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Sábado 19.set.2020

Ano IX - Nº 411

Mundo

Pandemia causou maior interrupção da educação da história, diz ONU

Reabertura de escolas pode ser feita com sucesso, mas máscaras e distanciamento não bastam, diz estudo britânico

Postado em 04 de Agosto de 2020 - DW, Rafael Garcia (O Globo) – Edição Semana On

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Com escolas fechadas em mais de 160 países em meados de julho, a pandemia de covid-19 levou à maior interrupção da educação da história, afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres. O fechamento afeta mais de 1 bilhão de estudantes.

Em mensagem de vídeo, Guterres afirmou que pelo menos 40 milhões de crianças em todo o mundo perderam meses importantes de educação "em seu crítico ano de pré-escola".

Como resultado das medidas de fechamento necessárias, ele alertou que o mundo enfrenta "uma catástrofe geracional que poderá desperdiçar um potencial humano incalculável, minar décadas de progresso e exacerbar desigualdades enraizadas".

Mesmo antes da pandemia, segundo o chefe da ONU, o mundo já enfrentava "uma crise de aprendizado", com mais de 250 milhões de crianças fora da escola e com apenas um quarto dos alunos do ensino médio nos países em desenvolvimento terminando a escola "com habilidades básicas".

Uma projeção global que abrange 180 países, realizada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e organizações parceiras, estima que cerca de 23,8 milhões de crianças e jovens, do ensino pré-primário ao nível universitário, correm o risco de abandonar ou não ter acesso à educação no próximo ano devido ao impacto econômico da pandemia.

"Estamos num momento decisivo para as crianças e os jovens do mundo", disse Guterres. "As decisões que governos e parceiros tomam agora terão um impacto duradouro em centenas de milhões de jovens e nas perspectivas de desenvolvimento dos países nas próximas décadas."

O secretário-geral aprensentou um relatório elaborado pela ONU para analisar o impacto do fechamento das escolas. O texto afirma que "a perturbação incomparável da educação" pela pandemia está longe de terminar e observa que mais de 100 países ainda não anunciaram uma data para a reabertura das escolas.

Guterres clamou por ação dos governos. "Uma vez que a transmissão local da covid-19 esteja sob controle, levar os alunos de volta às escolas e instituições de ensino o mais seguramente possível deve ser prioridade", disse o chefe da ONU.

Na Alemanha, o estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental foi o primeiro a iniciar o novo ano letivo em meio à pandemia. Pela primeira vez desde o fechamento das escolas, em meados de março, todos os 152.700 alunos do estado voltaram ao ritmo normal das aulas na segunda-feira. Diversos outros estados deverão fazer o mesmo dentro das próximas duas semanas.

Mas o sindicato alemão de professores VBE classificou como "ilusão da política" a retomada das aulas nos mesmos moldes pré-pandemia. Muitos professores não estão à disposição das escolas, porque pertencem a grupos de risco. "Apesar do recrutamento de recém-chegados à profissão e da reativação de professores já aposentados, os recursos humanos são insuficientes", afirmou o presidente do VBE, Udo Beckmann, em entrevista ao diário alemão Die Welt.

No Brasil, as aulas presenciais estão permitidas em três estados. No Amazonas, creches, escolas e faculdades da rede privada estão autorizadas a funcionar desde 6 de julho. No Rio de Janeiro, aulas presenciais na rede particular são facultativas e estão autorizadas desde segunda-feira, mas os professores decidiram manter a greve iniciada em julho. E no Maranhão, a retomada foi iniciada na segunda-feira com alunos do terceiro ano do ensino médio.

Outros nove estados e o Distrito Federal têm propostas de data para retornar às atividades presenciais. São eles: Acre, Alagoas, Ceará, Pará, Paraná, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e São Paulo.

Em resposta a um ofício enviado por um grupo de sete parlamentares solicitando dados sobre o ensino à distância após a interrupção das aulas presenciais, o Ministério da Educação (MEC) afirmou que "não dispõe de informações acerca do número de alunos da rede pública de ensino do país que estão tendo teleaulas e aulas online até o momento".

O MEC alegou que apenas 71% das redes municipais responderam a uma pesquisa feita pelo Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), e que por isso não possui dados suficientes para a medição.

Reabertura de escolas, só com máscaras e distanciamento

A reabertura de escolas à medida que a pandemia de Covid-19 desacelera é algo que pode ser feito com sucesso, mas requer a testagem dos casos suspeitos e o rastreamento da maioria dos contatos dos infectados. Essa é a conclusão de um estudo liderado pela University College de Londres, que busca orientar a operação de retomada das aulas no Reino Unido.

Apesar de ter sido ancorado na realidade britânica, o trabalho traçou vários cenários hipotéticos que podem ajudar a orientar os processos de reabertura em outros lugares.

“O relaxamento do distanciamento social no Reino Unido, que inclui a reabertura de escolas, precisa ser acompanhado de testagem de indivíduos sintomáticos e de rastreamento de contatos efetivo em grande escala, seguido de isolamento dos casos infectados”, escreveram os pesquisadores, liderados pela epidemiologista Jasmina Panovska-Griffiths.

