Semana On

Quinta-Feira 24.set.2020

Ano IX - Nº 411

Entrevista

Niall Ferguson: ‘Em cinco anos esqueceremos como era a vida em 2019’

Historiador britânico acredita que nesta crise não há respostas progressistas ou conservadoras, mas ‘inteligentes ou estúpidas’, e cita Bolsonaro como modelo de ‘ignorância’

Postado em 03 de Agosto de 2020 - Rafa de Miguel – El País

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Niall Ferguson (Glasgow, 56 anos) é extremamente crítico com os Governos ocidentais por sua resposta tardia e, em muitos casos, “estúpida” à pandemia de coronavírus. O historiador da economia está imerso desde janeiro no estudo da crise. Sua personalidade provocadora e contestadora, mas acima de tudo o brilhantismo de sua análise, torna inevitável que uma e outra vez caia no “eu avisei”. No início do ano, ele já havia escrito sobre o que estava acontecendo e mostrou seu espanto quando os participantes do Fórum Econômico Mundial em Davos debateram sobre a mudança climática e se mostraram absortos com Greta Thunberg, sem perceber a ameaça originada na China. A globalização construída nas décadas anteriores, argumenta Ferguson, havia criado a rede de transmissão ideal para que a tempestade perfeita acontecesse.

 

Algum historiador chegou a sugerir que as gerações futuras nos verão como covardes que provocaram um colapso econômico.

No começo de tudo isso sabíamos muito pouco sobre o vírus e a doença que causava. O enfoque correto naquele momento era assumir o pior. A questão principal era agir cedo, buscar uma detecção precoce. Implementar um sistema de contato e rastreamento. Foi o que fez Taiwan e era o modelo porque era uma resposta inteligente. Os historiadores futuros podem acabar dizendo que a maioria dos países ocidentais foi demasiado lenta na fase inicial, para acabar usando instrumentos muito drásticos, como o confinamento quando a doença já estava se espalhando rapidamente entre a população. Não se pode falar de coragem ou covardia. Tudo se reduz a determinar qual estratégia é inteligente e qual é a estúpida. O importante desde o início era controlar os supertransmissores e as situações ou eventos de supertransmissão. Não soubemos entender isso. E agora continuamos agindo como se não o entendêssemos. Já sabemos que a maior parte da transmissão vem de um número relativamente baixo de pessoas. E o tipo de lugares onde ocorre mais facilmente, como bares e restaurantes. Eles simplesmente devem ser fechados até que o vírus esteja controlado. Os formadores de opinião que falam dessa situação como se fosse uma guerra e exigem coragem da população cometem um ato de ignorância nível Bolsonaro.

Mas quando se trata de atribuir responsabilidades, o senhor questiona que se aponte para os líderes políticos.

Não vou defender Donald Trump, Boris Johnson ou Pedro Sánchez porque cada um deles, à sua maneira, não agiu bem. Mas acreditar que a preparação ou a resposta a uma pandemia é algo que o presidente ou o primeiro-ministro de um país deva controlar pessoalmente é mostrar total ignorância sobre como os Governos modernos funcionam. Os leitores que mantêm certa capacidade racional compreendem que, na prática, uma sociedade complexa, moderna e desenvolvida possui um aparato burocrático com uma responsabilidade muito concreta no que se refere à preparação e à resposta frente a uma pandemia. Em janeiro, os serviços de inteligência já descreviam de maneira bastante precisa o que estava acontecendo em Wuhan, e muitos membros do Governo que deveriam ter uma resposta não estiveram à altura das circunstâncias. Fico profundamente irritado com a representação errônea da maneira como os processos de trabalho funcionam em uma Administração moderna. Em uma pandemia, não se vai ao presidente para contar-lhe que há casos estranhos de pneumonia na China e perguntar o que deve ser feito. Não é assim que funciona.

Existe uma resposta progressista à pandemia frente a outra conservadora?

É verdade que nos Estados Unidos, se você é democrata, está muito preocupado com a covid-19, usa máscara e deseja prolongar o confinamento. Se você é republicano, manda tudo para o inferno e volta ao trabalho. E essa divisão, em termos menos intensos, também acontece na Europa. Mas não acredito que exista uma maneira progressista e outra conservadora de fazer frente a esta crise. Pelo contrário, o que existe são Governos competentes e incompetentes.

Não lhe parece ruim que os Governos tenham gastado enormes quantias de dinheiro como resposta?

Se você fecha completamente sua economia e impede que as pessoas saiam para trabalhar, deve fazer algo para compensar isso ou acabará com protestos e distúrbios nas ruas. O erro consiste em pensar que se trata de estímulos. São simplesmente medidas de alívio. Do ponto de vista monetário, os bancos centrais retornaram ao seu papel histórico de gestores da dívida. Absorvem uma parte importante da dívida dos Governos e garantem que seu custo se mantenha baixo. Uma vez tomada a estúpida decisão de impor o confinamento, não havia outra alternativa.

E quais consequências isso terá?

Quando tudo isso acabar, pois vai acabar, teremos liberado toneladas de dinheiro que as pessoas estão economizando porque não é fácil de gastar. E esse dinheiro será gasto em consumo. A grande questão será ver o quanto a inflação sobe e que problemas isso implicará. A lição que aprendemos depois da Segunda Guerra Mundial foi que, se você não alcança um crescimento rápido, deve escolher entre uma austeridade dolorosa e prejudicial ou inflação alta. Ou, na pior das hipóteses, o não pagamento da dívida.

A pandemia acelerou o inevitável confronto entre o Ocidente e a China?

Ela exacerbou isso. Os Estados Unidos e a China estão encarrilhados há algum tempo no que chamo de segunda Guerra Fria. A pandemia revelou essa realidade aos europeus. A questão mais importante agora é quão grande será o Movimento dos Não Alinhados. Muitos países tentarão ficar no meio e não se comprometer. Boa sorte com isso, eu lhes diria. Não se pode manter essa equidistância sem pagar um preço muito alto. A segunda Guerra Fria chegou para ficar por um bom tempo. A única dúvida é se, em algum momento, escalará até ser uma guerra de verdade.

Diante dos que previam um antes e um depois da pandemia, parece que a humanidade tem uma memória ruim e voltará aos velhos hábitos.

A maioria das pessoas tem sérias dificuldades em conceituar as mudanças históricas, mas acabaremos modificando nosso comportamento social. Talvez não inteiramente, talvez não o suficiente, mas dentro de cinco anos pensaremos que as máscaras sempre foram usadas ou que é normal passar mais tempo em casa. Esqueceremos como tudo era em 2019 e diremos que a pandemia não foi para tanto, mas terá nos mudado.


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