Semana On

Terça-Feira 22.set.2020

Ano IX - Nº 411

Campo Grande

Em meio a avanço da Covid-19, Marquinhos amplia horário de funcionamento do comércio e reduz toque de recolher

Poder público cede à pressão pela retomada das atividades econômicas, mas flexibilização da quarentena nas atuais condições pode levar a tragédia ainda mais longe, afirma Fiocruz

Postado em 31 de Julho de 2020 - G1, Gabriel Valery (RBA) – Edição Semana On

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O prefeito de Campo Grande, Marquinhos Trad (PSD), anunciou na quinta-feira (30) a flexibilização das regras de funcionamento do comércio e setor de serviços. Ampliou os horários e dias de abertura. Ele também reduziu o período do toque de recolher e disse que vai fazer blitz de trânsito por todas as regiões da cidade, para fiscalizar a lei seca, reduzir acidentes e a ocupação de leitos por vítimas de traumas.

As medidas, conforme disse o prefeito, visam preservar vidas, da pandemia do novo coronavírus e ao mesmo tempo assegurar a sobrevivência econômica de Campo Grande. Elas foram anunciadas por Trad ao lado do presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) da capital, Adelaido Vila, e o primeiro secretário da Associação Comercial e Industrial da cidade (Acicg), Roberto Oshiro.

A flexibilização está sendo adotada em um período em que ocorre o agravamento da pandemia em Campo Grande, que é apontada pela secretária estadual de Saúde (SES), como um dos epicentros da doença em Mato Grosso do Sul. Nos últimos 10 dias, entre 20 de julho e está quinta-feira, 30 de julho, o número de casos na cidade, de acordo com dados da SES, cresceu 55,14%, saltou de 6.216 para 9.644.

O número de mortes provocadas pelo novo coronavírus aumentou ainda mais na capital no mesmo período, 80,3%, passando de 66 para 119. A taxa de ocupação de leitos de UTI disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para pacientes com Covid-19, casos suspeitos e outras doenças e enfermidades, pelo sexto dia consecutivo, ficou nesta quinta-feira, conforme a SES, acima dos 90% nos hospitais de Campo Grande.

Trad fez uma avaliação de que as medidas mais restritivas adotadas pelo município nos últimos dois fins de semana, o que chamou de mini lockdow, não resultaram no efeito desejado, que era frear o avanço da Covid-19. Ele disse que algumas atividades econômicas saíram prejudicadas, e que esses segmentos deram sua contribuição, mas a população não.

Comentou que se o município fiscalizava o funcionamento de bares, para evitar as aglomerações, as pessoas começaram a fazer festas e reuniões em casa. Disse que em razão desse contexto, foi adotada a estratégica de fazer blitz de trânsito em todas as regiões da cidade, de modo a diminuir a mobilidade.

Disse que as blitz começam já nesta quinta-feira. Segundo ele, essa medida apontada pelos técnicos e pelas entidades ligadas ao comércio e serviços, deve diminuir a circulação de pessoas e veículos, impactando na redução do número de acidentes e consequentemente de pessoas que precisam de leitos de UTI, por conta de traumas ocasionados em acidentes de trânsito.

“De cada 100 leitos de UTI da nossa capital, 40% são ocupados por pessoas que sofrem traumas e violência humana. O percentual dos pacientes com Covid-19 é quase o mesmo e os outros 20% são causas naturais”, divulgou.

O prefeito disse que as novas normas de funcionamento de comércio, serviços e disseminação das blitz, foram definidas depois de uma reunião do grupo técnico da prefeitura com os representantes da CDL e da Acicg. As medidas vão valer do dia 1º a 16 de agosto. Confira quais são elas:

- Toque de Recolher das 21h às 5h – antes era das 20h às 5h.

- Funcionamento do varejo, de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h; Sábado e domingo das 9h às 16h – antes era das 9h às 17h e nos últimos dois fins de semana os estabelecimentos ficaram fechados.

- Shoppings, todos os dias das 11h e fechamento às 20h.

