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Terça-Feira 01.dez.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

O Golpe do Candidato Espantalho

Será que a democracia dos EUA sobreviverá?

Postado em 05 de Agosto de 2020 - Rodrigo Amém

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Você provavelmente nunca ouviu falar de Matt Smith. Ele é um repórter para um noticiário local em Wisconsin, Massachusetts, o que seria como trabalhar para a sucursal do SBT em Dourados. Mas, ao invés de usar o link ao vivo para cobrar operação tapa-buraco ou dar receita de arroz com pequi, Smith resolveu fazer um troço ousado: jornalismo investigativo.

Depois de seguir algumas pistas e ficar de tocaia na frente do prédio da Tribunal Eleitoral da cidade, ele capturou, em vídeo, a advogada Lane Ruland entrando apressada, papéis na mão. O jornalista a interpelou, perguntando sobre o propósito da visita. Lane respondeu: "nada a declarar" e apertou o passo. 

Matt Smith teve acesso aos documentos protocolados pela advogada. Eram assinaturas pedindo a inclusão de Kanye West na cédula eleitoral para presidente dos EUA. 

A lei eleitoral americana parece ser deliberadamente criada para confundir o eleitor e alienar a participação popular. Funciona mais ou menos assim: qualquer um pode ser candidato à presidência, desde que consiga um número mínimo de assinaturas de apoio em cada estado. Desta forma, pode acontecer de termos candidatos à presidência diferentes em cada parte do país. Faz sentido? Não, mas acho que essa é a ideia. 

Kanye West é famoso. Rapper, casado com a Kim Kardashian (que está tentando colocá-lo numa clínica psiquiátrica para tratar de seus distúrbios bipolares), West quer ser presidente dos EUA. Também já quis que Mark Zuckerberg, do Facebook, lhe desse um bilhão de dólares para uma start up. E teve aquela vez que quis interromper o discurso da Taylor Swift no VMA. Ou seja, ele quer, mas não significa que possa, deva ou que o resto do mundo ache uma boa ideia. 

Preparado para a reviravolta?

Lane Ruland não trabalha para o Mr. Kardashian. Ao que tudo indica, não é nem sua apoiadora, mas advogada regional do partido republicano. Ou seja: trabalha para Donald Trump. Mas por que o partido Republicano está gastando dinheiro e tempo colocando outros candidatos na cédula numa zona eleitoral tão competitiva quanto Massachussets?

Porque é só assim que a direita americana ganha eleições. 

Levando em consideração a alta rejeição de Trump, a única chance que tem de vencer é dividir o voto da oposição. Se parte considerável do eleitorado jovem, por exemplo, preferir votar no rapper famoso aos velhos políticos, faz um favor a Trump. Ele não precisa ganhar eleitores. Só precisa que Joe Biden, o candidato democrata, não cresça. 

É um truque tão descarado que já é praxe no repertório dos direitistas gringos. Esses candidatos-espantalhos, que servem apenas para dividir a oposição e consumir tempo na mídia, são os maiores aliados do status quo. Cada segundo gasto com as loucuras de Kanye West é um segundo a menos de holofotes para o real adversário. 

A questão é que foi justamente como espantalho que Trump deu os primeiros passos na política. Nos anos 90, toda vez que precisava de publicidade, chamava a imprensa para dizer que estava entrando na corrida eleitoral. 

O problema é que, às vezes, o plano dá certo demais. A campanha de Trump em 2016 era pra ser outro golpe publicitário. Uma tentativa de aumentar seu cachê no "The Aprentice". Donald teria saído nas primárias, não fosse a sede da mídia em explorar suas afirmações esdrúxulas, a falta de apelo dos demais candidatos republicanos e a mão forte dos grandes amigos, Roger Stone e Vladmir Putin. Foi assim que o menos inteligente dos personagens de OZ virou o homem mais poderoso do mundo e o conservadorismo americano ficou refém de um extremista fanfarrão.

Mas se vocês acham que o "candidato-espantalho" que hoje ocupa a Casa Branca vai aceitar de boa uma eventual derrota nas urnas, preparem-se para mais uma reviravolta em novembro. Que ano, senhores. Que ano.


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