seria um sonho, de vidas que lutam para se manter vivas desde sempre, da hora que acordam até a hora que se deitam. A ameaça de morte é uma constante e a morte social vai implicando em destituições de inúmeros sonhos, inclusive o de envelhecer. E quando envelhecem, esses corpes são  invisibilizades e jogadas à própria sorte. Não é possível que as pessoas durmam em paz, sabendo que a expectativa de vida de uma mulher transexual ou travesti é de 35 anos!

Que corpes diz-sonantes possam viver plenamente, numa composição de arte, que instaure modos de existência diversos e plurais. Para além dos terrorismos sexistas, feminicistas, classistas, machistas, racistas, LGBTfóbicos, transfóbicos, coloniais.

Pra que mundo queremos voltar pós-covid-19? De qual novo normal estamos falando. Normalizamos a violência e o terror contra corpes dissonantes? É pra esse mundo de violência institucionalizada, é pra essa atmosfera de violência do “submeta-se ou morra” (Butler), que voltaremos? 

Declaramos que continuaremos a resistir, com produções de vida múltiplas e diversas! Ali, onde as normatizações só enxergam fragilidades, em seu sentido pejorativo, revelaremos que nossas fragilidades são também nossas potências! Viveremos corpos-música, pelas grafias do coração, diz-sonantes, num bailado de corpos-movimento, decoloniais, deslocadores e subversivos.  

Régis Moreira - Jornalista e Gerontólogo, docente da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e pesquisador do Observatório Nacional de Políticas Públicas e Educação em Saúde


Voltar


Comente sobre essa publicação...