- Academias de ginástica, de segunda a sexta-feira, das 5h às 21h; Sábado das 5h às 16 e domingo fechado.

- Salões de beleza, de segunda a sexta-feira, das 5h às 21h; Sábado das 9h às 18h e domingo fechado.

- Restaurantes, de segunda a segunda, das 5h às 21h.

- Supermercados, de segunda a segunda, das 5h às 21h.

- Serviços essenciais (farmácias, hospitais, unidades de pronto atendimento, deliverys, farmácias, etc), 24 horas, de segunda a segunda.

‘Tragédia naturalizada’, diz Fiocruz

Enquanto a pandemia de covid-19 já deixa mais de 91 mil mortos no Brasil, as aglomerações de pessoas seguem cada vez mais frequentes. Sem dar ouvidos a sucessivos alertas, o relaxamento precoce e equivocado das medidas de distanciamento social pelo poder público provoca o abandono em massa dos cuidados recomendados. A volta das aulas presenciais devem aprofundar a calamidade.

Desde o início da pandemia no país, em março, a curva de novos casos e mortes segue em ascensão. O período prolongado de mortes em massa passa pela “naturalização da tragédia”, nas palavras de cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ao contrário de outros países afetados pelo vírus que adotaram o isolamento social, o Brasil vive a estabilidade das mortes em momentos de pico, acima de mil mortos por dia.

Cenas de aglomeração são cotidianas, mesmo em dias com piores números da pandemia. A última semana foi a mais letal e com maior número de casos registrados. O último dia 30 foi o dia de maior número de mortos, acima de 1.600, e de casos, acima de 72 mil. Não existe sinal de que a situação deve melhorar. Cientistas temem o oposto; o descaso com medidas de segurança sanitária podem pressionar a tragédia para além.

Aglomeração banalizada

A pressão do governo federal, somada à omissão de chefes de executivos estaduais e municipais desorienta a população. No Rio de Janeiro, praias lotadas; em São Paulo, ruas cheias e filas em shoppings. Muitos nem sequer usam máscaras.

No início do surto, governadores e prefeitos adotaram um discurso moderado de enfrentamento ao governo Bolsonaro e defenderam medidas de distanciamento social como forma de combate ao vírus. A quarentena teve apenas percentuais baixos de isolamento – sempre em torno de 45% –especialmente entre os meses de abril e junho. No entanto, agora cedem à pressão de setores econômicos e autorizam em massa a abertura do comércio.

Em alguns estados, os governadores já articulam a volta às aulas. É o caso de São Paulo e Rio de Janeiro, estados com mais mortes por covid-19. Estudo da Fiocruz alerta que o retorno precoce das aulas pode colocar em risco 9,3 milhões de pessoas, e pode provocar a morte de até 35 mil idosos, maior grupo de risco. Entretanto, as vidas em risco não valem mais do que a ânsia de empresários pelo retorno de suas atividades e lucros.

Lucro acima da vida

No Rio de Janeiro, vídeo creditado ao Sindicato dos Estabelecimentos de Educação Básica no Rio de Janeiro (Sinepe Rio), entidade patronal que representa escolas particulares, promove ampla desinformação ao defender o retorno às aulas. Na peça, eles questionam a ciência, desdenham de estudos e desvalorizam as mortes somadas aos milhares.

Em resposta, o Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região (SinproRio) divulgou uma ampla nota de repúdio. “Nota-se no vídeo uma total falta de bom senso e ética com relação aos profissionais dos órgãos competentes de saúde, pesquisadores, os quais, neste momento de pandemia, se posicionam de forma contrária à possibilidade de retomada prematura das aulas presenciais”, afirma.

“É nítida a preocupação desse sindicato dos patrões, com o lucro que é colocado acima da vida, fazendo da educação uma mercadoria! Essa é uma atitude descabida de quem não considera o momento crítico que estamos vivendo, em nossa sociedade e no mundo, e não demonstra nenhuma empatia com o outro”, completa o sindicato dos trabalhadores.


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