Semana On

Terça-Feira 22.set.2020

Ano IX - Nº 411

Coluna

Os absurdos se sucedem

Idelber Avelar fala de golpismo, fakes, literatura mexicana e otras cositas más

Postado em 05 de Agosto de 2020 - Idelber Avelar

Foto: Ueslei Marcelino - Reuters Foto: Ueslei Marcelino - Reuters

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Os absurdos se sucedem com tal velocidade que a gente se esquece de marcar eventos ou matérias importantes. Esta não circulou o suficiente nos últimos dias, me parece, e eu quero fazer minha parte para que ela circule.

Anotem aí: no dia 22 de maio deste ano, Jair, o Minúsculo, tagarelou com Ministros sobre fechar o STF, tal era o seu pânico com a possibilidade de que seu celular fosse apreendido. Os cúmplices do golpista são Walter Braga Netto (Casa Civil) Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), Augusto Heleno (Segurança Institucional), André Mendonça (Justiça), Fernando Azevedo (Defesa) e José Levi (AGU).

Planejaram golpe com o Ives Gandra fazendo o papel de Perito Molina do Direito que lhe cabe -- o de redigir o que precisam os golpistas para montar suas aventuras.

Golpistas vagabundos.

TRÁFICO DE MENTIRA

Uma notícia interessante em todos os sentidos. Havia especulação sobre um acordo informal entre Zucka e Trump. Na quinta (6), pela primeira vez, o FB removeu uma publicação do supremacista branco, por traficar mentira.

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Este vídeo inclui falsas alegações de que um grupo de pessoas é imune à covid-19, o que é uma violação de nossas políticas sobre desinformação em relação à covid", disse o porta-voz do Facebook, Andy Stone, segundo o jornal norte-americano The Washington Post.

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Repetindo mais uma vez: os dois maiores países das Américas são governados por criminosos seriais, assassinos, ativos colaboradores da morte.

O MELHOR DO ROMANCE MEXICANO

Mapa com 12 estações do fundamental e do melhor que se fez no romance mexicano nos últimos 100 anos. Uns poucos estão disponíveis em português. Em ordem cronológica:

Los de abajo (1916), de Mariano Azuela, foi escrita do outro lado da fronteira, em El Paso, EUA, enquanto o veterano villista se recuperava de uma derrota. Inaugura “la novela de la Revolución,” que duraria pelos próximos 40 anos, até Rulfo. É ágil, de capítulos breves e muita ação. Não é idealizadora da revolução e mostra a coisa em tintas sanguinárias e assustadoras. Saiu no Brasil como “Os Rebelados” (eu preferiria “Os de baixo” mesmo).

Pedro Páramo (1955), Juan Rulfo. Romance breve, praticamente uma novela, que desmonta sozinho 40 anos de narrativa da revolução. Faulkneriano na técnica, mas encharcado de história mexicana, ele conta a história de um filho que volta a uma cidade fantasma em busca de um pai que pode estar morto. E aí os mortos vão se acumulando até o leitor suspeitar que ...

Balún Canán (1957), Rosario Castellanos. Ao contrário dos outros romances indigenistas, aqui a voz enunciadora é indígena mesmo, não porque a autora o seja, mas porque o relato está estruturado a partir das retóricas e das temporalidades maias. Rulfo acaba com o romance da Revolução Mexicana, Castellanos acaba com o romance indigenista. Assim procedem, com frequência, grandes autores. Chegam matando um gênero.

Oficio de Tinieblas (1962), Rosario Castellanos. Na minha estima, este continua sendo o maior romance mexicano de todos os tempos. A trama está resumida e a primeira página está traduzida ao português no post de ontem.

La noche (1963), de Juan García Ponce, é o que melhor traduz o lugar desse escritor fino, cuidadoso, batailleano e fascinado com o excesso. Ponce foi o introdutor do Nietzsche sessentista ao México, traduziu Klossowski e Bataille ao espanhol, viveu toda a contracultura e escreveu relatos de amor fulminantes, em geral na longitude novela, 90 páginas. Eu poderia também ter escolhido El libro (1978), uma história de amor em uma relação pedagógica.

Los recuerdos del porvenir (1963), Elena Garro. Talvez o experimento vanguardista mais arrojado de toda a forma romance no México. Múltiplas vozes narrando, múltiplos tempos coexistindo, e uma trama que envolve os largados pela Revolução, derrotados e rememorando no caminho.

Farabeuf, o la crónica de un instante (1965), Salvador Elizondo. Farabeuf é um cirurgião francês real, do século XIX, autor de um manual de técnica cirúrgica. A obra é obcecada, minuciosa como um bisturi, com palavras exatas. É de tamanho estándar (220 páginas), mas de densidade absurda. As frases são de uma perfeição quase insuportável. O relato começa com uma amputação e segue em um mergulho na ciência positivista, no aparato hospitalar e na tortura. Farabeuf traduziu-se a inglês, francês, alemão, italiano e até polonês. A edição brasileira é da Amauta. Elizondo é o meu escritor mexicano favorito e tudo o que escreveu transitou entre o excelente e o excepcional: poesia, conto, romance, crônica, jornalismo.

Terra Nostra (1975), Carlos Fuentes. Conhecem-se outros relatos de Fuentes, mas esse é o grandioso: uma saga de 800 páginas com a história do México e dos embates coloniais em específico. O livro é tão enlouquecido que tem uma lista de uns 60 “personagens principais” (hahaha) na primeira página.

Palinuro de México (1993), Fernando del Paso. Também no formato saga gigante, só que claramente surrealista. Palinuro é estudante de medicina e adquire saberes que lhe permitem saltar de época em época em uma viagem que vai documentando sobretudo a linguagem, o discurso de cada tempo. Não é ficção científica, mas não é histórico tampouco. E é o grande representante do romance humorístico nessa lista.