O grupo detalhou suas conclusões, obtidas por meio de simulações matemáticas de epidemia, em um artigo publicado ontem pela revista científica “The Lancet Child & Adolescent Health”.

Exemplo australiano

Com aumento da demanda de gestores públicos por informações de como manter as escolas abertas de maneira segura, a publicação divulgou também os resultados de um estudo que monitorou 24 escolas na Austrália, que não chegou a fechar os estabelecimentos por não ter sido tão afetada pela epidemia.

Neles, os cientistas descrevem um caso de sucesso em evitar que salas de aula se tornassem centros de disseminação do novo coronavírus, mas implementando amplas medidas de contenção, indo além do protocolo de higiene e distanciamento social.

“A testagem efetiva e as estratégias para lidar com os contatos dos casos da doença foram associadas a baixos números de comparecimento de infectados, e crianças e professores não contribuíram significativamente para a transmissão da Covid-19”, escreveram os cientistas australianos, liderados pela pediatra Kristine Macartney, da Universidade de Sydney.

Apesar de o estudo australiano ter uma mensagem mais otimista que a do britânico, ambos estão calcados nos princípios de testagem e rastreamento de contatos.

Segundo os pesquisadores, o objetivo do estudo foi o de municiar gestores públicos de qualquer país com informações para planejamento.

“Nosso estudo não deve ser usado como motivo para manter as escolas fechadas por medo de uma segunda onda, mas como um grande chamado à ação para aprimorar medidas de controle de infecção, testagem e rastreamento para que possamos devolver as crianças às escolas sem interromper sua aprendizagem de novo por longos períodos de tempo”, afirmou o sanitarista Chris Bonell, da London School of Hygiene & Tropical Medicine, coautor do trabalho britânico.

A ideia, dizem os pesquisadores, é planejar que a reabertura das escolas ocorra só depois que recursos de vigilância epidemiológica sejam implementados.

Especialistas, porém, afirmam que a mensagem desses estudos para a realidade brasileira não é muito positiva. O Reino Unido está num momento mais favorável de evolução da pandemia para reabrir as salas de aula, e tem recursos para fazer o rastreamento de contato e os testes, diferentemente de estados como São Paulo e Rio, que já ensaiam a retomada das aulas.

“Está faltando aqui a gente fazer saúde pública. O básico da saúde pública é identificar o caso, isolá-lo, identificar os contatos, monitorá-los e colocar em isolamento também quando for preciso”, afirma o infectologista Mario Roberto Dal Poz, professor da Uerj, que acompanha a discussão sobre o calendário das escolas no Rio.

Segundo o médico, os municípios têm (ou devem ter) os profissionais necessários para isso, que são os agentes comunitários de saúde, como os dos programas de saúde da família. A falta de uma coordenação nacional ou estadual para articular redes de rastreamento de contatos, porém, deixa as prefeituras desorientadas.

“A vigilância epidemiológica, que é a base da saúde pública, foi feita aqui durante a meningite, durante a poliomielite. O Brasil tem uma experiência com isso que muitos outros países não têm. Os agentes comunitários de saúde têm de ser usados para isso, para fazer identificação dos casos”, diz Dal Poz.

Uma das preocupações com a reabertura das escolas no Brasil, porém, é que, apesar de crianças terem uma taxa menor de complicações da Covid-19 quando comparadas com adultos, elas podem também ajudar a transmitir a doença adiante, ainda que com menor probabilidade. É muito difícil, em contrapartida, fazer crianças menores obedecerem a regras de distanciamento social, o que cria um complicador por outro lado.

O coletivo de cientistas Observatório Covid-19 BR, que reúne pesquisadores de diversas universidades brasileiras, criou recentemente um núcleo de trabalho para estudar e compartilhar experiências de rastreamento de contatos. Uma das maiores preocupações do grupo é justamente o monitoramento de escolas.

Sintomas como base

“A gente tenta auxiliar os municípios a criar grupos de rastreamento de contatos num cenário sem muitos testes disponíveis: o rastreamento é feito com base nos sintomas — afirma Camila Estevam, bióloga da Unicamp que integra o grupo. — O ideal seria ter os testes. O rastreio por sintomas funciona em alguma medida no caso de adultos, mas as crianças não apresentam sintomas de Covid-19, ou têm sintomas muito amenos. Como vamos saber se uma criança contraiu o vírus sem teste?

Segundo a simulação da University College, é preciso uma cobertura ampla dos casos de Covid-19 em toda a sociedade (não só nas escolas) para evitar que as salas de aula se tornem sementes de uma segunda onda da doença.

Presumindo que 68% dos contatos de casos positivos possam ser rastreados, 75% dos indivíduos sintomáticos teriam de ser testados para prevenir um rebote da Covid-19. Caso se adote um sistema de rotação, revezando alunos nas escolas, essa exigência poderia ser baixada para 65%.


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