Semana On

Sábado 19.set.2020

Ano IX - Nº 411

Viver bem

Os efeitos de fazer esporte usando máscara e qual é a mais indicada para a prática

‘Se a máscara não for confortável, é possível que a pessoa perceba que respira pior e que isso afeta seu rendimento’, diz especialista

Postado em 04 de Agosto de 2020 - Salomé García – El País

Foto: Leonardo Patrizi / Getty Images Foto: Leonardo Patrizi / Getty Images

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Cada vez são mais numerosas as cidades e países que tornam obrigatório o uso de máscaras, tanto nos espaços fechados como na rua (mesmo quando é possível manter os dois metros de distância social). Mas fazer exercício continua sendo a exceção à regra, e aqui cada um pode tomar a decisão que quiser. Alguns colocam um tipo de lenço, outros usam as máscaras cirúrgicas, as higiênicas ou as FFP2. Há também quem prefira investir numa versão criada especificamente para a prática esportiva, embora nem todas as marcas relacionadas com os exercícios tenham essa característica. Como não poderia deixar de ser, também existem as pessoas que deixam de usar máscaras dizendo que ficam molhadas com o suor, são desconfortáveis ou dificultam a respiração. Mas até que ponto esses argumentos são certos? Usar máscara afeta o rendimento esportivo? E, se queremos usar alguma, qual é a mais adequada?

Antonio Montoya-Vieco, doutor em Ciências da Atividade Física e do Esporte e treinador da Unidade de Saúde Esportiva do Vithas Hospital 9 de Octubre, em Valência (Espanha), foi atrás da resposta. Para isso, submeteu a uma prova de resistência três grupos de corredores e corredoras, com diferentes níveis de aptidão, para analisar os efeitos do uso da máscara. Especificamente, ele analisou a 42k 3D-SPORT, que, segundo os fornecedores, é higiênica e reutilizável, além de ser projetada para favorecer a máxima transpirabilidade, ergonomia e conforto durante a atividade física. Com a peça colocada, Montoya-Vieco registrou os dados de frequência cardíaca, os níveis de lactato no sangue (indicador de cansaço), a saturação parcial de oxigênio e o esforço percebido (uma variável subjetiva), enquanto os participantes corriam em diversos ritmos em faixas de dois e quatro minutos, com um minuto de recuperação a cinco minutos o quilômetro.

As conclusões indicam que a experiência muda, mas pouco. “Em todas as variáveis que analisamos, os valores aumentaram ligeiramente”, explica. A frequência cardíaca subiu entre 3% e 9%, e a diferença de saturação parcial de oxigênio, entre 0% e 2%. Algo que preparador físico não considera significativo. Os níveis de esforço percebido aumentaram entre 13% e 50%. “Quanto maior o valor numérico, interpreta-se que o esforço realizado pelo atleta é maior. Se a máscara não for confortável, é possível que a pessoa perceba que respira pior e que isso afeta seu rendimento”, esclarece. Os valores do lactato no sangue também aumentaram entre 1% e 71%, mas Montoya-Vieco diz que isso é normal quando passamos do repouso para o exercício.

Se algumas pessoas demonizam o uso da máscara no exercício, outras afirmam que ela poderia nos deixar mais fortes. Nas últimas semanas, usuários de redes sociais disseram que o acessório, ao dificultar a inspiração, poderia fortalecer os músculos respiratórios como o diafragma. Mas o fato é que as máscaras não são nem tão ruins nem tão boas. “Não considero que uma máscara esportiva —e menos ainda a empregada nesse estudo, após conhecer seus resultados—sirva para fortalecer o treinamento da musculatura respiratória. Se fosse assim, os atletas teriam começado a usá-las antes da covid-19”, diz o preparador físico.