Porque parece mentira, la verdad nunca se sabe (1999), Daniel Sada. Talvez meu título favorito em toda a história do romance, este é difícil de se descrever. É como um Guimarães Rosa que tivesse aprendido várias línguas indígenas, para manter delas palavra nenhuma, apenas formas sintáticas, e depois de tomar várias drogas escrevesse frases serpenteantes com a precisão de um Saer. Reputo este o livro em espanhol mais difícil que já encontrei na vida, e não posso dizer ter terminado as 600 páginas, embora tenha lido NO livro ao longo de anos. Como Finnegans Wake, Porque parece mentira, la verdad nunca se sabe não é um livro que se leia; é mais do tipo livro NO QUAL se lê. O relato é simples: a viagem de um caminhão que carrega uma pilha de cadáveres de camponeses assassinados em um desses massacres pré-eleitorais no México.

2666 (2004), Roberto Bolaño. Sim, Bolaño nasceu no Chile e vivia na Espanha quando o escreveu, mas esse é um romance mexicano em todos os sentidos. Também romanção gordo, de 1.100 páginas, mas um gordo bem diferente: são 5 romances que Bolaño inclusive dispôs que se publicassem separados, porque lhe preocupava a segurança financeira do filho. É o romanção definitivo sobre a guerra às drogas na fronteira mexicano-americana e os rumos da arte/ literatura do nosso tempo. É um relato de peripécia, e lê-se de forma bem mais ágil que os outros gordões da lista.

La transmigración de los cuerpos (2013), Yuri Herrera. Yuri é o melhor escritor mexicano de sua geração, talvez o maior vivo hoje, porque é um grande leitor. Sua prosa condensa camadas e mais camadas de estilos literários em frases rápidas, que sempre avançam a história. Essa aí é imperdível: uma epidemia paralisa o país e força uma personagem, La Tres Veces Rubia, a conhecer El Alfaqueque, a quem ela lança em uma peregrinação detetivesca rumo às origens da praga.

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Estimo que com esses 12 livros ai vocês se introduzem ao que de melhor fez o México na forma romance, desde que Azuela acompanhou Pancho Villa nos primeiros tiros do povo sublevado no deserto.

AVISOS

Dos ensaístas que vêm falando há 20 anos sobre pandemias que poderiam moldar o mundo pelo futuro próximo, o que mais curti ler foi Jacques Attali, um economista que pensa como filósofo. O conceito chave aqui é o de economia da vida.

“Economia da vida” pressupõe o que já sabe quem está olhando a coisa com calma: os impactos da pandemia ocorrem em uma temporalidade alongada, que ficarão conosco. A economia da vida designa aqueles setores da economia que tornam possível ou potencializam a vida tal como ela tenderá a ser: saúde, educação, comida, agricultura, higiene, cultura digital, energias renováveis.

Por oposição a isso, há setores que tenderão a ser economia-zumbi: aviação, petróleo, turismo, moda, plásticos (sobre estes cabe uma longa discussão, imagino) e até têxteis (sério, gente: quem precisa de tanta roupa agora?).

A discussão é tensa e difícil de se fazer em redes sociais, porque vivemos em um registro no qual a autoestima das pessoas está acoplada à sua profissão, e esta é entendida como destino de vida. Vai ter que deixar de ser, para algumas profissões. Se você é piloto, meu nego, vai ser duro acoplar autoestima à sua habilidade profissional.

Uma área que me é muito cara, as artes, em toda a sua variedade, está muito mais próxima da economia da vida do que da economia zumbi, na medida em que quase todas e todos descobrimos, nesta pandemia, que ter histórias e artes e imagens e sons e filmes para consumir é bem mais vital que ter, digamos, 50 pares de sapatos ou 50 ternos ou 50 vestidos. Mas boa parte dos artistas de hoje será ceifada por não sobreviver digitalmente. Aqui há algo possível de se fazer: potencializar a sobrevivência de um máximo de formas artísticas neste outro mundo que adentramos.

Nem tudo é economia da vida ou economia zumbi, claro. Há um vasto campo intermediário, que pode tender para cá ou para lá segundo a circunstância. Mas o rumo normativo para a sobrevivência é claro: há que se investir na economia da vida.

DICA DE BOM JORNALISMO

Matéria de Diana Carvalho e Fernanda Schimidt que deve ser lida e circulada para que se entenda de vez: uma verdade indiscutível do contexto pandêmico é que ele acentua desigualdades que já existiam antes. Podemos combinar aqui que isso é indiscutível? Desigualdades de classe, de etnia, de gênero, de nacionalidade, de cor, de origem geográfica ...

Teremos que lidar todas e todos com isso, porque é fato patente e inegável. Esta matéria ajuda a entender.

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"Em favela não tem diferença, o cano do esgoto anda ao lado do cano de água, esses canos se embolam ali no meio, e a água se contamina. Esse é o lado mais grave dessa desigualdade. A contaminação da água causa inúmeras doenças para quem convive diariamente com a falta do básico para se ter uma condição de vida digna", explica Monteiro.

A desigualdade é ainda maior quando se leva em conta o recorte geográfico. No Norte do país, apenas 57,05% da população é abastecida com água potável, enquanto que na região Sudeste 91,03% da população conta com esse serviço.

A cinco minutos do centro de Belém, capital do Pará, há um caso emblemático. Casas de palafita construídas sobre as águas do rio que se desemboca na Baía do Guajará são ligadas entre si por pontes estreitas de madeira para formar a Vila da Barca, comunidade com seis mil pessoas. Ali, não há esgotamento sanitário. Os resíduos são despejados na lama, o que contamina o rio e a água que sai da torneira dos moradores."


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