Ser de marca esportiva não torna a máscara apta para exercício

Se você decidir utilizar máscara para fazer esportes, o melhor é escolher a mais adequada. Diferentes marcas famosas de materiais esportivos entraram na onda e colocaram à venda seus modelos têxteis entre os objetos da moda de 2020. Mas muitas delas, como Reebok e Adidas, cujas remessas esgotam toda vez que chegam ao mercado, advertem que o acessório “não é indicado para uso médico nem como equipamento de proteção individual”, embora possa ajudar a prevenir a propagação do vírus e dos germes pela transmissão de gotículas respiratórias”. Outras empresas, como a da máscara testada por Montoya-Vieco, desenvolveram alguns modelos aptos para a atividade física.

O importante é conseguir um equilíbrio entre a autoproteção (por meio de filtros homologados), um bom ajuste, a respirabilidade e a reutilização (após lavagem a 60 graus). A máscara da marca espanhola Idawen, explica sua cofundadora, Lara Harranz, consegue isso graças a um tecido técnico e elástico de Neoprene ultralight de dois milímetros de espessura com rede 3D de poliéster e malha elástica. “Também desenvolvemos dois filtros intercambiáveis para usar conforme seja ou não possível manter a distância social. Se for grande, aconselhamos o filtro de proteção antibacteriana confeccionado com Lyocell, com valores de filtragem bacteriana de 98,91% BFE, uma respirabilidade de 28 pa/cm2, lavável e que siga a regulação da Associação Espanhola de Normalização UNE0065: 2020. Para os casos de maior proximidade social, aconselha-se o filtro F9 segundo a norma EN-779:2012. Esse equipamento protege entre 75% e 85% contra os vírus, com valores compatíveis com a norma UNE-EN 149:2001+A1, próximos aos das máscaras FFP2.”

Garantida a proteção, é hora de evitar a sensação de asfixia. Ou seja, que o ar circule bem e que a umidade não se acumule, transformando a máscara numa espécie de pano úmido. “Sabemos como essa sensação pode ser desagradável. Por isso, incorporamos duas válvulas de exalação que são colocadas sobre o filtro e permitem expulsar o CO2 e a umidade”, diz Harranz. E acrescenta um detalhe: o fechamento é com velcro, não com borracha elástica. Um alívio para quem reclama que as máscaras apertam nas orelhas. Mas também para os carecas, esse coletivo no qual ninguém repara e cujos crânios desprotegidos sofrem muito com as borrachas. “No âmbito esportivo, o conforto e a adesão das peças é fundamental, já que você está em constante movimento. Fabricamos as máscaras com material elástico, mas é preciso ajustá-lo. Daí a importância do velcro e dos tamanhos”, explica.

A empresa 226ers fabrica sua Hydrazero mask em tafetá de microfibra hidrófuga em poliéster repelente a líquidos, com uma filtragem de 96% segundo a norma UNE-EN 149:2001+A1-2010. O design das borrachas de ajuste faz lembrar os óculos de nadar: são dois elásticos que cada usuário pode colocar da maneira que for mais confortável. Acostumada a equipar os ultramaratonistas (que disputam corridas mais longas que uma maratona), a empresa Buff não teve dúvida: era preciso incorporar duas tiras muito largas e ajustáveis para conseguir um “ajuste ergonômico e personalizado que não incomodasse durante o exercício”, afirma Danae Malet, product manager da marca. “Além disso, nossos filtros obtiveram uma eficácia de filtragem (BFE) de 98% e uma respirabilidade <40 Pa/cm2, de modo que oferecemos a mesma qualidade que as máscaras cirúrgicas (UNE EN 14683), muito superior à UNE EN 0065 das máscaras higiênicas reutilizáveis convencionais. Os filtros podem ser usados por até 24 horas e podem ser jogados nos pontos de coleta de plástico para serem reciclados.” Se a sua intenção é treinar sob o Sol, essa máscara também conta com uma proteção solar certificada UPF50+. E ainda é ecológica, fabricada com garrafas de plástico recicladas. Por último, a gigante Decathlon também fez sua própria máscara, que atende à especificação UNE065:2020, com uma respirabilidade aceitável (pressão diferencial <60 Pa/cm2) e resistente a até 500 lavagens.


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